Coisas do azul

Publicado em: 02/07/2006

Ainda te atropelam – dizia-lhe a mulher, que às vezes o acompanhava na caminhada  e que não gostava daquela mania dele de se distrair e de andar lá no meio da rua. Mais de uma vez puxou-o pelo braço. Ele achava graça. Tinha mesmo graça ser atropelado numa estradinha roceira como a de Santo Antônio de Lisboa para Sambaqui…
Por Flávio José Cardozo

Quinta-feira ele saiu sozinho, como sempre às 7,00 horas, e ela ainda o lembrou, entre brincando e falando sério, de que não era o dono da rua, se cuidasse. Na ida foi tudo bem: às 7,10 passou pela casa de Seu Agostinho, às 7,20 pela igreja, às 7,35 estava diante da casa de Seu Alvim. É ali, no Seu Alvim, que ele, cronometradamente, faz o retorno. E no retorno é que se deu o caso.
Vinha com o pensamento solto no limpo azul da manhã, na cantoria e nos cheiros do caminho, o pensamento correndo por tudo e nada. E vinha, para variar, no miolo da pista, feito o soberano senhor da natureza. Um Fiorino que entrega pão chegou a ter de passar se espremendo contra o meio-fio.
De repente, bem na curva de onde se tem, por acaso, a melhor vista dos dois Ratones, foi aquele impacto pelas costas – ele e alguma coisa se amontoaram. Ficou um pouco fora de órbita. Mas logo sentiu que só as pernas doíam e viu que estava no chão em companhia duma bicicleta e do respectivo ciclista.
– O que foi isso? – perguntou.
– Pois é… – murmurou o rapazinho.
Era um rapazinho duns 15 anos que ia para a escola – pelo menos era o que sugeriam os cadernos espalhados – e que logo tratou de se pôr de pé e ajudar o atropelado.
– Que barbaridade foi essa, rapaz?
– Pois é…
– Pois é, pois é… Bem apressadinho, hein?
– Pois é, nem vi o senhor no meio da estrada.
Conversaram. O homem admitiu que era mesmo um descuidado quando andava por ali de manhã, mas é que aquilo era lindo demais, distraía. Só que os ciclistas não têm o direito de mandar para o além os descuidados, têm? O rapaz animou-se e confessou que também ia no mundo da lua.
– Que lua, homem?
– Minha namorada, ia pensando nela. Ia à bala pra gente poder conversar um pouco antes de bater o sinal da aula.
– Vai, vai, te apressa, Fittipaldinho dos pobres!
O garoto sumiu, ele veio mancando um pouco. Quando chegou em casa, disfarçou. Entre séria e brincando, a mulher disse que até pensou, pela demora dele, que tivesse havido algum atropelamento. Ele inventou que Seu Agostinho o reteve para contar uma história que não acabava mais.
– Seu Agostinho nunca esteve com tanta corda. Coisas da manhã bonita, só tu vendo.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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