Com abas

Publicado em: 05/03/2020

Fábio estava desanimado, aliás, professores, radialistas, jornalistas e tantos outros têm motivos para o desânimo. Mas como são amantes do que fazem e determinados em seus projetos, além de teimosos, nunca desistem.

O professor Fábio aproveitou o dia para cortar o cabelo e ganhou de brinde o que sempre se ganha na barbearia do Otávio; um bom bate-papo. O radialista Antunes Carriel, seu Victor, Juvenal, Felisberto e o dr. Araújo que de folga já havia tomado umas e outras. Os amigos ficam surpresos que mesmo com certa quantidade de sangue correndo por suas veias alcoólicas ainda assim responde com precisão as perguntas que os amigos fazem a respeito de medicina e saúde. As conversas na barbearia do Otávio com toda aquela turma gente boa sempre mexe com os ânimos e pensamentos; ora os clientes saem rindo, outras refletindo, por mais simples que sejam os assuntos ali debatidos; quando são temas irrelevantes ficam pensando por que perderam tempo com o tema discutido. Naquela tarde de sexta-feira falavam sobre golpes, os quais chamavam de – contos do vigário. Quando Felisberto começou a relatar certo fato, Juvenal, mais por desatenção do que por falta de educação acabou por cortar a fala de Felisberto. Juvenal disse que quem cai nesses golpes é olho grande, ganancioso, burro, tanso e deveria ser preso antes mesmo que o bandido. A maioria concordou e mais críticas foram realizadas. Antunes Carriel disse que não era bem assim, que embora a pessoa que cai nesse golpe possa ter sido ingênua e gananciosa ainda assim não é o bandido da história. De repente Juvenal sentiu que havia cortado a palavra de Juvenal. Pediu desculpas ao amigo e pediu que continuasse seu relato. Felisberto coçou a cabeça e disse que nem lembrava mais o que ia dizer, que devia ser algo sem importância. Não era. Iria contar que no início da semana sua esposa havia caído num golpe desses. Algo como depositar mil reais para ganhar 20 no mesmo dia. Antes de começarem àquela conversa Felisberto estava com raiva dos bandidos, agora estava indignado com a esposa que além de perder o dinheiro quase o faz passar vergonha na barbearia. O professor, um pouco mais animado, paga o corte, despede-se cordialmente da turma e sai.

Fábio caminha e mentalmente refaz as contas que precisa pagar. Havia tomado dinheiro emprestado do seu Victor. As contas somavam 3 mil, havia conseguido mil reais. Um homem que vem em sua direção saca uma arma discretamente e anuncia o assalto. Ele diz a Fábio:

– Passa o dinheiro aí, rapaz, e não vai te acontecer nada. Manda pra cá o relógio, o celular e a grana, anda rapaz.

– Calma, senhor. Vendi meu celular, mas já gastei o dinheiro, paguei o condomínio. O relógio, não leve a mal, mas foi presente da minha avó três dias antes de morrer. Foi uma mãe para mim.

– Beleza, beleza. Minha avó também já morreu, sei como é. Mas tem grana nesse bolso, vinha te sacando há tempo, passa o dinheiro.

– Perdão, mas acabo de tomar emprestado e é para pagar contas atrasadas. Vai me sobrar 50 reais, aliás, ia, lembrei que a minha mulher disse que precisava de absorvente. Sabe como elas ficam nesses dias. Contas atrasadas e sem o absorvente. Pior é que não lembro se é com abas ou sem abas e nem tenho como ligar pra ela.

– Isso é um saco mesmo. Tenho duas mulheres, uma usa com abas e a outra sem. Sempre confundo, elas já andam desconfiadas. Tu tem cara de quem ganha bem, é advogado, médico, contador?

– Não, senhor. Sou professor.

– E quanto ganha por mês?

– Varia um pouco, mas com 40 horas semanais dá para receber entre 3000 ou 3500 por mês. Só que ainda estou sem trabalho esse ano. Por isso peguei emprestado. Várias parcelas de condomínio, prestações do apartamento, contas de luz; na verdade o que peguei emprestado não paga nem um terço do que devo. Lamento, mas não posso te dar esse dinheiro.

– Eu não imaginava que um professor ganhasse tão pouco. Faz o seguinte. Me passa 200 reais e tudo certo, te deixo ir numa boa.

– Não tem jeito. Com todo respeito, mas o que tenho não paga nem um terço do que devo.

– Tenho máquina de cartão. Vou levar em conta que além de estar desempregado ganha pouco. Te parcelo em 10 vezes de 20 reais. Hoje é sexta-feira e ainda não consegui nada, parece que tá todo mundo sem dinheiro. Que crise é essa? Shopping sempre cheio. Pode ver, estacionamento lotado. A fila do cinema enorme. Já viu o preço da pipoca no cinema? E ainda tem fila para comprar. Um montão de gente pedindo lanche em casa. Olha os carrinhos de compras nos supermercados. Crise? Pega a máquina e põe a senha.

– Estou sem cartão faz 10 meses. Acabei um parcelamento e quebrei a droga do cartão.

– Tu tá complicando a coisa ai o professor desempregado. Mas tudo bem. Faço 10 vezes de 20 reais sem cartão, no fio do bigode. Todo dia 5 deixa atrás daquele poste ali. Se não tiver no dia deixe um bilhete, mas pague até o dia 10 no máximo. Se passar desse dia será 25 por mês até o final do acordo. Fechado?

– Fechado. Desculpa a pergunta, mas nunca pensou em mudar de vida?

– E fazer o quê? Ser professor? Pra falar a verdade ando com algumas ideias mesmo. Cansado dessa vida, droga. Ando pensando em religião.

– Que bom. Vai mudar de vida. Já pensou qual frequentar?

– Não é o caso de frequentar. Penso em montar ou fundar uma. Dá um dinheirão. Ai vou ganhar bem mais e sem usar essa arma nem o risco de ser preso. Se bem que estamos em ano de eleições. Se não conseguir nada esse ano, ano que vem vou arrumar um rebanho. Não esquece. Todo dia 5. Ah, e quando tiver a minha igreja vou te intimar, quero dizer, te convidar. Vivemos tempos difíceis, tá na hora de ganhar mais.

No mês seguinte Fábio contou a história na barbearia. Felisberto sentiu ainda mais vergonha, mas não havia contado nada para a turma. O Juvenal perguntou o que sua esposa disse e como reagiu.

– Só consegui contar no dia seguinte. Levei o absorvente sem abas. Quando viu me deu uma bronca, disse que não presto atenção e não faço nada direito.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *