Comida a quilo

Publicado em: 28/11/2012

Comer na mesa é hoje exceção àquela regra que juntava as pessoas numa comunhão gastronômica. A implacável mão da pressa, que nos pega e atira daqui para ali, no redemoinho do cotidiano, condena as refeições saboreadas com vagar a uma “perda de tempo”. O fast food impera. Mas outra implacabilidade age sobre nosso comer: o imperativo econômico fez com que a mesa servida cedesse lugar ao onipresente formato da “comida a quilo”. Nos dias que correm, mesmo restaurantes tradicionais oferecem essa modalidade de comida que agride o encantador jeito de servir no qual o garçom era o mestre-de-cerimônias.

Garçons eram mais que garçons. Psicanalistas, confessores, professores na arte de viver, enfermeiros – até bancos para pequenas emergências financeiras garçons eram. Isto sem falar naquele generoso “choro”, que acrescentava quase uma dose gratuita ao uísque, ou na ainda mais generosa prática de “pendurar” a conta dos fregueses fiéis.

Com os garçons, vão-se também os ambientes calmos, de luminosidade controlada, aquela mesa de sempre, ao fundo, cenário de romances, paixões, copiosas lágrimas, mentiras deslavadas, confidências, inconfidências – tudo isso que fazia da mesa do restaurante um espaço único, um lugar especial em que a comida era quase tão somente um pretexto.

O balcão das comidas a quilo é a própria despersonalização desumanizada do comer.

No início, essa modalidade era apenas uma alternativa, confinada a determinados lugares e baseada numa quase envergonhada necessidade de baratear as refeições. Aos poucos, tornou-se a dominante e avassaladora forma de servir comida.

Agora, qualquer bequinho, qualquer pequeno estabelecimento tem lá seu balcãozinho de comida a quilo. E mesmo muitos elegantes estabelecimentos converteram-se ao novo credo da rapidez e da economia.

Curiosamente, é raro encontrar alguém que definitivamente prefira a comida a quilo. Quase todos fazem restrições – comida “mexida”, comida fria, coisas assim. Mas se rendem à praticidade e à inelutável falta de tempo.

Que é prático e mais barato, não resta dúvida. O ambiente calmo e especial, a atenção, o carinho, a amizade e tudo aquilo que já mencionei acima a respeito dos garçons têm um custo, que eleva o preço da comida servida. Além disso, a variedade a escolher é grande, na comida a quilo, o que dá alternativas, por exemplo, a vegetarianos, como eu.

Essa prática, agora imposta, do servir-se impôs-se também avassaladoramente em nossas vidas. Você já pensou nisto, caro ouvinte ou leitor?

Hoje em dia, no supermercado, nós mesmos ensacolamos nossas compras; nos ônibus, os “passes” e cartões vão aos poucos substituindo os trocadores; já existem postos de gasolina que, a exemplo de muitos países do mundo, nos põem a abastecer nosso próprio carro; nos caixas eletrônicos, fazemos todas as transações, que outrora faziam de certos caixas conhecidos verdadeiros amigos, uma espécie de “garçons de servir dinheiro”… E por aí vai.

Nos balcões de alimentação a quilo, confesso que me desagrada bastante aquela comida toda exposta lado a lado. Em muitos lugares, a sabedoria de nutricionistas está por detrás, fazendo com que pratos afins fiquem próximos uns dos outros. Em outros, de preço mais barato e menos sofisticados, apresentam-se, juntinhos, os alhos com os bugalhos – folhas próximas dos tubérculos, legumes perto de sobremesas, sucos colados nos grãos, e coisas assim.

Tenho um conhecido que brinca: “Mas o que importa, se, quando comemos, tudo se mistura?”.  Calo-me, porque essa espécie de cinismo gastronômico me parece – desculpem pelo viés trocadilhesco – difícil de engolir.

Há, ainda, como em todo o comprar e vender, uns truques que me incomodam. Por exemplo: o de caprichar nos alimentos pesados – a batata aqui impera – para que o freguês faça pesar não somente sua barriga, mas o prato da balança, aumentando seu consumo e a renda do estabelecimento.

Curvo-me a essa modalidade nova de servir comida, como me curvo, sem alternativa, a outras “modernices” e a inovações impostas pela dimensão econômica e pela vida vivida com pressa. Porém, reservo-me o direito de saborear, pelo menos em lembrança, a comida servida à mesa, com gentileza, carinho, atenção e vagar.

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