Confeitaria do Chiquinho, 112 anos de encantos e amarguras

Publicado em: 29/02/2016

O tradicional ponto comercial da rua Felipe Schmidt, esquina com a rua Trajano, no coração da cidade, está na história da Capital catarinense desde o dia 11 de janeiro de 1904 com a inauguração da Confeitaria do Chiquinho.

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A história está contada em reportagem de meia página do jornal O Estado com texto de Paulo Barros e fotos de Lourival Bento, na edição do dia 25 de outubro de 1981. O que, porém, teria notabilizado essa singela casa comercial constituída de um salão que abrigava um pequeníssimo bar e uma generosa padaria? Seria o sortimento do bar, que vendia uma centena de produtos diversificados, desde água mineral e refrigerantes vários, até cafezinhos e lanches que iam do simples pão com manteiga às empadinhas produzidas pela própria família? Ou seriam as singelas instalações de mesas e cadeiras bem distribuídas ao longo do salão? Quem sabe os motivos estejam do outro lado do balcão, como sugeriu em 1967 o poeta Hermes Guedes da Fonseca quando as portas da confeitaria foram cerradas pela primeira vez?

Disse o vate nos versos que repito, pois que publicados na já mencionada reportagem do “Mais Antigo”, como era também conhecido o jornal O Estado:

“Era uma pequena casinha, toda verde e de beiral,

Como que do nosso mundo, era ela a Capital.

De mármore eram as mesas e de palhinha as cadeiras;

Assim é que era o Chiquinho, em as nossas horas fagueiras.

Mas, era cheia, a um só tempo, de encantos e amarguras,

Como diria Bilac, esplendor e sepultura.

Uns carpir suas mágoas iam, outros ali iam sonhar,

Com suas bem-amadas, felizes, se embriagar”.

Como apontou o repórter, completando a poética inspiração: “O ponto de encontro da sociedade. De namoros, talvez hoje casamentos famosos, e quem sabe, também, de comentadas separações – sempre acontecem. Mas o Chiquinho reaberto o foi, tempos depois, em uma loja de roupas, junto a um salão de beleza”.

Chiquinho3Aqui permita o navegante destas despretensiosas linhas que eu relembre para os mais longevos e informe aos jovens diletantes que o mistério todo estava em outro lugar: no estomago! Sim! O atrativo mór, o segredo derradeiro é que as empadas do Chiquinho, particularmente as empadas de camarão, eram imbatíveis, como disse Hermes Guedes da Fonseca, quando a confeitaria reabriu na loja 3B: “Boas, bonitas e baratas”, as empadas, é claro.

Sobre as empadas, é bom que você se alerte, havia um quê de mistério, pois ninguém conhecia alguém que conhecesse a receita secreta das empadas do Chiquinho. Por isso, na reportagem, o Paulo Barros anotou: “Ferreira, continuador das empadas da Confeitaria do Chiquinho, chamou seu cozinheiro e a sua filha e informou: a receita, a final, tão cobiçada, será publicada no jornal: Assim se faz Uma empada à la Chiquinho.

O que ele não disse é que além da receita há outros “ingredientes” absolutamente necessários: habilidade, jeito e vocação.

Mesmo assim, aqui vai a receita para quem quer fazer em casa:

“Meio quilo de banha suína, uma colher de sopa rasa de sal, um quilo e meio de farinha de trigo, dois copos de água, uma azeitona (para cada empada), e o camarão misturado na massa. Em seguida levar ao forno”.

Mas, se você quiser abrir uma confeitaria com as mesmas empadas, aqui vai uma receita para três dias de empadas do Chiquinho: “Massa para três dias, seis quilos de banha, 15 quilos de farinha de trigo, ½ quilo de sal e 12 litros de água.  Mistura-se tudo amassando a massa como se faz com o macarrão (não leva fermento), e guarda-se na geladeira. A massa é esticada em rolo de macarrão, põe-se nas formas junto com o camarão, palmito e azeitona. Importante: tanto para uma como para outra quantidade, o camarão é fervido e em seguida acrescenta-se a própria água do ensopado de camarão na massa. A massa dissolve-se na água do ensopado e é deixada ferver. Depois, forno com ela, e empadas na mesa, ou no balcão, caso a intensão seja fazer uma nova confeitaria”.

Um pouco de história

Chiquinho2O que você vai ler a seguir é o texto de abertura da reportagem “Confeitaria fecha após 77 anos, mas revela a receita da empada”.  Diz o repórter Paulo Barros: “A Confeitaria do Chiquinho, que ficou conhecida por fazer as melhores empadas de camarão da Ilha, no próximo dia 27 vai acabar (lembra que a matéria foi publicada no dia 25/10/1981). E na história das empadas se pode, inclusive, acompanhar a passagem de alguns fatos históricos ou pitorescos, como a vinda de Getúlio Vargas à Capital de Santa Catarina ou o banquete maçônico oferecido a Nereu Ramos, entre outros. Mas também aqui se revela um segredo mantido sete chaves que muita gente já procurou: como fazer as deliciosas empadas?  Aqui mostramos isto, e contamos um pouco da história da confeitaria e da passagem de personagens ilustres da terra pelas mesas do Chiquinho”.

Velhas fotos

“Antônio Ferrari, filho de Teodoro Antônio Ferrari, continuará a tradição das empadas até 27 de outubro, quando ela será definitivamente fechada. Com mais de 60 anos Ferrari quer agora apenas descansar. Muita coisa mudou desde a época em que as primeiras empadas foram ao forno em 1904, na antiga Rua da República, hoje Felipe Schmidt. Os salgadinhos famosos estão sendo confecionados na Trajano, 39, num prédio onde também funcionam a Casa 3B – Artigos para senhoras, cavalheiros e crianças – A 1a. em Meias e Botões, e o Salão de Beleza da filha de Antônio Ferrari. Mas é no meio das suas recordações, gravadas em velhas fotos, jornais e textos, que Ferreira vai lembrando o tempo que passou. Primeiro, no entanto, faz duas declarações:. Deixo com saudades, mas sou obrigado a descansar. Há 40 anos venho fazendo minhas empadinhas. E a outra:. Eu sou um conservador. Sou um pessedista. Depois a história:. É de 1904 o primeiro Alvará para funcionamento da confeitaria de Francisco Künzer – a Confeitaria do Chiquinho, que depois passou para o pai de Antônio Ferrari. Em 1947, Ferrari conta que eu entrei para a firma de meu pai. Tinha 27 anos e comecei a ajudá-lo a encaixotar a cerveja que vinha do Rio de Janeiro, em caixas com 72 garrafas – hoje (1981), um engradado tem 24 garrafas”.

Charuto Cubano

“Em uma foto antiga, de 1910, a imagem da antiga confeitaria: nas prateleiras garrafas de cervejas alemãs, Vinho italiano, azeitonas espanhola e portuguesa, charuto Havana, importado diretamente de Cuba. Do país que produz o melhor charuto, mas que cada abrasileiro que tem passaporte, é lembrado sempre que o documento é válido para todos os países à exceção de Cuba (Isto é carimbado nos passaportes brasileiros).

Outra foto mais recente mostra o time do Botafogo campeão carioca de 1957, pois além de se definir como “um conservador do PSD”, ele também é botafoguense de quatro costados”.

“Mas, voltando às empadas, diz Ferreira: Meu pai faleceu em 1950. Tenho 11 irmãos, mas dos seis sócios que tinha no Chiquinho, apenas eu continuei. Como a fábrica de empadas está funcionando junto a uma loja de roupas e um salão de beleza foi suspensa a venda de bebidas. Então acontecia que as pessoas pegavam as empadas e iam tomar o aperitivo aqui em frente, no Roda Bar. E diziam:. Embrulha 10 empadas!

Banquete Maçônico

“Nas fotos gastas pelo tempo Ferrari aparece investido na função de cozinheiro. Trajando-se de branco, como um cozinheiro de outrora. Em primeiro lugar, como não poderia deixar de ser, o criador, poderia se chamar também do inventor das empadas do Chiquinho: o Mestre Padeiro, Sr. Manoel Marcelino. Mas trabalharam também o Altino Silva, um Mestre Padeiro de grande gabarito e o velho Alfredo Souza que morreu. A mesa do pequeno escritório da Confeitaria do Chiquinho que hoje é do Antônio Ferreira (Ferrari?) que vai se aposentar dia 27, já está cheio de velhos papéis amontoados”.

Figuras ilustres

Chiquinho4“Em uma delas um banquete. Algumas pessoas vestidas de branco, outras com traje escuro. Era no ano de 1933, quando Nereu Ramos entrou na Maçonaria e, por isto, foi homenageado – informação de Ferreira. Ele olha a foto com um sorriso de quem recorda e vai apontando os nomes presentes à comemoração maçônica: Este é o pai do Gustavo Neves, jornalista falecido. Aqui o Tito Carvalho, também jornalista; o Desembargador Alves Pedrosa, o Osvaldo Rodrigues Cabral, falecido. Aqui está o Ferreira Bastos, falecido e este é o primeiro representante da Brahma em Santa Catarina. Vitor Bush, falecido. O Arnoldo Suarez Cuneo, professor universitário e dentista.

“Entretanto, apesar do conhecimento que tem da maçonaria, ele diz que nunca aceitou os constantes convites que lhe fizeram para entrar no mundo maçônico. Meu pai era maçom. Sempre me convidavam, mas eu nunca aceitei. Entre tantas histórias da ‘empadaria’ existe uma que é a seguinte: o freguês que não achar uma azeitona em qualquer empada escolhida, ganha um prêmio. Mas, certa vez um freguês achou dentro da empada a azeitona, e além disto também ganhou um prêmio: um parafuso. Ferreira explica:. Certa ocasião, quando foi feita uma empada no Chiquinho – elas eram feitas com correias de transmissão e num tacho, da engrenagem caiu um parafuso na massa. A empada foi ao forno. Não sei quem foi o camarada, mas ele disse: Fui premiado, além da azeitona ganhei um parafuso”.

Getúlio, Orlando Silva…

“Da forma confusa do tempo guardado nas fotos, vai recordando a vez que Getúlio Vargas veio a Florianópolis, e mostra uma foto de uma multidão nas ruas, saudando o político. E aponta com orgulho para sua própria figura de braços levantados, participando da vibração popular”.

“Mostra uma dedicatória que Orlando Silva deixou à Confeitaria do Chiquinho quando aqui esteve, experimentou as empadas e gostou. Emocionado, escreveu:. À Confeitaria do Chiquinho a homenagem do Orlando Silva. Segue-se a assinatura e a data: 1950”.

Uma certa garotinha

As histórias de clientes especiais da Confeitaria do Chiquinho são muitas. Conheço poucas, mas dentre essas uma me é particularmente lembrada com ternura.

Chovesse, fizesse sol. Soprasse o inclemente vento sul, levantando as saias rodadas de jovens adolescentes e de circunspectas senhoras, toda terça-feira, final da tarde uma freguesa era recebida com admiração e carinho pelo pessoal da Confeitaria. Miudinha para os seus doze anos de idade, mal alcança a altura do balcão. Moreninha, cabelos cacheados se destaca pela maneira correta de falar e pelo uniforme das alunas do Ensino Fundamental do Colégio Coração de Jesus, onde fazia o pré-ginasial – uma exigência para quem completava 12 anos de idade depois do mês de junho.

Pois é, a Pequena, mesmo preparada intelectualmente tinha que fazer o pré para poder cursar o Ginasial no Instituto Estadual de Educação. Filha de família de poucos recursos, recebia mesada semanal – a mãe era costureira numa famosa fábrica de camisas de Florianópolis – mas que lhe permitiam divertir-se fazendo três coisas não muito comuns para uma menina de sua idade: assinava o Clube do Livro de quem recebia dois exemplares por mês, comprava semanalmente a revista O Cruzeiro e, por que ninguém é de ferro, queimava o restante da mesada comprando meia dúzia de empadas do Chiquinho.

Livros e revista na sacola, mais o pacote de empadas embrulhadas em papel pardo, ela seguia para casa. Sozinha, assim como viera, voltava para Av. Mauro Ramos, a pé. No trajeto, como de hábito, ela comia as seis empadas sozinha.

Dois anos depois, concluindo o que hoje é o Segundo Grau, começou a trabalhar. O escritório da empresa, instalado na Praça XV de Novembro, servia à feição para que todas as tardes ela mantivesse sua fidelidade ao lanche sagrado das quatro da tarde: comer uma empada do Chiquinho.

A menina cresceu, namorou, se apaixonou, casou e constituiu família. É mãe de cinco filhos, avó de oito netos e bisavó de quatro bisnetos. Em 2016 vai completar 82 anos de idade, no comando da casa, sem nunca ter contado com os serviços de empregada doméstica. Nisso ela é categórica: “Do meu marido cuido eu!”

3 respostas
  1. Walter Souza says:

    No dia do encerramento das atividades, eu coordenava a Atlântida FM e como comunicador por volta das 9 horas da manhã, recebi a visita do Sylvio Ferrari, com duas bandejas de empadinhas. Palavras do meu amigo: estou encerrando as atividades e gostaria de presentear-te com o produto. Pintou entrevista ao VIVO e alguns ouvintes foram premiados na oportunidade. Igual nunca mais. Viva empadinha do Chiquinho. soiza

  2. Mariha Ferrari says:

    Olá Antunes Severo! Li a reportagem e fico muito feliz com a lembrança das empadas do meu avô. Mas há que se fazer uma correção no nome dele, que era Sylvio Ferrari e não Antônio. Theodoro Antonio Ferrari era meu bisavô, pai do Sylvio. Assim, esclareço que quem continuou a produção das empadas e quem está na foto, chamava-se Sylvio. É que várias vezes na reportagem se referiram a ele como Antônio. Obrigada pela lembrança dele. Agradeço! Mariha Ferrari – neta.

  3. Sandra selinke says:

    Fundada por Francisco hoje chiquinho e sua. Esposa Bherta Busch mais tsrde 2 casamento Selinke vieram da Alemanha. Aqui abriram o comercio.mais tatde foi vendida psra os Ferrari

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