Conselheiro Mafra: a alma de uma rua chamada “pecado”

Publicado em: 11/11/2007

Caro leitor! Existe um espaço nesta cidade que há muito me desperta curiosidade e questionamento. Tanto que fiz uma dissertação sobre ele. No entanto, agora, para falar sobre este meu (antes) objeto de pesquisa, não consigo mais me desvincular dos rigores acadêmicos. Por isso, pensei: “preciso me perder na Rua Conselheiro Mafra”.
Por Marilange Nonnenmacher

Ops! Calma… Muita calma. Perder-se no sentido oferecido por Walter Benjamin, num desprender-se dos afazeres cotidianos para estranhar um lugar e perceber suas singularidades. Então, resolvi cair em perdição na Rua Conselheiro Mafra para escrever-lhes algumas linhas, ou talvez alguns textos.
Deixei o burburinho incansável da rua soar aos meus ouvidos e pensei: “Essa rua possui uma espécie de alma”, como nos disse João do Rio, em “A alma encantadora das ruas”. Uma alma que a singulariza na paisagem do centro histórico da cidade de Florianópolis. Atentei, então, para os camelôs comercializando suas mercadorias sobre as calçadas. As lojinhas do Mercado Público, todas abarrotadas de produtos para a disputa incansável pela atenção do comprador. A feira ao lado da Alfândega, onde compro doce de framboesa.
Mais à frente, prosseguindo o passeio, lá pelas bandas da Rua Bento Gonçalves antes Beco do Segredo, lugar sobre o qual ainda conversaremos, percebi algumas mulheres se exibindo na expectativa de encontrar algum cliente. Elas oferecem continuidade à antiga prática de comércio sexual que sobrevive nessas imediações desde os tempos de atividade portuária em Florianópolis. Observei as antigas moradias, bem como as pensões e hotéis baratos que alugam quartos para uma clientela de poucos recursos.
Situada do lado oeste da praça XV de Novembro, ela desponta nos primeiros esboços que deram origem à malha urbana da antiga Desterro. Primeiramente, o caminho que partia da praça XV de Novembro, no sentido paralelo ao porto e que seguia até a região denominada Figueira, chamou-se Rua do Príncipe. Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, não se sabia a qual príncipe especificamente cabia a homenagem, pois os “vereadores de Desterro, muitos deles assinando de cruz, eram bastante espertos. Rua do Príncipe serviria a qualquer um que por aqui passasse, a quem poderiam atribuir a homenagem. Um nome adiante do título – e cem outros estariam afastados”.
Mas em 1889, com a Proclamação da República, nomes de muitas ruas que homenageavam a família real foram substituídos por nomes de republicanos e revolucionários. Dessa maneira, seguindo as determinações da época, a Rua do Príncipe, por centralizar o comércio de tecidos e outras mercadorias, passa a chamar-se Rua do Comércio. Em 1900 altera-se para Altino Corrêa, mas a população continua a chamá-la de Rua do Comércio. Finalmente, em 1910, em homenagem ao advogado e político Manoel da Silva Mafra, pelo papel que desempenhou na questão dos limites contestados entre Santa Catarina e Paraná, passa a chamar-se Rua Conselheiro Mafra.
João do Rio também nos disse que as vias públicas são ambientes propícios para o “exame perpétuo” e onde as pessoas se entregam à tirania do olhar. Contudo, é na rua, de modo geral, que se encontra também “o prazer da sedução” e, nessa direção, pelas suas peculiaridades, a exígua Conselheiro Mafra, conforme as palavras do jornalista Saint-Clair Monteiro, no Jornal O Estado de 1975, “é quase uma rua chamada pecado”.
Esse território entre a cidade e o mar abrigou variados grupos da população que subsistiam da intensa circulação de pessoas, produtos e informações que faziam parte da rotina do cais, como as agências de navegação, estaleiros, comércios de importação e exportação que se estabeleceram nas imediações, empregando grande número de pessoas e adensando a movimentação local. Esse particularismo conduz a outros: trata-se de um lugar de sociabilidades, um entreposto de sobrevivência. Por isso, sobre um pouco mais da história dessa Rua, de seus antigos moradores, comerciantes e das táticas utilizadas por muitos para burlar os trechos mais perniciosos, lhes falarei num próximo momento.
Concluindo, penso que se avizinhar com o cais do porto possibilitou a Conselheiro Mafra conhecer histórias que nenhuma outra rua da cidade verificou, o que lhe conferiu um estilo, um tipo de alma. Uma alma… Mais profana talvez.
 


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1 responder
  1. Paulo Rocha says:

    Olá, gostaria de saber quem batizou a rua com o nome do paranaense Mafra? Foi o governador ou o prefeito? Abraço! PS: otimo texto

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