Correspondente em Londres

Publicado em: 16/12/2004

Pois aqui está ele fazendo a sua primeira incursão como cronista e faz esta estréia no estilo self made man que o distingue: o texto, as fotos e a diagramação – como se dizia a algum tempo -, são de sua lavra. Mauro Corbeta Regis, ao som das trombetas da Rainha Victoria apresenta a sua “LONDON-FLORIPA CONNECTION”.
Por Mauro Regis

Primeiro metrô do mundo
Por Mauro Régis, de Londres
Neste momento nosso relógio registra 7:56 h (pelo horário de Greenwich)  e o inverno Londrino fica evidenciado pela presença de um frio cortante e uma escuridão  noturna, enquanto iniciamos a jornada em busca da matéria number one  para nossos CAROSOUVINTES.

Em poucos minutos alcançamos a estação de Upton Park e no guichê compramos o One Day Travel Card, um ticket  que nos permite (até as 4 horas da madrugada de amanhã) entrar, sair, voltar, pegar  ônibus (de qualquer linha urbana),  e voltar tantas vezes quantas nossa resistência agüentar ou esgotar o tempo limite.
A estação de Upton Park fica no bairro de West Ham e é apenas uma das 257 existentes no sistema, que abrange mais de 400 km de extensão, servidos por 14 linhas que se cruzam num emaranhado de túneis e  viadutos.
Poderíamos tranqüilamente trabalhar nos limites de nosso próprio bairro (zona 3), onde a presença predominante de indianos, iranianos, iraquianos, africanos … sugere a existência de um laboratório genético experimental, com toda a exuberância dos coloridos específicos e dos já mesclados.
Mas não querendo passar a idéia de um trabalho de tão pouco empenho, vamos avançar 14 estações pela linha verde (District Line) , mudar para a linha marrom (Bakerloo Line) na estação de  Embankment e avançar mais 4, até chegarmos em Baker Street, a primeira e mais antiga estação de metrô do mundo, ou será que  estamos enganados?
Ao desembarcarmos, a visão de modernidade insinua um equívoco. Nada melhor, então, do que consultar um nativo e de preferência um funcionário da estação (uniformizado).
Please, can you help-me ?
Off course – responde o funcionário.
Esta não é a primeira estação de metrô do mundo? – pergunto.
Com um sorriso que não aparentava  vergonha, mas educadamente, disse não saber e em seguida, sem nenhum gesto prévio, pelo rádio, consulta algum colega que, agora pasmem pra valer, também não sabe.
Indignado, continuo a caminhar pela  estação e observando a ausência de traços arquitetônicos do  século passado, a convicção de engano é reforçada, enquanto uma inesperada luz aponta-nos para a estação de Paddington, famosa pela grandiosidade de suas instalações e pelas conexões com linhas de trem para a Europa e interior da Inglaterra.
Então vamos lá conferir. Duas estações adiante e  Upton Park se apresenta com toda a  imponente majestade.
Escadas rolantes de última geração, elevadores, praças de alimentação, agências de viagem, bares, cafés, restaurantes, casas de câmbio, hotel cinco estrelas, trens, muitos trens de alta velocidade e de aparência futurista…mas e a nossa tão procurada estação original ?
Pelo labirinto de alternativas vamos atravessando subterraneamente  ruas e linhas, sempre deslumbrados com a contrastante visão de passado e futuro, lado a lado sim, mas cada qual com sua personalidade, estilo e beleza.
A impaciência parece já tomar conta da situação e nada como uma boa ducha de água fria para aliviar a cabeça e isto é o que se pode chamar de verdadeiro choque térmico.
Com o corpo aquecido pela climatização de todo o ambiente subterrâneo, alcançamos a rua a céu aberto e como brinde, uma leve brisa soprando 60 graus centígrados.
É hora do How much is it.
Sim CAROSOUVINTES, precisamos criar nossos mecanismos de sobrevivência em terra tão distante, comunicação tão difícil e clima tão frio.
A  técnica é simples e consiste em entrar em qualquer loja que venda qualquer produto e dirigir-se ao vendedor – Please, How much is it?
Esta perguntinha mágica nos concede o tempo necessário para reaquecer o corpo antes de voltar para o gélido frio da rua e assim sucessiva e alternadamente, sempre que sentirmos nossa bateria enfraquecendo.
Numa destas entramos pelo cano, pois tentando aplicar a técnica no atendente de uma lanchonete, este prontamente respondeu  – Óh brasléiro, extaixxx a falaire um Inglêxx trrível.
É desnecessário dizer que surgia ali mais uma relação de amizade em Londres.
Rimos, trocamos idéias, paguei a “Tuna” que acabei comendo, bati fotografia do trio português (foto acima) que administra a casa e voltei direto para a estação de BAKER STREET, pois o meu novo amigo Antônio (um professor de História improvisado) confirmara BS como a primeira estação de metrô do mundo.
Agora sim, com as orientações do Antônio (estão vendo como não é verdade que em Portugal todos os homens se chamam Manoel ou Joaquim?) encontrei o pavilhão original, onde parte de suas paredes abriga um acervo histórico sobre THE WORLD’S FIRST UNDERGROUND RAILWAY,

Estava ali o tempo todo e não encontrávamos porque na realidade BAKER STREET (hoje) não é mais uma simples estação de metrô e sim um complexo de 5 estações (lines) que desde 1863 foram se agregando ao pavilhão original.
Levei uma surra, concordo, mas a diversão foi além da expectativa e é inexplicável o prazer de ter feito isto para os 2.603 CAROSOUVINTES, por intimação do Antunes,
Já voltando para casa, fizemos uma parada técnica no Café Rio, uma espécie de Embaixada Brasileira em Londres, onde acidentalmente conhecemos um nordestino que está trabalhando a 40 metros dali, no EXOTIC FOOD (ele havia acabado de preparar uma sobremesa de escorpião ao chocolate)… perdão, perdão, este assunto ficará para uma próxima oportunidade.
Até breve. Mauro Regis

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