Corruptos

Publicado em: 24/11/2011

Li na semana passada um artigo assinado por Frei Betto que traça um perfil completo e acabado do corrupto – que está longe de ser, ao contrário do que se imagina, o senador ou deputado encastelado nos gabinetes de Brasília. Ele está no nosso lado, é o sujeito que burla o fisco, que faz “gato” na ligação elétrica, que entra numa licitação – por menor que seja – após ter acertado a disputa com um concorrente de fachada.

Para ele, e para muita gente que se diz bem informada, a corrupção é algo etéreo, impalpável, que diz respeito aos outros, nunca a nós mesmos. Corrupto é o indivíduo que não acha tão grave subornar o policial para aliviar na multa, que aceita sem pejo o toma lá, dá cá, que considera superfaturamento um deslize circunstancial – algo que está no DNA do país, e portanto é franqueado a todos.

O corrupto juramentado é aquele que critica a bandalheira, embora deseje estar na pele do sujeito que superfaturou uma ponte, deu calote nos empregados e no governo e embolsou a maior parte da grana. Depois de atrasar a obra, forçando o ministério a abrir nova concorrência, ele vai dar o mesmo golpe em outra freguesia, onde ainda não conhecem as suas artimanhas.

Corrupto também é quem acha normal cobrar comissões, que faz lobby para liberar dinheiro já garantido no orçamento, que considera o “caixa 2” um mal necessário e não paga o imposto de renda, por entender que o governo gasta mal e, repleto de corruptos, vai desviar o seu rico dinheirinho. Superfaturamento, chantagem, adulação interesseira, tudo isso está no seu dicionário, no livro de cabeceira, nas brincadeiras que faz com os amigos.

Tem o corrupto que anda de Kadett velho para não dar na vista, e o que troca de caminhonete importada a cada dois anos. O que banca o pobre, só fala em crise e compra no Direto do Campo, e o que viaja para Miami, Paris ou Londres para gastar o que surrupiou na província. E o que mora na periferia, sem ostentação, enquanto outro constrói mansões e mantém uma amante em Brasília, com todos os luxos possíveis.

A única coisa que o corrupto não admite é ser flagrado em delito, ter a foto estampada no jornal ou a imagem em rede nacional de tevê. Quando isso acontece, ele desaba, mas nem por isso vai admitir o erro. Arranja o melhor advogado, jura até o fim que se portou dentro da linha e, com boas chances de escapar, some de repente, para reaparecer mais adiante, aprontando outra vez.

Olhe bem à sua volta, discretamente, e veja se não há um espécime desse por perto…

1 responder
  1. neno brazil says:

    Acho que o Frei está querendo minimizar a corrupção dos seus poderosos amigos hora no poder.
    O jeitinho tão cantado em prosa e verso do brasileiro comum não pode ser comparado a má gestão (compadrio, caixa 2, corrupção, pedágio..) no trato com os bilhões das verbas da saúde e da educação só para dar exemplos práticos.
    Nunca antes neste país enriquecemos tantos ministros, políticos e assemelhados…

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