Cosa Nostra

Publicado em: 28/09/2005

No século retrasado, alguns lugares do Brasil ainda careciam das inovações tecnológicas que já proliferavam em outros países. A Itália, por exemplo, tinha rádios até nas províncias mais isoladas e seus moradores os consideravam amigos inseparáveis, a ponto de levar as engenhocas para travessias longas como a migração rumo ao continente americano.
Por Heloísa Dallanhol

Foi exatamente com um europeu que veio o primeiro rádio de Sangão – nome estranho para um vilarejo que então contabilizava apenas 549 habitantes. Sua população só foi conhecer aquele aparelho quando descobriu que ele já existia na casa de um ilustre residente: Pietro Brancalionni.

Para fazer jus ao sobrenome, ele andava sempre de chapéu e terno imaculadamente alvos, graças à lavadeira contratada logo ao chegar a Santa Catarina. Empregada, nunca quis. Sem dúvida gostaria de dispor dos serviços de uma doméstica – alguém que deixasse sua mansão brilhando tanto quanto seus sapatos também brancos –, mas Brancalionni detestava companhia durante muito tempo. Optou por uma faxineira que fazia limpeza semanal, sempre no domingo. Nesse dia, saía cedo com a desculpa de ir à missa e só voltava tarde da noite, quando a cabocla terminara seus afazeres. Ela também devia entrar muda e sair calada, conforme ordens do patrão, porém se roía por dentro, tamanha a curiosidade de saber das andanças do esquisito senhor. Aproveitava sua ausência prolongada para bisbilhotar-lhe os pertences.

Certa manhã, encontrou um troço desconhecido. Mexeu nos botões e, de repente, ouviu música. “Ué, como será que tem som?”, matutou. Tremendo mistério. “Cadê o sanfoneiro?” Foi procurá-lo pelas redondezas e não encontrou ninguém, além da vizinha, que também estava intrigada com aquela canção instrumental e quis saber:
– Tem alguém tocando gaita na casa do Seu Pietro?
– Num vi nem sombra de alma viva. Sei lá que diacho eu liguei pra ter começado a tocar…
– Quer que eu dê uma bisolhada?
– Se a senhora fizé o favô…

Dona Sofia cogitava ser um gramofone, daquele que já vira numa revista trazida da Itália por outro morador dali. No entanto, ao conferir, constatou tratar-se de uma vitrola que funcionava sem discos e quis explicar o mecanismo responsável pela mágica sonoridade.


Heloísa Dallanhol, professora universitária.
Foto: Victor Carlson

Lucrécia agradeceu o esclarecimento e dispensou Sofia, a fim de curtir sozinha as melodias radiofônicas. Naquele domingo, caprichava na arrumação e por isso permitiu-se extravasar, soltando a voz, embalada pelas modinhas de viola que se sucediam. Também dançou com a vassoura, sem medo de ser apanhada em pleno baile, pois Brancalionni nunca regressava antes das 22 horas. Jamais cogitou que ele permanecia próximo o suficiente para ouvir qualquer barulho suspeito e aparecer de sopetão. Foi o que aconteceu. Abriu a porta devagarinho e flagrou a empregada.
 –Ahã!
– Ai, patrão, que susto!!!
– Basta o gato sair pros ratos tomarem conta.
– Eu só tava espanando o pó desse negócio aí.
– Esse negócio se chama rádio e é muito importante pra mim.
– Vou cuidá bem dele. Deixo a madeira bem lustrosa, com cera e uma flanelinha…
– Nada disso! Tás proibida de tocar nestes botões aqui. Ouviu?
– Sim, senhô. Prometo num mexê mais.
– Jura?
– Pelas minhas fia! Elas são tudo pra mim. As duas dependem do meu salário pra sobrevivê. Sou mãe solteira, o senhô sabe…
– Sei, e por isso não te boto no olho da rua agora mesmo. Motivo tenho de sobra.
– Brigado mesmo. Que Deus lhe abençoe.

Brancalionni era como um pai para Lucrécia e continuaria garantindo o leitinho das crianças, mesmo depois do segundo deslize dela: a fofoqueira espalhou que havia um rádio onde trabalhava. Muitos curiosos quiseram vê-lo durante sua jornada laboral e foi impossível barrar a entrada de alguns. Contudo, Lucrécia proibiu terminantemente que ligassem o aparelho, e os penetras logo acabaram indo embora. Os mais insistentes voltaram a aparecer justamente quando Brancalionni se preparava para dormir.


Sentados ao centro e rodeado por filhos e netos, Eliza e Andréa Girardi. O último veio da Itália em 1908 e posteriormente, depois da morte da esposa, viajou por vários lugares do Brasil na companhia de um radinho.

Alegaram estar preocupados por causa da Segunda Guerra Mundial ou ter parentes entre os pracinhas que foram lutar na Europa, razão pela qual estavam ansiosos por notícias das batalhas travadas naquela noite. Boa desculpa. O anfitrião trocou seu pijama pelo indefectível traje branco e, devidamente paramentado, abriu a porta com solenidade. Mal conhecia os visitantes, dado que era avesso a reuniões sociais. Apesar isso, acomodou-os no sofá e ligou o rádio colocado ao lado de sua poltrona.

Ficaram todos em silêncio, ouvindo programas até a madrugada. Após o noticiário veio uma novela que agradou imensamente a toda a audiência, tanto que no dia seguinte alguns homens voltaram com suas esposas. Elas, mais adiante, trariam as sogras, os filhos, as amigas e outras pessoas.

Nem cabia tanta gente naquela mansão que tinha virado a casa-da-mãe-joana. Seu dono deu um basta.
– A partir de hoje, chega! Ninguém mais poderá ouvir rádio no meu larzinho.
– Por quê?
– Ainda perguntam? Porque vocês estão roubando meu sono e minha privacidade! E eu vim pr’esse fim de mundo em busca de sossego!!!
– O senhor veio da onde? – questionou uma líder comunitária que sempre suspeitou do passado dele e também procurava mudar de assunto.
– Do sul da Itália.
– Esquisito. Nós e nossos conterrâneos todos viemos do norte. De que lugar exatamente?
– Da Sicília, mas isso não é da sua conta. Quero ficar sozinho…
– Uma última dúvida: o senhor pertence à Cosa Nostra?

Ele se enfezou e enxotou a enxerida diante dos demais. Por vingança, Antonella espalhou boatos de que Brancalionni era um mafioso procurado pela polícia. Certos habitantes de Sangão até pensaram em expulsá-lo de lá. Só que assim perderiam os próximos capítulos da novela… Alguém resolveu impor uma condição para que o siciliano pudesse permanecer na cidade: conectar seu rádio aos altos falantes instalados na praça. Eles haviam sido colocados sobre um pinheiro com o objetivo original de servir às festas programadas pelos residentes, mas se enchiam de teias de aranha ao longo do tempo sem serem uso.

Apesar do nome, Sangão era pacata ao extremo, bem ao gosto de Brancalionni. Ali desfrutara de momentos de grande serenidade e pensava talvez poder voltar a viver tranqüilo se aceitasse a proposta dos demais moradores. Faria tudo para recuperar a paz, inclusive a ligação imaginada pelos vizinhos. Encarregou-se de adquirir os fios numa cidade maior e lá também conseguiu um eletricista para fazer o resto. Uma vez terminado o serviço, fixou um cartaz com a programação radiofônica noturna para o fim de semana. Ela passaria a ser diária, começando cedo pela manhã, devido aos pedidos dos ouvintes.

Todos queriam escutar o famoso Repórter Esso e para isso se reuniam debaixo da maior árvore de Sangão. Tamanha aglomeração atraiu um forasteiro que quis saber quem estava falando. Havia gente olhando para cima, mas ele não enxergava as caixas de som estrategicamente colocadas entre os ramos da araucária, atrás de uma penca de pinhões.

Concluiu que um jornalista tinha subido ali para relatar acontecimentos de interesse local, pois uma voz masculina anunciava: “As notícias para os meus conterrâneos do Rio Grande”.

A plenos pulmões, retrucou:
– Baita coincidência: o amigo é gaúcho? Eu também, tchê!
Como o interlocutor seguiu a narrativa, resolveu gritar mais alto.
– Aqui fala um companheiro de Farroupilha!

Nenhuma resposta. Insistiu pela última vez.
– Mas bá, desce daí pra tomar um chimarrão comigo…
Quase perdeu as estribeiras ao ouvir gargalhadas. Vinham da platéia, dos muitos “catarinas” que assistiam a tudo, rolando no chão de tanto rir. Sem dar-se conta da gafe, o orgulhoso gaúcho desafiou alguém a dizer o motivo de tanta graça. Uma vez convencido de ter pagado mico, baixou a crista e saiu com o rabo entre as pernas.

Andando cabisbaixo, sentiu um puxão no braço. Era Antonella.
– Eu também já fui vítima do Seu Pietro.
– De quem?
– O sujeito é mais conhecido como Dom Brancalionni. Ele matou meio mundo porque é da máfia e fugiu pra cá, disposto a fazer de palhaço gente direita como o senhor. O tal fulano inventou essa história do rádio falante, mas eu já vi o velho caçoando dos outros, escondido num galho.
– Quer dizer que ele tava mesmo em cima do pinheiro?
– Isso. Saiu de mansinho enquanto o amigo arrumava as esporas, sei lá. Deve ter ido pra casa.
– Onde mora esse embusteiro duma figa?
– Naquela mansão ali.
–  Que baita palacete!
– Pro senhor ver… Só porque é rico, pensa que pode tudo, até pregar peça nos outros.
– Em mim não! Sou pobre, mas muito macho, tchê!

Pôs o facão de cortar churrasco na cinta, ajeitou o lenço vermelho no pescoço e se dirigiu ao duelo que pensara em travar, por causa da cólera. Deu com o inimigo totalmente desarmado. Ele sequer imaginava a mentira contada por Antonella, e por isso deixou aquele furacão entrar, sendo pego desprevenido. Foi brutalmente esfaqueado. O assassino fugiu sem sequer ligar para o sangue derramado no paletó branco de Seu Pietro.

A mancha não sairia nem com todo o esforço e o sabão da lavadeira que encontrou o cadáver. Pior seria a marca deixada por Antonella com suas últimas balelas: ela mandou um capanga colocar sobre o caixão uma coroa de lírios na qual se lia “Dom Brancalionni era coisa nossa”, uma frase de duplo sentido. E para eliminar qualquer dúvida, no meio do velório disse que o siciliano tinha sido morto por um ex-colega da Cosa Nostra que veio acertar contas.

* Casa Nostra faz parte do livro de conto de Heloísa Dallanhol, intitulado “Ficção ou Realidade- a fantasia de migrar” (Lagoa Editora, 2005)

Heloísa Dallanhol  é Professora da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina


 


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