Crepúsculo

Artigo publicado em: 25/11/2007

Na década de 60 foi um dos bons radialistas atuando em Curitiba. Repórter policial dedicado não deixava passar nada do setor sem um registro. Em seu período de trabalho não ficou um evento policial sem que Ildo estivesse presente com seu caderninho de anotações e uma competente caneta anotando tudo.
Por Jamur Júnior

Do tipo calado e observador passava horas na redação escrevendo sem conversar com ninguém a seu lado. Esperava terminar suas matérias para um bate-papo com os colegas. Não era um tipo para ser chamado de bonito, pelo contrario, tinha um jeito esquisito de andar com uma leve inclinação para frente como se fosse pessoa bem idosa. Sem levantar muito o pé arrastava seu velho sapato e se deslocava com lentidão dando a impressão de que estava prestes a tombar para frente.
Diziam os mais próximos de Ildo que a aparência de repórter fúnebre e seu jeito caladão escondiam um conquistador com muita historia para contar. Teve alguns romances secretos que nunca foram confirmados. Discreto e fechado com relação a suas conquistas, não dava abertura para especulações e indagações nem para seus amigos mais íntimos.
Nos anos 70 atuou em jornais e até na televisão, sempre como repórter policial. Chegou à idade madura com grande experiência no setor e uma vontade danada de se aposentar e morar na praia. Foi o que fez. No dia seguinte da aposentadoria começou a procurar casa em Guaratuba. Comprou uma nas imediações do aeroporto local.
Levando uma vida solitária na pequena cidade litorânea, Ildo sentiu logo que a vida sem a presença feminina ficara vazia. Em 2007, já com seus setenta anos de idade surgiu um problema na próstata que o deixou seriamente preocupado. Os exames feitos não confirmaram as suspeitas iniciais. Ficou longo tempo guardando silêncio em casa, pensando como seria sua vida com redução de suas atividades sexuais.
Tinha horror em pensar na possibilidade de incontinência urinária e impotência. Todo seu drama foi contado a um ex-colega num fim de tarde a beira mar, narrando em tom de lamuria os problemas enfrentados e sua determinação de superar tudo e voltar ao normal.
O sol estava se pondo por trás da Serra do Mar quando chegou uma mocinha de seus 20 anos de idade e abraçou Ildo como fazem os namorados. Preocupado com o ar de espanto do amigo que ouvia sua historia e a presença inesperada da jovem, Ildo fez a apresentação.     
– Veja o que achei na praia. É a minha perdição.
O garanhão silencioso estava de volta.
 


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