Crônica veloz

Artigo publicado em: 08/08/2012

Desejo que esta crônica seja rápida, célere como um bólido de Fórmula Um correndo nas quebradas de uma noite metafórica, onde há que desviar, com perícia, de vírgulas mal postas, de pontos mal colocados. Ou, melhor ainda, veloz como um corcel marrom-claro galopando, com altivez, na manhã ensolarada, pela campina verdejante coalhada de adjetivos pomposos, substantivos mais do que concretos e advérbios bem proverbiais. Rápida como um pensar vertiginoso, que se comporte qual um menino ágil e sadio na brincadeira de pique-esconde: um pensar que não se deixe agarrar pelas metáforas pastosas nem pelas analogias pegajosas.

Uma crônica veloz que fale de sensações e sentimentos vividos com rapidez: a lambida no sorvete; a ardência da pequena queimadura; o tropeção quase, quase tombo; o adeusinho ao conhecido muito chato; a corrida de taxi com um motorista loucão; aquele beijo roubado; aquela transa tão fugaz quanto inesquecível…

Rapidez: como no revirar de olhos da menina sedutora; como nos dedos impressionantemente rápidos do prestidigitador; como nos pés com asas de um corredor; como no choro brevíssimo e sem lágrimas da criança esperta, logo contentada pelo presente que queria.

Rapidíssima crônica, como as sinapses eletrônicas no interior dos computadores; e como as ultrarrápidas mensagens por elas possibilitadas, substituindo a lentidão das cartas, mas impedindo o muitas vezes necessário arrependimento que, simplesmente, as convertia em papel picado.

Crônica célere como as máquinas que produzem muito, excessivamente até, para um lucro que beneficia tão poucos.

Rapidez como a de um flash que consagra a nova beldade e condena ao ostracismo e ao desespero a bela de ontem.

Seja rápida esta crônica, para não dar tempo de pensar na loucura da rapidez que nos envolve, desenraiza e transporta para o não-sei-onde nas asas velozes do não-sei-o-quê.

Crônica para ser lida rapidamente, sem sentir o amargor, a ironia, os subterfúgios, os engodos contidos nas frases e palavras, que só podemos descobrir quando as desnudamos com calma, com a impiedosa vagareza de quem pára, reflete e… compreende.

Rapidíssima crônica seja esta, como os astros velozes na imensidão silenciosa do espaço infinito; como as aceleradíssimas partículas atômicas e sub-atômicas – realidade veloz que contraria nossa enganosa visão de uma plácida permanência de todos os seres, de todas as coisas.

Velocíssima crônica, como as batidas descompassadas de um coração acelerado pela paixão e pelo desejo.

Crônica rápida, que acaba aqui, neste átimo de segundo, que a-ce-le-ra-da-men-te já virou passado. Tudo assim, rápido, célere, apressado, na eterna vertigem do tempo corrido, sentido, vivido.

J. Carino

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