Culpa de Niemeyer

Publicado em: 09/12/2012

Sim! Oscar Niemeyer é culpado de muitas coisas. Culpa que permanecerá por muitos anos, sem se perder nas areias do tempo, até porque a areia é matéria-prima indispensável para aquele que foi seu maior cúmplice: o concreto. Culpado e réu confesso, com provas por toda parte, para todo mundo ver e, principalmente, usar! Foi ele quem imaginou e esboçou, com traços minimalistas, ícones urbanos e os espalhou por cidades, estados e países. Alguém duvida disso? Foi ele quem trouxe a sensualidade à arquitetura brasileira, incorporando-lhe as curvas femininas mais brejeiras e sensuais.

Junto com Lúcio Costa, “modernizaram” a paisagem urbana! E, unidos à Burle Marx, criaram um novo conceito de cidade, admirada por todos os que a conhecem: Brasília!

Sua culpa foi tão evidente, que a humanidade a desapropriou para si, incorporando-a a seu patrimônio.

Do pilotis ao “Plano-Piloto”, pilotaram o Modernismo muito além do que seu mestre, Corbusier, poderia imaginar, talvez por terem um país inteiro para construir e o incentivo de quem tinha a pressa de ver “cinquenta anos em cinco”…

Niemeyer, não contente em registrar seus planos em papel e mostrá-los sem dúvida ou medo a quem pedisse ou quisesse, ainda cooptou sedutoramente outros, para torná-los realidade.

Arquitetou sonhos impossíveis para oferecê-los, como desafios ladinos, a quem pudesse concretizá-los: “A arquitetura exprimirá sempre o progresso técnico e social do país em que é realizada”, disse, certa vez.

A engenharia brasileira aceitou seus desafios e buscou soluções técnicas inéditas, tão inovadoras quanto o arrojo de seus traços.

Quantas noites de sono ele não deve ter tirado de seus calculistas? Quantas enxaquecas ele não deve ter provocado? Será que era proposital, para arrumar clientes para seu irmão neurologista, Paulo?

Ladeado por cúmplices tão visionários e revolucionários quanto ele; “provocado” por governantes nacionais e internacionais; abstratamente apaixonado pelo concreto, ao ponto de desafiar a Física, sem nenhum pudor, Niemeyer deixou marcas tridimensionais de sua “culpa criativa” onde pode, exigindo que ela ficasse bem visível, referencial. Mais que isso: gravada indelevelmente na mente dos que, fascinados, tomavam contato com suas obras.

Sua única contradição era se dizer ateu, tendo projetado alguns dos mais emblemáticos templos do Século XX, com formas tão surpreendentes quanto polêmicas.

É… A arte está acima de qualquer preconceito ou discurso. E não existe coisa mais divinamente humana do que a arte, sobretudo quando transpõe limites e convenções! Arte livre de paradigmas! Arte que jamais prescindirá dos sentimentos e sentidos!

No entanto, a maior de suas culpas foi ter sido pródigo não apenas em ideias, mas também em dias: 104 anos e ainda queria projetar mais!

Niemeyer, por fim, foi culpado por contrariar os que o respeitavam e partir para outros projetos… O que será que ele vai “arquitetar” agora?

Provavelmente não terá dificuldades para executar. Afinal, agora seu espírito está livre das limitações físicas. E dizem que o céu está cheio de engenheiros…

Niemeyer é confessamente culpado de tudo isso, sim! Só não o culpem, jamais, pelo que corruptos têm feito entre as nem sempre quatro paredes e sob os imensos e abertos vãos que ele projetou, sempre pensando num país melhor…

Adilson Luiz Gonçalves | Membro da Academia Santista de Letras | Mestre em Educação | Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor

Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)

Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected] | Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59 | (13) 97723538 Santos – SP

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *