Curiosidade

Publicado em: 24/05/2005

Uma perguntinha lírica, domingueira: vós que sabeis dos mistérios da cidade sabeis acaso onde foram parar os carros de cavalo que por aqui havia há uns trinta anos?
Por Flávio José Cardozo

Não, não quero comprar um, muito embora a idéia já tenha me passado pela cabeça. Com a gasolina na estratosfera em que anda, até que não seria mau um carrinho daqueles. Eu soltaria os dois cavalos no pasto de trás de casa, o comer deles já seria ao mesmo tempo uma boa capinação e, de quebra, ainda me adubariam o terreno. Grande e barato negócio. Na estrada, com o devido jeito para não complicar o trânsito,  andaríamos que era uma beleza. Calculo que de Santo Antônio de Lisboa ao centro não passaríamos muito além de uma hora.

Mas o problema, como sempre, seria o centro. Já nem falo do aperto. Falo é que meus cavalos iam querer, fatalmente, adubar também o centro e não falta gente para achar isso feio e criar caso. Detesto casos.

Bem, é por desinteressada, platônica curiosidade que eu queria saber o que aconteceu com os lindos carrinhos que, lá pelos fins dos anos 50, faziam ponto na parte baixa da Praça Quinze. Desconfio que ainda estejam por aí vivinhos da silva, guardados com a devoção merecida. Digo isso porque, no último dia 7 de setembro, vi um parado na Beira-mar Norte. Esclareceu minha filha que ele estava sendo alugado para a garotada passear pelas redondezas. Nostalgia de algum boleeiro contando com a nostalgia de algum avô, pensei comigo. Lamentei um pouco o destino que estavam dando à velha carruagem: ela que passou anos cruzando a cidade a serviço, sempre apressadinha e barulhenta, era agora brinquedo duns meninos com os quais não tinha a menos relação afetiva. Que deslumbramento podiam provar os garotos diante dum carrinho fora de uso? Alguma alegria, sim, alguma festa, mas tudo porque viam um bicho velho esquisito, só por isso.

E, no entanto, foram marcantes no seu tempo os carrinhos que se alinhavam perto do Miramar, num grupo de seis ou sete. Quando um freguês aparecia, o primeiro da fila se largava lépido, num rolar que tirava chispas e um som todo dele dos paralelepípedos. Quanto custava a viagem? Nem sei. Bem menos, claro, que uma em carro de praça, luxo que a maioria só se permitia em casos muito graves, como casamento ou sangria desatada. O carrinho era acessível. Não tanto que o povão pudesse usá-lo a toda hora, como bem gostaria, mas era viável até até para uma patota de estudantes pobres que, no fim de semana, queria ir na dançar no Limoense.

Onde andarão eles? Não creio que só esteja sobrando o tal que vi no dia 7, transformado em passatempo de crianças. Mas ninguém pense que estou me martirizando com o sonho de ter um para meu ir-e-vir diário. É só uma curiosidade boba e bonita, mais nada.

(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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