Da arte de comer melancia

Publicado em: 24/05/2005

Fico chocado quando vejo alguém comer melancia de qualquer jeito. Ainda ontem presenciei esta desgraça: o sujeito colocou a pobre fruta de pé, deu-lhe um talho de alto a baixo, pegou as duas metades e partiu-as também ao meio, deixando na mesa, numa poça d’água, um triste saldo de quatro pedaços que foram sendo grosseiramente escavados.
Por Flávio José Cardozo

Nada da poesia que o evento pede. Uma coisa feia, mal-acabada.

Meu pai, sim, era um artista na arte de se comer melancia.
O requinte dele já começava na compra, em que fazia todo um investimento de boa paciência. Aproximava-se da carroça, avaliava o conjunto, rolava umas e outras, depois de algum tempo é que elegia a que mais o impressionou. Para já levar? Não, claro que não. Para examinar, com cuidado. Eram, se bem me lembro, uns três testes. Primeiro, o dos piparotes. Com o indicador, ele dava na barriga da melancia alguns piparotes que produziam um som que lhe traduzia, aos seus ouvidos experimentados, o grau de madureza a que a fruta havia chegado. Depois, agarrava-a entre as mãos, elevava-a à altura do ouvido e aplicava-lhe um forte aperto: o estalo resultante reforçava o diagnóstico dos piparotes. Por fim, determinava ao vendedor que abrisse na melancia uma janelinha. O homem trazia na ponta da faca uma fração de rubra polpa, que meu pai olhava com astúcia. Só então é que os dois falavam em preço. Se a parte comercial chegasse a bom termo, tínhamos melancia.

Mas a melancia não entrava logo na faca. Era do ritual deixá-la refrescando um pouco num tanque d’água (não havia geladeira), para perder os calores acumulados na viagem da carroça. Até que, por fim, chegava o momento.

O modo de meu pai partir a melancia era, penso eu, o mais lógico e usual entre as pessoas de sentimento e bom senso. Só que ele fazia tudo com muita compenetração, como se estivesse desmanchando um relógio de ouro. Deitava a fruta, cortava-lhe uma ponta, cortava outra e, com precisão máxima, rasgava-a em talhadas  regulares, iguais entre si em largura e profundidade. Arrematava a cirurgia com um soquinho que afrouxava as talhadas, a primeira das quais entregava, gentil, a Dona Isaura.  Depois é que autorizava o nosso ataque. E sabíamos bem: ninguém podia tocar no miolo, o miolo ficava para o fim. Não entendo como é que alguém pode partir uma melancia sem dar tal ênfase ao miolo. De barriga já fazendo um bico de tão cheia, íamos sempre ao miolo como ao momento central da festa.

A melancia, senhores, é uma fruta frívola, mais água que substância. Muito dos prazeres dela está mesmo é no visual e foi muito bom ter aprendido a comê-la também com os olhos. Sinceramente, fico até triste quando vejo por aí certas barbaridades.

(Do livro Beco da lamparina, Florianópolis, Diário Catarinense / Lunardelli, 1987)


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