Da memória de Salimen

Publicado em: 25/04/2009

Um dos pioneiros da comunicação no Estado narra os seus 60 anos de experiência em livro. Salimen Jr está resfriado. Adiou a entrevista, pediu mais 24 horas. Por Luiz Zini Pires

Na redação de ZH, um dia depois, a gripe lembrou Salimen de uma doença muito mais grave anos atrás. Ele, deitado numa mesa de cirurgia no Instituto de Cardiologia, tinha 80% de chances de morrer. Sua memória voltaria ao zero. Foi quando decidiu, olhando para o teto da vida, que, se continuasse respirando, parte da sua longa experiência como homem de comunicação ilustraria um livro. Duas décadas depois, firme e forte, apesar da indisposição, Salimen Jr, 75 anos, cumpriu a palavra – dita para ele mesmo num delírio extremo.

Salimen, Uma História Escrita em Cores (Edição do autor, 247 páginas, R$ 50) ganha sessão de autógrafos segunda-feira, às 18h30min, no Salão de Eventos do Hotel Plaza São Rafael, no centro de Porto Alegre. Escrito pela jornalista Carla Nunes, a obra trata da vida profissional do jornalista, radialista, publicitário e empresário José Salimen Jr.

– Me sinto melhor como radioator – diz, sorrindo. – Não gostei de ser teleator. O rádio me dava um prazer bem maior.

É pelo rádio que ele começa. É por Pelotas, na Rádio Cultura, que a lembrança recupera outra vez seus 16 anos, narrando um Brasil e Pelotas do teto de uma casa, ao lado do estádio, na mesma tarde em que o Brasil virava noite de assombração após perder para o Uruguai por 2 a 1 a Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Do locutor esportivo ao roteirista de radioteatro, capaz de desenvolver séries semanais, onde atuava como diretor e ator, foi um passo longo, mas rápido para um jovem que podia ter medo de tudo, menos o de arriscar seu futuro num microfone ou num auditório.

De passagem pela Zona Sul, em 1954, a atriz Virginia Lane, uma das paixões de Getúlio Vargas, ouviu a voz do galã na rádio do carro, gostou e avisou:

– Precisamos deste ator lá no Rio.

A Rádio Farroupilha se antecipou, contratou Salimen, que deixou Copacabana para mais tarde. Na Capital, substituiu o amigo Maurício Sirotsky Sobrinho, que havia adquirido o controle acionário da Rádio Gaúcha quase no final dos anos 1950. Depois, em 1963, Maurício o levou para a Gaúcha:

– O Maurício pegava o carro, me chamava e nós íamos até Ipanema. Ficávamos longo tempo conversando, falando sobre os nossos grandes projetos, imaginando, discutindo novas programações. Tenho muita saudade daquele tempo.

Em Salimen, Uma História Escrita em Cores, a era de ouro do rádio gaúcho se encontra com a pré-história da televisão no Estado. Começa pela Piratini, entra na Difusora, passa pela TV Gaúcha, onde ele apresentou Sim e Não, um programa de prêmios, Bardoze, que começava às 23h e só terminava três horas depois reunindo convidados especiais, já madrugada – além de outros, como Stop e Go, que sorteava automóveis Gordini.

Ele foi também narrador esportivo da TV Gaúcha, mas não daqueles que contavam (e ainda contam) exatamente o que o público está vendo. Adiantava as jogadas, dizia o que a tela não mostrava. Criou um estilo.

No livro, bem ilustrado, com fotos de diferentes personagens dos últimos 50 anos da história do Rio Grande do Sul, 42 pessoas, entre elas Cândido Norberto, Carlos Bastos, Glênio Reis, Jayme Sirotsky, Jorge Gerdau Johannpeter, Lauro Quadros, Madruga Duarte, Nelson Sirotsky, Paixão Côrtes, Paulo Roberto Falcão e Walmor Bergesh aproveitam o espaço para contar algo mais sobre Salimen. Um deles é o ator Walmor Chagas, que lembra do convite de Salimen para trabalhar ao lado de Moacyr Scliar e Cândido Norberto no programa Câmera 10, da extinta TV Difusora.

Chagas diz que foi a porta aberta por Salimen na tevê local que o levou a Globo logo depois.

São os depoimentos que ajudam a guiar o leitor através dos 60 anos de vida profissional de Salimen Jr, homem de rádio, televisão, propaganda e jornal, hoje um dos diretores do Jornal do Comércio. São seus ex-colegas, amigos, que exibem as várias faces de Salimen Jr. Sua passagem de homem de rádio para a tevê, de publicitário a empresário. São eles que unem as suas histórias com a história dos meios de comunicação do Sul. Não esquecem de lembrar que Salimen Jr liderou a primeira campanha regional de doação de órgãos para a Santa Casa, com a força de todos os veículos de comunicação do Estado, seguida depois por artistas, empresários. Ele uniu todos, aparou arestas, criou uma corrente e salvou a vida de muitos. O galã de rádio, animador de auditório, amigos de gente rica e famosa, por outro lado, sabe estender a mão ao próximo.

Salimen Jr, um dos líderes do processo que ajudou a implantar a transmissão em cores na televisão brasileira e na América do Sul, merece muitas imagens coloridas na história dos meios de comunicação do Rio Grande do Sul. Merece mais do que um livro. As quase 250 páginas são poucas para mostrar seu real valor, mas são muitas para o atento estudante de comunicação, por exemplo, que deseja conhecer um rico pedaço do nosso passado recente.

“Salimen, Uma História Escrita em Cores” será lançado segunda-feira, em Porto Alegre

[email protected] | Zero Hora

1 responder
  1. Edgar Ferretti says:

    Li o livro do Salimen Junior.
    Ele sempre foi isso dai, um grande lobista.
    O livro é isso. Um lobby, um puxa-saquismo, uma auto-veneração.

    Edgar Ferretti, redator.

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