Da mentira nossa de cada dia

Publicado em: 28/08/2013

Houve um tempo – que parece tão remoto – em que a mentira envergonhava. Exceção à regra da verdade, mentir tornava execráveis os responsáveis pelas grandes mentiras e desprezíveis os que faziam das pequenas mentiras um instrumento cotidiano para enganar os outros e levar vantagem.

Já houve culturas – na oriental, de modo geral, por exemplo – em que a falta à verdade lesava a honra de modo tão definitivo que só o suicídio poderia reparar a vergonha de ser desmascarado. Mesmo assim, os respingos da vergonha ainda permaneciam atingindo a família do mentiroso.

Hoje em dia, a verdade quase não se sustenta mais nem como conceito para reflexões filosóficas. Pôncio Pilatos nem se preocuparia com essa tal de verdade, com “v” maiúsculo ou minúsculo…

O mentir generalizou-se de tal modo que aqueles que ousam tentar se pautar pela verdade são encarados quase como portadores de uma peste – a “epidemia da verdade”, produzida pelo vírus da veracidade, e capaz de destruir todas as bases da sociedade humana, apoiada nas bases sólidas da… mentira.

A mentira deixou de ser um princípio ético para transformar-se num instrumento da funcionalidade relativa às pessoas e a todas as coisas. Mentir é natural; em certos casos, é mais do que tolerável: é desejável. Quem não mente não consegue, não possui, não mantém. Quem diz a verdade acaba parecendo um idiota que anda na contramão do fluxo “normal” da mentira, um bobo que leva encontrões dos espertos, dos ladinos, dos mentirosos.

Impossível escrever sobre mentira sem falar neles, os políticos, com seu comportamento mentiroso contumaz.
Claro, não sou ingênuo a ponto de pensar que, no jogo político, tudo pode ser jogado às claras, sem negacear, velar, confundir. Mas daí a mentir-se descaradamente vai uma grande distância.

Foi-se o tempo em que os fatos (que, em última instância não existem, mas sim interpretações de fatos) e as evidências serviam para pilhar os mentirosos.

Lembro-me de uma história que ilustra bem a cara-de-pau de um ladrão e, por consequência, mentiroso. O sujeito vai passando por uma ruazinha deserta de subúrbio. De repente, de um dos quintais, sai um leitãozinho, gordinho, rosadinho, parecendo o ingrediente ideal para um delicioso assado. Incontinenti, o sujeito pega o leitão, joga sobre o ombro e sai caminhando.

Mas, logo adiante, alguém nota aquele sujeito com o leitão ao ombro, desconfia e grita “Pega ladrão!”. O ladrão corre mas, como dizem que a mentira tem pernas curtas, as desse ladrão não o levaram longe. Agarrado e confrontado com o fruto do seu roubo, exclama o ladrão, tirando o leitãozinho do ombro:

“Ui, que é isso? Tira esse bicho daí!”

Vendo esses escândalos todos, essa corrupção generalizada, essa roubalheira sem precedentes, gosto de observar a desfaçatez com que os políticos – em nome da “governabilidade”, da “democracia”, ou do que mais seja, escrito assim com as aspas da relatividade – mentem descaradamente.

O pior é que, nas suas expressões faciais, na sua voz firme, não se notam quaisquer traços de hesitação, qualquer tremor ou temor. Mentem com a convicção de quem diz a verdade. Portam-se, na aparência, igualzinho a quem faz de seus princípios morais seu norte, de quem constrói, mantém e é conduzido por suas verdades.

Evidentemente que os políticos estão mais em evidência, e por isso suas caras-de-pau ficam mais à mostra. No entanto, todos mentem. E o que é pior: mentimos todos em nosso dia a dia. A verdade, e suas primas, a honestidade e a franqueza, andam desaparecidas, talvez até estejam moribundas, ou quem sabe mortas.

A mentira nossa de cada dia é tão detestável quanto as grandes mentiras. Furar a fila, enganar no troco, burlar as leis, como as de trânsito, trair o parceiro ou a parceira, e todas essas manifestações práticas do grande princípio fundamental da mentira, são a argamassa de que se constroem a possibilidade e a perenidade da mentira.

Eu, caro ouvinte ou leitor, acabo de olhar, para ver se não estou com nenhum leitãozinho no ombro. Que tal você fazer o mesmo?

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