Dando a volta por cima

Publicado em: 04/04/2009

O engenheiro Álvaro Augusto Teixeira da Costa começou a tomar gosto pelo jornalismo acompanhando seu pai, Geraldo Teixeira da Costa, chefe de Redação do jornal Estado de Minas. Por Marcone Formiga

Passou a freqüentar a redação, mal deixara de engatinhar. Divertia-se brincando com as antigas máquinas Remington, imitando o seu pai escrevendo editoriais. Tomou gosto, mas a engenharia também o fascinava. Conheceu, na época, o fundador dos Diários e Emissoras Associados, Assis Chateaubriand, que, mais do que patrão, era um amigo íntimo do seu pai, freqüentando a casa da família.

Sua trajetória no Estado de Minas começou degrau por degrau, iniciando como engenheiro, em 1965, até chegar à presidência, que acumula, com o mesmo cargo, no Correio Braziliense.

Mineiramente, não é de falar muito, principalmente quando a sua pessoa está centrada. A entrevista que segue levou sete anos para ser concedida porque ele aguardava o momento exato em que romperia seu longo silêncio. Além de discreto, Álvaro Teixeira da Costa também é modesto e não procura ostentar o poder que tem como publisher do jornal mais importante da capital da República e um dos mais expressivos do país.

Só depois que a Justiça legitimou o gesto do fundador dos Diários Associados de distribuir as cotas do grupo entre seus colaboradores, o que os herdeiros questionavam, resolveu falar, contando, também, como o Correio Braziliense foi salvo de uma falência iminente e como foi recuperado depois da intervenção que partiu de Minas Gerais. Hoje é uma empresa lucrativa e que retomou a credibilidade e o respeito dos brasilienses.

Ele fala de tudo, sem dissimular o otimismo quanto ao futuro, que pretende retomar com todo o arrojo, consolidando uma verdadeira volta por cima.
(Bem acomodado em sua mesa de trabalho, diante dos gravadores, faz um comentário, antes de começar a entrevista:)

– Pode perguntar o que quiser, inclusive a minha idade, o meu peso… (risos)

– Por que Assis Chateaubriand resolveu fundar os Diários e Emissoras Associados?

– Os Diários Associados surgiram em 1924. Aos 22 anos, já como professor catedrático na Faculdade de Direito do Recife, ele tinha o sonho de integrar o país, porque achava que o Brasil não estava convenientemente integrado às culturas e hábitos muito diversificados. Seu maior receio era de que o Brasil fosse dividido em três países. Dessa forma, entendeu que seria interessante partir para um grupo nacional de comunicação, comprando em 1922 O Jornal por 5800 Contos de Réis. Depois fundou os Diários Associados, o que fez com muito arrojo e determinação, só tendo descansado quando viu que estava presente em quase todos os estados brasileiros. Portanto, mais do que fundar um grupo de empresas de comunicação, seu sonho era promover essa integração, à qual dedicou 46 anos de sua vida.

– Ele morreu em 1968, há 41 anos. O grupo, todo esse tempo, continuou sob a administração dos condôminos. Qual foi o critério para a escolha dos 22 condôminos?

– Isso foi em 1958, depois de ter estruturado o seu império empresarial. Ele percebeu que as empresas estavam descentralizadas, o que foi uma estratégia sua para que cada parte do país tivesse um estilo próprio de acordo com sua cultura. Embora paradoxal tal separação ajudaria a manter o país integrado, já que em cada região teria alguém dirigindo a empresa. Logo entendeu que a melhor forma seria que houvesse um grupo de pessoas para sucedê-lo por meio desse Condomínio Acionário, considerado na Justiça uma organização sui generis, atípica, porém absolutamente legal e que preservaria todo o conjunto de sua obra.

– Como foi viabilizada essa ideia?

– Ele reservou mais da metade do seu patrimônio para a família e os Diários Associados, que representavam menos da metade do seu patrimônio. Legalmente, fez a doação para os seus 22 principais colaboradores. O objetivo que o levou a isso foi o de fazer com que seus colaboradores fossem detentores das ações enquanto vivessem. Não de posse definitiva, não foi uma doação…

– Como assim?

– Nós somos detentores das ações enquanto vivermos e depois da morte as passaremos para outro companheiro escolhido, que tenha a mesma intenção de preservar a unidade nacional e o bem do país, não as deixaremos de herança para alguém da família.

– Ele participava das reuniões, como era sua atuação?

– Participou desde a fundação do grupo até 1968. Enquanto viveu, presidia as reuniões do
Condomínio, sempre muito participativo e com ideias para incrementar as empresas, com pulso forte e liderança inconteste, além de sua marca de desbravador e realizador.

– Também permanecia nas reuniões que definiam a estratégia de mercado, como também a linha editorial de todo o grupo?

– Ele estabelecia os objetivos básicos dos Diários Associados. Não gostava muito de falar sobre o desempenho das empresas. Para ele, o importante era que as empresas existissem em regiões estratégicas. Inicialmente contrário à construção de Brasília, tornou-se depois um ardoroso defensor da mudança da capital da República para o Centro-Oeste por reconhecer sua importância na integração do país, como de fato está acontecendo. Ele não tinha paciência para discutir resultados das empresas, estratégia de marketing, passivo… Não tinha e nem queria saber sobre isso. O que lhe interessava, e muito mesmo, era saber se o país estava se desenvolvendo do jeito que sempre sonhou.

– O conceito que até hoje se tem é de que se tratava de um homem muito além do seu tempo.

– Ninguém, seguramente, até hoje, conseguiu superá-lo nesse atributo de inteligência. Ele era realmente o maior destaque do país.

– Como os seus filhos, os herdeiros, reagiram quando souberam da sua decisão em distribuir as cotas entre os homens da sua confiança?

– Na verdade, ele sempre teve uma vida um pouco conturbada com a família, mas, de qualquer forma, incluiu os filhos homens no Condomínio. O mais velho, Fernando, simplesmente não aceitou, não quis participar e não aderiu ao processo. O Gilberto aceitou e em uma fase posterior os dois romperam, mas até hoje ele permanece no grupo, porém não frequenta reuniões. O Gilberto não esconde mágoas profundas em relação ao seu pai. Chateaubriand não queria que as empresas ficassem nas mãos dos filhos, queria que ficasse nas mãos dos colaboradores, mas não deixou de incluí-los nesse meio.

– Os filhos não tinham o perfil de executivos que ele desejava para gerir as empresas?

– Ele não enxergou nos filhos a visão patriótica que tinha. É uma suposição minha, já que a competência de gestão realmente não o preocupava muito. Ele procurava competência no jornalismo, no seu jornalismo mais representativo, porém, não enxergava isso nos filhos. Até hoje essa solução de Condomínio é estudada e elogiada, não só aqui, mas em outros países. Tanto que é um case no mundo inteiro, como uma estrutura diferenciada e extraordinária.

– Foi ele mesmo quem concebeu essa fórmula?

– Ele passou a espinha dorsal para uma equipe de juristas notáveis que desenvolveu legalmente tudo o que ele pretendia e de que maneira o Condomínio tomaria forma e ação.

– Mas os herdeiros, depois da sua morte, recorreram à Justiça para ter as cotas de volta. O que aconteceu a partir daí?

– Esse foi o primeiro ato jurídico, depois vieram mais duas ações para acabar com o Condomínio. A primeira, baseada em lei, alegando que, por se tratar de um Condomínio, depois de cinco anos, se um dos condôminos se retirasse, as ações iriam para hasta. Porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) chegou à conclusão de que não se tratava de um Condomínio, mas sim de um contrato interno absolutamente legal, embora não previsto em nenhuma das formas acobertadas pelo Código Civil.

– Então, como se enquadra o Condomínio?

– Não é nada que se possa enquadrar dentro dessas organizações tradicionais. Trata-se de um contrato atípico, já reconhecido pelo STJ, e agora nessa última decisão (na terça feira, dia 24 de março, na 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) eles alegavam que pelo direito de herança o doador poderia fazer a doação aos 22 condôminos, mas esses legalmente não poderiam transferi-las após sua morte. Ou seja, estavam reconhecendo apenas que só os primeiros condôminos eram válidos. Depois, essa validade não prevaleceria.

– Como o Condomínio reagiu diante de mais um recurso?

– Essa tese nos pareceu frágil e estávamos tão certos que a Justiça decidiu por cinco votos a zero a nosso favor.

– O seu pai, Geraldo Teixeira da Costa, foi um dos condôminos, na época. O senhor chegou a conhecer Assis Chateaubriand?

– Sim, tive muitos contatos com ele. Recordo-me, muito bem, de que quando o meu pai foi agraciado com a medalha da Inconfidência de Minas Gerais, o doutor Assis foi prestigiá-lo na entrega. Eu devia ter seis anos e fui apresentado a ele. Aconteceu um fato engraçado. Depois de ficar ao lado dele, comentei com a minha mãe: “Eu não achei que ele fosse tão alto!” (risos). Esse foi o primeiro encontro, depois tivemos outros. Após o AVC, por exemplo, ele foi almoçar em nossa casa de campo. Estava conversando com ele, quando, surpreendentemente, olhou para mim e comentou: “Você tem cara de finlandês, sabia?” Até hoje eu não entendi o porquê dessa expressão, mas jamais esqueci dessa observação feita pelo doutor Chateaubriand. Passei a achar que pareço mesmo com finlandês! Tivemos vários contatos, ele sempre muito carinhoso com todos.

– O senhor passou a ser um dos condôminos quando?

– O meu pai faleceu antes dele, em 1965, e fui eleito para o Condomínio em 1992. Isso significa que a minha trajetória começou muito tempo depois e só cheguei ao Condomínio 27 anos depois da morte dele. Fiz uma carreira solo, valorizando como meu pai a formação ética, moral, além de acreditar na resposta do trabalho realizado com seriedade.

– A sua formação é técnica, como engenheiro. Isso facilitou ou dificultou a sua trajetória profissional?

– Quando nasci, em 1943, o meu pai já era diretor de Redação, o que antigamente chamavam de redator-chefe, no Estado de Minas. Meu nascimento só foi registrado um ou dois dias depois e anunciado em uma coluna “o nascimento do robusto filho do nosso querido redator-chefe e da prendada senhora dona Emerlinda”. Ou seja, eu nasci e continuo robusto… (risos).

– E da sua infância, o que mais lhe marcou?

– O que eu mais gostava de fazer era ficar no jornal colocando papel naquelas máquinas de escrever, aquelas de bolinhas redondas. Enquanto o meu pai redigia o editorial, eu fazia da redação o meu campo de ação. Mesmo escrevendo ele não parava de me controlar: “Meu filho, você está gastando papel!”. Acho que vem daí todo o meu cuidado para evitar consumo desnecessário de papel e a determinação em economizá-lo.

– Voltemos ao engenheiro que foi seduzido pela imprensa?

– Depois de formado em engenharia, percebi que tinha ocorrido um boom na tecnologia das empresas de comunicação, isso em torno de 1972, quando participei da implantação da nossa emissora de televisão em Minas Gerais. Depois disso, participei do projeto de redução do formato do jornal, que eram bem largos, desperdiçando papel, que podia ser racionalizado. Me dediquei muito e fui o introdutor do sistema de composição atual computadorizado, com impressão em offset no Estado de Minas Gerais. Em todas as reuniões da empresa eu participava da gestão. A minha vida é jornal, está no sangue desde que nasci. Até hoje, jornal, rádio, televisão, tudo que é comunicação me fascina.

– Foi o seu pai que sugeriu a Assis Chateaubriand fundar um jornal para ser inaugurado com Brasília. Como foi que ocorreu essa sugestão?

– O Assis Chateaubriand resolveu fazer uma convenção de todos os diretores no Guarujá. Como meu pai era de Minas Gerais e muito amigo do Juscelino Kubitschek, mesmo sabendo que ele era contra a construção de Brasília, aproveitou a ocasião para apresentar uma moção para que fosse fundado um jornal na capital da República. Foi um gesto de coragem e ousadia do meu pai, até porque o seu chefe não apostava nada na construção da nova capital da República. Chateaubriand ouviu, ficou calado, mas com o cérebro processando aquela ideia. Um ano depois essa ideia era materializada com a implantação do Correio Braziliense e da TV Brasília, que fizeram a cobertura da festa de inauguração da capital da República.

– Como o senhor se sente, hoje, sentado na poltrona de presidente do jornal concebido por seu pai?

– (Mordisca os lábios, visivelmente emocionado) Eu tenho muita emoção porque, realmente, o Correio Braziliense é de uma importância muito grande para todos os brasileiros e para a capital da República. Estado de Minas é o grande jornal dos mineiros e o Correio também tem grande expressão. Eu jamais me imaginei dirigindo Estado de Minas e o Correio Braziliense, mas quis o destino que eu passasse a comandar todo o grupo. Ao mesmo tempo em que me sinto orgulhoso, também aumenta a minha responsabilidade e a determinação em continuar trabalhando.

– O senhor acha que teve alguma influência lá de cima?

– Eu acho que tem! Sou espiritualista, devoto de Santo Expedito. A gente tem realmente uma sina na vida, que é uma força divina. Nos dá uma vida difícil, mas, em contrapartida, nos dá força para continuar essa luta porque, realmente, tem sido uma batalha grande, mas que graças a Deus estamos colhendo os resultados. Agora podemos trabalhar com tranqüilidade a partir da decisão da Justiça, que reconheceu a legalidade do Condomínio.

– Os Associados foram surpreendidos com muitos golpes. Um deles foi na década de 70 quando o governo militar retirou todos as concessões das emissoras de televisão. Qual foi a dimensão desse terremoto?

– Foi muito grande, nosso grupo, exatamente em julho de 1980, sofreu um golpe que, infelizmente, nos causou perdas e danos irreparáveis. Lamentavelmente, esse golpe, que quase foi uma sentença de morte do grupo, foi desfechado por um general cujo pai foi salvo por Assis Chateaubriand durante a Intentona Comunista, em 1935. Mesmo assim, sabendo desse fato histórico, o então presidente, general João Batista Figueiredo, ignorou que o coronel Euclydes Figueiredo, seu pai, foi salvo pelo fundador dos Diários Associados, cedeu a grupos, cassando as nossas emissoras de televisão.

– O pretexto foi de que as empresas estavam sem liquidez, com muitas dívidas…

– A TV Tupi, de São Paulo, não chegou a atrasar o salário nem sequer dois meses, foi um mês e pouco e as demais emissoras do grupo não registravam qualquer débito, estávamos com os compromissos fiscais e empregatícios rigorosamente em ordem. Foi uma brutalidade que não dá para entender até hoje, 29 anos depois…

– Na época atribuiu-se a uma maquinação do então chefe da Casa Civil, o coronel Golbery do Couto e Silva…

– É verdade! Isso porque ele era acessível à pressão de outros grupos. Sem dúvida nenhuma, foi uma influência do governo de Figueiredo. Mas ele não poderia ter feito isso! Primeiro, porque a empresa não tinha um passivo tão grande; segundo, não devia sequer dois meses acumulados de uma única ação em São Paulo e terceiro, porque o então presidente tinha com os Diários Associados uma dívida de gratidão…

– Até que ponto o golpe atingiu o grupo?

– É freqüente afirmar que os Diários Associados não têm o tamanho de antes. Realmente, não têm, mas é preciso deixar bem claro que quem nos reduziu o tamanho foi o governo militar da época. Quanto à revista O Cruzeiro, que deixou de circular, existe uma explicação. Ela foi ultrapassada tecnologicamente e estrategicamente pela Veja, inclusive a Manchete também não sobreviveu. Sem dúvida, a perda da Rede Tupi reduziu nosso tamanho, mas continuamos firmes e retomando o fôlego.

– Vinte anos depois do golpe das emissoras de televisão, o grupo teve que enfrentar uma turbulência econômica…

– Na verdade, todo o setor de comunicação foi atingido por uma crise muito forte por volta dos anos 2000 e 2001. O nosso grupo foi atingido, mas o Correio Braziliense, nitidamente, por uma estratégia equivocada, foi o veículo mais atingido. Já enfrentamos várias crises do mercado, das confusões das mudanças de padrões monetários, da escassez de dólares, da desvalorização da moeda. Sobrevivemos a tudo isso.

– Mas a crise do Correio Braziliense não foi conjuntural, mas gerencial e editorial…

– Realmente, na gestão anterior o Correio Braziliense estava completamente afastado da comunidade. Acompanhando o que estava ocorrendo em Brasília, nós sabíamos que o destino final não seria outro a não ser aquela fase extremamente delicada. Houve uma reação e conseguimos corrigir os equívocos cometidos na enésima hora, com uma intervenção. Quase que perdemos o Correio Braziliense!

– Como foi isso?

– A possível venda, desde o início, foi rejeitada pelo grupo de condôminos de Minas Gerais. Fomos determinadamente contrários à venda, fosse para quem fosse. A possibilidade de o Correio Braziliense passar para outro grupo não fazia o menor sentido. Não dá para imaginar Estado de Minas não ser dirigido por mineiros. Embora Brasília sendo mais ampla no sentido da regionalização, ficaria uma situação muito delicada porque a cultura da empresa seria alterada completamente.

– O que era mais delicado em toda aquela crise?

– A constatação de que o Correio Braziliense estava a quilômetros, a anos-luz de distância da sua comunidade. Mas estava sendo concluído um acordo, que nem podia ser assim considerado. Nós conseguimos lançar mão de um recurso judicial para evitar que as ações do Estado de Minas fossem garantidoras da operação que retiraria a família Chateaubriand do grupo.

– E o que aconteceu?

– Não aceitamos o acordo, que era de R$ 190 milhões, mais 10% como honorários advocatícios, o que não teríamos a menor condição de cumprir. Iríamos, desse jeito, perder todo o grupo. O contrato era mesmo uma condenação, já que estabelecia prazos para quitar uma entrada com pagamentos mensais. Nem a entrada teríamos como pagar, era uma armadilha, porque se o acordo fosse assinado e ficasse inadimplente, pelo Código Civil, todos ficariam vencidos naquele mesmo dia.

– O que aconteceria, então?

– Se não pagássemos a entrada em 24 horas, o grupo contrário tomaria todas as ações e assumiria as empresas do Diários Associados sem investir um real sequer. E nós, sem absolutamente nada, com a venda das ações.

– Era uma cilada para os condôminos? Qual foi a saída?

– Nós assinaríamos um acordo de que não tínhamos como pagar e eles tomavam as empresas; nós ficaríamos absolutamente sem nada. Uma liminar foi concedida por uma desembargadora de Minas Gerais, Vanessa Verdolim Hudson Andrade, extremamente corajosa, afirmando que as ações, pelo regulamento do Condomínio, não poderiam dar garantia àqueles contratos. Com essa liminar nós conseguimos sustar o acordo. Se não fosse isso, seria o caos, a falência.

– Superada a cilada de Gilberto Chateaubriand com o beneplácito de João Cabral, como foi a recuperação do Correio Braziliense?

– O ponto de partida tinha que ser, como de fato aconteceu, a mudança no comando do jornal, que estava insustentável. Era preciso reconquistar a credibilidade, que estava muito em baixa, com uma linha editorial que não fazia o menor sentido. Na época, nós comentávamos que era tão radical que qualquer dia seria estampada na primeira página a manchete “Jesus Cristo é um canalha!” Isso porque, naquela época, não havia quase ninguém na cidade que não tivesse sido atingido fortemente, e de forma inadequada.

– Coube ao senhor mudar tudo. Como foi essa experiência?

– Recordo-me de que assumi a presidência do Correio Braziliense em novembro de 2002, e nós não tínhamos como pagar a folha de novembro, nem o 13º que venceria no dia 20 de dezembro. Não tínhamos a menor condição, nem crédito para pagar o salário de dezembro no início de janeiro. Passamos, sem dúvida nenhuma, por um período muito adverso, mas Deus ajudou e em junho de 2003 nós já podíamos distribuir os primeiros bônus, com os resultados alcançados, para os executivos da empresa.

– E como começou a reaproximação do jornal com a comunidade?

– Não é jogar confete naquela que está ao meu lado em todas as horas, meu ombro-amigo, a minha mulher, Nazareth. Ela teve um papel muito importante. Como eu teria que ficar na ponte-aérea Brasília-Belo Horizonte, a Nazareth resolveu vir comigo, com a ideia de executar um programa social, promovendo eventos na sociedade para arrecadar fundos destinados a creches. O Correio Solidário, que ela implantou, passou a ser uma ferramenta extraordinária do jornal com a sociedade. E assim o Correio Braziliense voltou a ser nela inserido.

– Afinal, essa crise toda teve como cabeça de ponta o então diretor de redação e condômino Ricardo Delgado Noblat?

– Eu acredito que sim, porque ele levou o jornal a perder a simpatia da cidade. Todos os contatos que eu tive na época me levaram à conclusão de que tinham deixado de ler o Correio Braziliense porque não concordavam com a linha editorial agressiva do jornal. Mas não vou fazer juízo dessa fase, embora possa lhe garantir que as últimas edições do jornal, antes das mudanças, demonstram claramente que era praticado um antijornalismo. O exemplo mais flagrante disso foi aquela primeira página com e-mails pedindo que não fosse substituído o diretor de Redação e que não assinariam mais o jornal. Foi a maior demonstração do absurdo instalado nesta empresa. Apelou ao ponto de declarar que, ele saindo, o jornal passaria a ser chapa-branca, seria isso ou aquilo. Realmente, o senhor Delgado falhou terrivelmente e profissionalmente…

– E quanto a Paulo Cabral e João Cabral?

– O doutor Paulo Cabral é um grande líder do grupo. Sempre teve decisões coerentes e fortes. Claro que, durante sua gestão, cometeu erros, como uma decisão em Pernambuco que até eu concordei na época, mas com a intenção de ajudar o grupo. Um grande mistério para nós é por que permitiu alguns abusos dentro da empresa no que se refere à prática jornalística. Não conseguimos explicar até hoje, passou. Mas depois que assumi, o doutor Paulo Cabral sempre diz palavras de elogio a minha pessoa dentro da comunidade, que lhe quer muito bem. Fica apenas o mistério dos últimos anos de gestão dele, que permitiu os desmandos, o que não era e nunca foi de sua índole aceitar coisas desse tipo. Fica o mistério para alguém desvendar…

– Quanto ao João Cabral?

– A impressão que me prevalece é a de que ele deu um passo maior que as pernas. Na época, não tinha experiência jornalística para assumir o posto que lhe foi conferido. Ele ficou refém da estratégia de redação do senhor Delgado e se perdeu.

– Quatro décadas depois, com os condôminos administrando as empresas, é a demonstração que Assis Chateaubriand estava certo?

– Agora, o grupo, sem pendência jurídica da família do fundador, entrará em um estágio de desenvolvimento extraordinário. E vamos dar muito que falar ainda no mercado.

Dando a volta por cima

O engenheiro Álvaro Augusto Teixeira da Costa começou a tomar gosto pelo jornalismo acompanhando seu pai, Geraldo Teixeira da Costa, chefe de Redação do jornal Estado de Minas. Por Marcone Formiga

Passou a freqüentar a redação, mal deixara de engatinhar. Divertia-se brincando com as antigas máquinas Remington, imitando o seu pai escrevendo editoriais. Tomou gosto, mas a engenharia também o fascinava. Conheceu, na época, o fundador dos Diários e Emissoras Associados, Assis Chateaubriand, que, mais do que patrão, era um amigo íntimo do seu pai, freqüentando a casa da família.

Sua trajetória no Estado de Minas começou degrau por degrau, iniciando como engenheiro, em 1965, até chegar à presidência, que acumula, com o mesmo cargo, no Correio Braziliense.

Mineiramente, não é de falar muito, principalmente quando a sua pessoa está centrada. A entrevista que segue levou sete anos para ser concedida porque ele aguardava o momento exato em que romperia seu longo silêncio. Além de discreto, Álvaro Teixeira da Costa também é modesto e não procura ostentar o poder que tem como publisher do jornal mais importante da capital da República e um dos mais expressivos do país.

Só depois que a Justiça legitimou o gesto do fundador dos Diários Associados de distribuir as cotas do grupo entre seus colaboradores, o que os herdeiros questionavam, resolveu falar, contando, também, como o Correio Braziliense foi salvo de uma falência iminente e como foi recuperado depois da intervenção que partiu de Minas Gerais. Hoje é uma empresa lucrativa e que retomou a credibilidade e o respeito dos brasilienses.

Ele fala de tudo, sem dissimular o otimismo quanto ao futuro, que pretende retomar com todo o arrojo, consolidando uma verdadeira volta por cima.
(Bem acomodado em sua mesa de trabalho, diante dos gravadores, faz um comentário, antes de começar a entrevista:)

– Pode perguntar o que quiser, inclusive a minha idade, o meu peso… (risos)

– Por que Assis Chateaubriand resolveu fundar os Diários e Emissoras Associados?

– Os Diários Associados surgiram em 1924. Aos 22 anos, já como professor catedrático na Faculdade de Direito do Recife, ele tinha o sonho de integrar o país, porque achava que o Brasil não estava convenientemente integrado às culturas e hábitos muito diversificados. Seu maior receio era de que o Brasil fosse dividido em três países. Dessa forma, entendeu que seria interessante partir para um grupo nacional de comunicação, comprando em 1922 O Jornal por 5800 Contos de Réis. Depois fundou os Diários Associados, o que fez com muito arrojo e determinação, só tendo descansado quando viu que estava presente em quase todos os estados brasileiros. Portanto, mais do que fundar um grupo de empresas de comunicação, seu sonho era promover essa integração, à qual dedicou 46 anos de sua vida.

– Ele morreu em 1968, há 41 anos. O grupo, todo esse tempo, continuou sob a administração dos condôminos. Qual foi o critério para a escolha dos 22 condôminos?

– Isso foi em 1958, depois de ter estruturado o seu império empresarial. Ele percebeu que as empresas estavam descentralizadas, o que foi uma estratégia sua para que cada parte do país tivesse um estilo próprio de acordo com sua cultura. Embora paradoxal tal separação ajudaria a manter o país integrado, já que em cada região teria alguém dirigindo a empresa. Logo entendeu que a melhor forma seria que houvesse um grupo de pessoas para sucedê-lo por meio desse Condomínio Acionário, considerado na Justiça uma organização sui generis, atípica, porém absolutamente legal e que preservaria todo o conjunto de sua obra.

– Como foi viabilizada essa ideia?

– Ele reservou mais da metade do seu patrimônio para a família e os Diários Associados, que representavam menos da metade do seu patrimônio. Legalmente, fez a doação para os seus 22 principais colaboradores. O objetivo que o levou a isso foi o de fazer com que seus colaboradores fossem detentores das ações enquanto vivessem. Não de posse definitiva, não foi uma doação…

– Como assim?

– Nós somos detentores das ações enquanto vivermos e depois da morte as passaremos para outro companheiro escolhido, que tenha a mesma intenção de preservar a unidade nacional e o bem do país, não as deixaremos de herança para alguém da família.

– Ele participava das reuniões, como era sua atuação?

– Participou desde a fundação do grupo até 1968. Enquanto viveu, presidia as reuniões do
Condomínio, sempre muito participativo e com ideias para incrementar as empresas, com pulso forte e liderança inconteste, além de sua marca de desbravador e realizador.

– Também permanecia nas reuniões que definiam a estratégia de mercado, como também a linha editorial de todo o grupo?

– Ele estabelecia os objetivos básicos dos Diários Associados. Não gostava muito de falar sobre o desempenho das empresas. Para ele, o importante era que as empresas existissem em regiões estratégicas. Inicialmente contrário à construção de Brasília, tornou-se depois um ardoroso defensor da mudança da capital da República para o Centro-Oeste por reconhecer sua importância na integração do país, como de fato está acontecendo. Ele não tinha paciência para discutir resultados das empresas, estratégia de marketing, passivo… Não tinha e nem queria saber sobre isso. O que lhe interessava, e muito mesmo, era saber se o país estava se desenvolvendo do jeito que sempre sonhou.

– O conceito que até hoje se tem é de que se tratava de um homem muito além do seu tempo.

– Ninguém, seguramente, até hoje, conseguiu superá-lo nesse atributo de inteligência. Ele era realmente o maior destaque do país.

– Como os seus filhos, os herdeiros, reagiram quando souberam da sua decisão em distribuir as cotas entre os homens da sua confiança?

– Na verdade, ele sempre teve uma vida um pouco conturbada com a família, mas, de qualquer forma, incluiu os filhos homens no Condomínio. O mais velho, Fernando, simplesmente não aceitou, não quis participar e não aderiu ao processo. O Gilberto aceitou e em uma fase posterior os dois romperam, mas até hoje ele permanece no grupo, porém não frequenta reuniões. O Gilberto não esconde mágoas profundas em relação ao seu pai. Chateaubriand não queria que as empresas ficassem nas mãos dos filhos, queria que ficasse nas mãos dos colaboradores, mas não deixou de incluí-los nesse meio.

– Os filhos não tinham o perfil de executivos que ele desejava para gerir as empresas?

– Ele não enxergou nos filhos a visão patriótica que tinha. É uma suposição minha, já que a competência de gestão realmente não o preocupava muito. Ele procurava competência no jornalismo, no seu jornalismo mais representativo, porém, não enxergava isso nos filhos. Até hoje essa solução de Condomínio é estudada e elogiada, não só aqui, mas em outros países. Tanto que é um case no mundo inteiro, como uma estrutura diferenciada e extraordinária.

– Foi ele mesmo quem concebeu essa fórmula?

– Ele passou a espinha dorsal para uma equipe de juristas notáveis que desenvolveu legalmente tudo o que ele pretendia e de que maneira o Condomínio tomaria forma e ação.

– Mas os herdeiros, depois da sua morte, recorreram à Justiça para ter as cotas de volta. O que aconteceu a partir daí?

– Esse foi o primeiro ato jurídico, depois vieram mais duas ações para acabar com o Condomínio. A primeira, baseada em lei, alegando que, por se tratar de um Condomínio, depois de cinco anos, se um dos condôminos se retirasse, as ações iriam para hasta. Porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) chegou à conclusão de que não se tratava de um Condomínio, mas sim de um contrato interno absolutamente legal, embora não previsto em nenhuma das formas acobertadas pelo Código Civil.

– Então, como se enquadra o Condomínio?

– Não é nada que se possa enquadrar dentro dessas organizações tradicionais. Trata-se de um contrato atípico, já reconhecido pelo STJ, e agora nessa última decisão (na terça feira, dia 24 de março, na 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) eles alegavam que pelo direito de herança o doador poderia fazer a doação aos 22 condôminos, mas esses legalmente não poderiam transferi-las após sua morte. Ou seja, estavam reconhecendo apenas que só os primeiros condôminos eram válidos. Depois, essa validade não prevaleceria.

– Como o Condomínio reagiu diante de mais um recurso?

– Essa tese nos pareceu frágil e estávamos tão certos que a Justiça decidiu por cinco votos a zero a nosso favor.

– O seu pai, Geraldo Teixeira da Costa, foi um dos condôminos, na época. O senhor chegou a conhecer Assis Chateaubriand?

– Sim, tive muitos contatos com ele. Recordo-me, muito bem, de que quando o meu pai foi agraciado com a medalha da Inconfidência de Minas Gerais, o doutor Assis foi prestigiá-lo na entrega. Eu devia ter seis anos e fui apresentado a ele. Aconteceu um fato engraçado. Depois de ficar ao lado dele, comentei com a minha mãe: “Eu não achei que ele fosse tão alto!” (risos). Esse foi o primeiro encontro, depois tivemos outros. Após o AVC, por exemplo, ele foi almoçar em nossa casa de campo. Estava conversando com ele, quando, surpreendentemente, olhou para mim e comentou: “Você tem cara de finlandês, sabia?” Até hoje eu não entendi o porquê dessa expressão, mas jamais esqueci dessa observação feita pelo doutor Chateaubriand. Passei a achar que pareço mesmo com finlandês! Tivemos vários contatos, ele sempre muito carinhoso com todos.

– O senhor passou a ser um dos condôminos quando?

– O meu pai faleceu antes dele, em 1965, e fui eleito para o Condomínio em 1992. Isso significa que a minha trajetória começou muito tempo depois e só cheguei ao Condomínio 27 anos depois da morte dele. Fiz uma carreira solo, valorizando como meu pai a formação ética, moral, além de acreditar na resposta do trabalho realizado com seriedade.

– A sua formação é técnica, como engenheiro. Isso facilitou ou dificultou a sua trajetória profissional?

– Quando nasci, em 1943, o meu pai já era diretor de Redação, o que antigamente chamavam de redator-chefe, no Estado de Minas. Meu nascimento só foi registrado um ou dois dias depois e anunciado em uma coluna “o nascimento do robusto filho do nosso querido redator-chefe e da prendada senhora dona Emerlinda”. Ou seja, eu nasci e continuo robusto… (risos).

– E da sua infância, o que mais lhe marcou?

– O que eu mais gostava de fazer era ficar no jornal colocando papel naquelas máquinas de escrever, aquelas de bolinhas redondas. Enquanto o meu pai redigia o editorial, eu fazia da redação o meu campo de ação. Mesmo escrevendo ele não parava de me controlar: “Meu filho, você está gastando papel!”. Acho que vem daí todo o meu cuidado para evitar consumo desnecessário de papel e a determinação em economizá-lo.

– Voltemos ao engenheiro que foi seduzido pela imprensa?

– Depois de formado em engenharia, percebi que tinha ocorrido um boom na tecnologia das empresas de comunicação, isso em torno de 1972, quando participei da implantação da nossa emissora de televisão em Minas Gerais. Depois disso, participei do projeto de redução do formato do jornal, que eram bem largos, desperdiçando papel, que podia ser racionalizado. Me dediquei muito e fui o introdutor do sistema de composição atual computadorizado, com impressão em offset no Estado de Minas Gerais. Em todas as reuniões da empresa eu participava da gestão. A minha vida é jornal, está no sangue desde que nasci. Até hoje, jornal, rádio, televisão, tudo que é comunicação me fascina.

– Foi o seu pai que sugeriu a Assis Chateaubriand fundar um jornal para ser inaugurado com Brasília. Como foi que ocorreu essa sugestão?

– O Assis Chateaubriand resolveu fazer uma convenção de todos os diretores no Guarujá. Como meu pai era de Minas Gerais e muito amigo do Juscelino Kubitschek, mesmo sabendo que ele era contra a construção de Brasília, aproveitou a ocasião para apresentar uma moção para que fosse fundado um jornal na capital da República. Foi um gesto de coragem e ousadia do meu pai, até porque o seu chefe não apostava nada na construção da nova capital da República. Chateaubriand ouviu, ficou calado, mas com o cérebro processando aquela ideia. Um ano depois essa ideia era materializada com a implantação do Correio Braziliense e da TV Brasília, que fizeram a cobertura da festa de inauguração da capital da República.

– Como o senhor se sente, hoje, sentado na poltrona de presidente do jornal concebido por seu pai?

– (Mordisca os lábios, visivelmente emocionado) Eu tenho muita emoção porque, realmente, o Correio Braziliense é de uma importância muito grande para todos os brasileiros e para a capital da República. Estado de Minas é o grande jornal dos mineiros e o Correio também tem grande expressão. Eu jamais me imaginei dirigindo Estado de Minas e o Correio Braziliense, mas quis o destino que eu passasse a comandar todo o grupo. Ao mesmo tempo em que me sinto orgulhoso, também aumenta a minha responsabilidade e a determinação em continuar trabalhando.

– O senhor acha que teve alguma influência lá de cima?

– Eu acho que tem! Sou espiritualista, devoto de Santo Expedito. A gente tem realmente uma sina na vida, que é uma força divina. Nos dá uma vida difícil, mas, em contrapartida, nos dá força para continuar essa luta porque, realmente, tem sido uma batalha grande, mas que graças a Deus estamos colhendo os resultados. Agora podemos trabalhar com tranqüilidade a partir da decisão da Justiça, que reconheceu a legalidade do Condomínio.

– Os Associados foram surpreendidos com muitos golpes. Um deles foi na década de 70 quando o governo militar retirou todos as concessões das emissoras de televisão. Qual foi a dimensão desse terremoto?

– Foi muito grande, nosso grupo, exatamente em julho de 1980, sofreu um golpe que, infelizmente, nos causou perdas e danos irreparáveis. Lamentavelmente, esse golpe, que quase foi uma sentença de morte do grupo, foi desfechado por um general cujo pai foi salvo por Assis Chateaubriand durante a Intentona Comunista, em 1935. Mesmo assim, sabendo desse fato histórico, o então presidente, general João Batista Figueiredo, ignorou que o coronel Euclydes Figueiredo, seu pai, foi salvo pelo fundador dos Diários Associados, cedeu a grupos, cassando as nossas emissoras de televisão.

– O pretexto foi de que as empresas estavam sem liquidez, com muitas dívidas…

– A TV Tupi, de São Paulo, não chegou a atrasar o salário nem sequer dois meses, foi um mês e pouco e as demais emissoras do grupo não registravam qualquer débito, estávamos com os compromissos fiscais e empregatícios rigorosamente em ordem. Foi uma brutalidade que não dá para entender até hoje, 29 anos depois…

– Na época atribuiu-se a uma maquinação do então chefe da Casa Civil, o coronel Golbery do Couto e Silva…

– É verdade! Isso porque ele era acessível à pressão de outros grupos. Sem dúvida nenhuma, foi uma influência do governo de Figueiredo. Mas ele não poderia ter feito isso! Primeiro, porque a empresa não tinha um passivo tão grande; segundo, não devia sequer dois meses acumulados de uma única ação em São Paulo e terceiro, porque o então presidente tinha com os Diários Associados uma dívida de gratidão…

– Até que ponto o golpe atingiu o grupo?

– É freqüente afirmar que os Diários Associados não têm o tamanho de antes. Realmente, não têm, mas é preciso deixar bem claro que quem nos reduziu o tamanho foi o governo militar da época. Quanto à revista O Cruzeiro, que deixou de circular, existe uma explicação. Ela foi ultrapassada tecnologicamente e estrategicamente pela Veja, inclusive a Manchete também não sobreviveu. Sem dúvida, a perda da Rede Tupi reduziu nosso tamanho, mas continuamos firmes e retomando o fôlego.

– Vinte anos depois do golpe das emissoras de televisão, o grupo teve que enfrentar uma turbulência econômica…

– Na verdade, todo o setor de comunicação foi atingido por uma crise muito forte por volta dos anos 2000 e 2001. O nosso grupo foi atingido, mas o Correio Braziliense, nitidamente, por uma estratégia equivocada, foi o veículo mais atingido. Já enfrentamos várias crises do mercado, das confusões das mudanças de padrões monetários, da escassez de dólares, da desvalorização da moeda. Sobrevivemos a tudo isso.

– Mas a crise do Correio Braziliense não foi conjuntural, mas gerencial e editorial…

– Realmente, na gestão anterior o Correio Braziliense estava completamente afastado da comunidade. Acompanhando o que estava ocorrendo em Brasília, nós sabíamos que o destino final não seria outro a não ser aquela fase extremamente delicada. Houve uma reação e conseguimos corrigir os equívocos cometidos na enésima hora, com uma intervenção. Quase que perdemos o Correio Braziliense!

– Como foi isso?

– A possível venda, desde o início, foi rejeitada pelo grupo de condôminos de Minas Gerais. Fomos determinadamente contrários à venda, fosse para quem fosse. A possibilidade de o Correio Braziliense passar para outro grupo não fazia o menor sentido. Não dá para imaginar Estado de Minas não ser dirigido por mineiros. Embora Brasília sendo mais ampla no sentido da regionalização, ficaria uma situação muito delicada porque a cultura da empresa seria alterada completamente.

– O que era mais delicado em toda aquela crise?

– A constatação de que o Correio Braziliense estava a quilômetros, a anos-luz de distância da sua comunidade. Mas estava sendo concluído um acordo, que nem podia ser assim considerado. Nós conseguimos lançar mão de um recurso judicial para evitar que as ações do Estado de Minas fossem garantidoras da operação que retiraria a família Chateaubriand do grupo.

– E o que aconteceu?

– Não aceitamos o acordo, que era de R$ 190 milhões, mais 10% como honorários advocatícios, o que não teríamos a menor condição de cumprir. Iríamos, desse jeito, perder todo o grupo. O contrato era mesmo uma condenação, já que estabelecia prazos para quitar uma entrada com pagamentos mensais. Nem a entrada teríamos como pagar, era uma armadilha, porque se o acordo fosse assinado e ficasse inadimplente, pelo Código Civil, todos ficariam vencidos naquele mesmo dia.

– O que aconteceria, então?

– Se não pagássemos a entrada em 24 horas, o grupo contrário tomaria todas as ações e assumiria as empresas do Diários Associados sem investir um real sequer. E nós, sem absolutamente nada, com a venda das ações.

– Era uma cilada para os condôminos? Qual foi a saída?

– Nós assinaríamos um acordo de que não tínhamos como pagar e eles tomavam as empresas; nós ficaríamos absolutamente sem nada. Uma liminar foi concedida por uma desembargadora de Minas Gerais, Vanessa Verdolim Hudson Andrade, extremamente corajosa, afirmando que as ações, pelo regulamento do Condomínio, não poderiam dar garantia àqueles contratos. Com essa liminar nós conseguimos sustar o acordo. Se não fosse isso, seria o caos, a falência.

– Superada a cilada de Gilberto Chateaubriand com o beneplácito de João Cabral, como foi a recuperação do Correio Braziliense?

– O ponto de partida tinha que ser, como de fato aconteceu, a mudança no comando do jornal, que estava insustentável. Era preciso reconquistar a credibilidade, que estava muito em baixa, com uma linha editorial que não fazia o menor sentido. Na época, nós comentávamos que era tão radical que qualquer dia seria estampada na primeira página a manchete “Jesus Cristo é um canalha!” Isso porque, naquela época, não havia quase ninguém na cidade que não tivesse sido atingido fortemente, e de forma inadequada.

– Coube ao senhor mudar tudo. Como foi essa experiência?

– Recordo-me de que assumi a presidência do Correio Braziliense em novembro de 2002, e nós não tínhamos como pagar a folha de novembro, nem o 13º que venceria no dia 20 de dezembro. Não tínhamos a menor condição, nem crédito para pagar o salário de dezembro no início de janeiro. Passamos, sem dúvida nenhuma, por um período muito adverso, mas Deus ajudou e em junho de 2003 nós já podíamos distribuir os primeiros bônus, com os resultados alcançados, para os executivos da empresa.

– E como começou a reaproximação do jornal com a comunidade?

– Não é jogar confete naquela que está ao meu lado em todas as horas, meu ombro-amigo, a minha mulher, Nazareth. Ela teve um papel muito importante. Como eu teria que ficar na ponte-aérea Brasília-Belo Horizonte, a Nazareth resolveu vir comigo, com a ideia de executar um programa social, promovendo eventos na sociedade para arrecadar fundos destinados a creches. O Correio Solidário, que ela implantou, passou a ser uma ferramenta extraordinária do jornal com a sociedade. E assim o Correio Braziliense voltou a ser nela inserido.

– Afinal, essa crise toda teve como cabeça de ponta o então diretor de redação e condômino Ricardo Delgado Noblat?

– Eu acredito que sim, porque ele levou o jornal a perder a simpatia da cidade. Todos os contatos que eu tive na época me levaram à conclusão de que tinham deixado de ler o Correio Braziliense porque não concordavam com a linha editorial agressiva do jornal. Mas não vou fazer juízo dessa fase, embora possa lhe garantir que as últimas edições do jornal, antes das mudanças, demonstram claramente que era praticado um antijornalismo. O exemplo mais flagrante disso foi aquela primeira página com e-mails pedindo que não fosse substituído o diretor de Redação e que não assinariam mais o jornal. Foi a maior demonstração do absurdo instalado nesta empresa. Apelou ao ponto de declarar que, ele saindo, o jornal passaria a ser chapa-branca, seria isso ou aquilo. Realmente, o senhor Delgado falhou terrivelmente e profissionalmente…

– E quanto a Paulo Cabral e João Cabral?

– O doutor Paulo Cabral é um grande líder do grupo. Sempre teve decisões coerentes e fortes. Claro que, durante sua gestão, cometeu erros, como uma decisão em Pernambuco que até eu concordei na época, mas com a intenção de ajudar o grupo. Um grande mistério para nós é por que permitiu alguns abusos dentro da empresa no que se refere à prática jornalística. Não conseguimos explicar até hoje, passou. Mas depois que assumi, o doutor Paulo Cabral sempre diz palavras de elogio a minha pessoa dentro da comunidade, que lhe quer muito bem. Fica apenas o mistério dos últimos anos de gestão dele, que permitiu os desmandos, o que não era e nunca foi de sua índole aceitar coisas desse tipo. Fica o mistério para alguém desvendar…

– Quanto ao João Cabral?

– A impressão que me prevalece é a de que ele deu um passo maior que as pernas. Na época, não tinha experiência jornalística para assumir o posto que lhe foi conferido. Ele ficou refém da estratégia de redação do senhor Delgado e se perdeu.

– Quatro décadas depois, com os condôminos administrando as empresas, é a demonstração que Assis Chateaubriand estava certo?

– Agora, o grupo, sem pendência jurídica da família do fundador, entrará em um estágio de desenvolvimento extraordinário. E vamos dar muito que falar ainda no mercado.

Fonte: http://www.brasiliaemdia.com.br/2009/4/2/Pagina6601.htm

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