De corpos e negócios

Publicado em: 26/06/2012

Nunca vi ninguém fazer tanto negócio como se fazem negócios no Country Clube. É impressionante. Um amigo, um dia desses, montou duas lojas, vendeu o carro, comprou outro, alugou um escritório, ficou com um apartamento e decidiu-se por uma viagem a Europa. É bem verdade que no dia seguinte ele tinha uma vaga lembrança de ter conversado sobre automóveis, viagens e inversões imobiliárias. De resto, o único negócio importante que ele realmente fez foi mandar a empregada comprar um sonrisal na esquina. A viagem a Europa não passou de uma pescaria fraquíssima em Cacupé.

Outro dia o Caruso telefonou angustiado:

– Pelo amor de Deus, você esteve comigo no Country, ontem à noite, não esteve?

Ora, o Caruso é um sujeito sério, responsável e não ia fazer uma pergunta cuja resposta era óbvia. Tínhamos jantado juntos e no bar fomos responsáveis pela liquidação sumária de incontáveis doses de nacional legítimo, que estrangeiro já viu, né?

– Claro que estive – confirmei – e daí?

– Fale a verdade – implorou-me angustiadíssimo – Por acaso eu falei com alguém propondo casamento?

A esta altura quem estava preocupado era eu.

A atitude do meu amigo era incomum, fora de propósito. Fiz um esforço de memória e entre algumas nuvens e vapores lembrei-me de que vira o Caruso conversando com algumas estagiárias não sei de que, vindas não sei de onde e, por sinal, mais chatas que a fila da ponte. Mas garanti ao Caruso que não ouvirá uma palavra só sobre casamento e similares, embora não tivesse lá muita certeza da minha própria afirmação.

– Mas então, retrucou Caruso do outro lado d alinha, já mais aliviado, então o que é que esse bofe quer comigo?

Antes que eu perguntasse qual bofe, veio outra pergunta, também desconcertante:

– Escuta, e por acaso eu renunciei ao meu mandato de vereador?

– Não Caruso, só se foi naquela hora em que você foi lá fora.

– Então, faça-me um favor. Diga isso ao Nascimento, que estsá aqui e quer tomar posse de qualquer jeito.

É bom assinalar que Nascimento é suplente profissional e vive esperando a vez na Câmara.

Adolfo Zigelli. As soluções finais. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1975. Esgotado.

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