De onde vem essa voz?

Publicado em: 03/06/2020

De onde vem essa voz?. Ora é voz de homem ora é voz de mulher. De onde vem essa música; minha mãe chama de canção; ou é voz de homem ou é voz de mulher, mas é uma canção, diz dona olga colocando sobre ele a sua mão, mas eu insistia em saber.

De repente diz às horas, da manhã, da tarde e da noite. A voz que vem dele, não apenas uma, são várias. Num momento minha mãe diz que é notícia, na outra fala sobre novelas, depois uma receita, em seguida anuncia às horas e vem outra canção, mas eu não conseguia entender como é que uma pequena caixa de madeira com alguns botões na frente podia dizer tanto, todos os dias e o dia todo. Havia vozes bonitas e canções animadas, mas havia músicas tristes e por vezes eu chorava, e ainda assim queria entender de onde vem essa voz? Aquele fenômeno me intrigava.

Os anos foram passando e alguém me disse que havia um lugar chamado de rádio, além daquele que havia no balcão lá da cozinha. O lugar onde ficavam as pessoas que falavam e suas vozes saiam no rádio de casa. Descobri que havia um número de telefone para cada emissora de rádio, era assim que chamavam. Com uma ficha telefônica fiz contato. Deixei meu nome e a moça que atendeu disse que eu estava concorrendo aos prêmios. Voltei para casa. Cerca de uma hora depois de ligar para a rádio o homem que de lá falava disse meu nome completo e o bairro onde morava. No final do programa houve o sorteio dos prêmios, eram ingressos para o cinema. Havia apenas um shopping na Grande Florianópolis e os ingressos eram para aquele cinema. Lindomar, meu cunhado, me levou de moto até lá. Era em Coqueiros, rádio Santa Catarina. Tímido, nunca tinha coragem para pedir para ver como era tudo lá por dentro. Perdi as contas de quantas vezes meu cunhado e meu pai me levaram até lá para retirar os prêmios. Queria ver quem falava, como falava e como tudo funcionava. O dono da voz era Nabor Prazeres.

Na rua Santa Luzia, enquanto brincava com os amigos, futebol de rua, bang bang, pipa, bolinhas de vidro, vez por outra eu saia para ligar para alguma rádio. Ganhei vários prêmios; Ingressos para cinema, circo, parques de diversões, mas nunca havia a coragem de pedir para conhecer o local em sua essência. Um dia, no Morro da Cruz, na então rádio Cultura, quando fui buscar um prêmio, um disco de vinil, um jovem locutor, perguntou se eu já conhecia uma rádio, o estúdio. Respondi que não e ele gentilmente me convidou a entrar. E mais, me deixou sortear o vencedor do prêmio do dia. No mesmo dia 3 presentes. O disco, um melhor ainda que foi conhecer os estúdios e um ainda mais inesperado, falar no microfone da rádio.

Os anos foram passando e com eles vieram tudo o que é comum a quase todos: trabalho, muito trabalho, casamento, filhos e os altos e baixos da vida. Uma coisa sempre mantive por perto, um rádio. Às vezes mais de um. O mais intrigante ainda viria e provocaria uma dúvida como aquela de 30 anos atrás. Certo dia, 5 anos depois de ter me mudado para o bairro vizinho, passei pela rua Santa Luzia, onde ficava à casa onde nasci e morei por 35 anos. Havia algo diferente naquela rua de apenas 5 terrenos ou casas de cada lado. Bem na esquina, nos fundos do terreno havia sido montada uma emissora de rádio. Já havia experimentado a comunicação na escrita de 3 livros e colunas em jornais, mas aos 40 anos rádio não estava nos planos. Não resisti. Telefonei, combinei uma hora com o coordenador, trocamos ideias e em 2 meses, exatamente no dia 02 de junho de 2013 foi ao ar meu primeiro programa de rádio. Não só na rua onde ficava a casa onde nasci e morei por 35 anos e que por tantas vezes deixava os colegas em busca de um “orelhão” para telefonar com a intenção mais de conhecer a emissora por dentro e o dono daquela voz do que o prêmio em si; foi o fato de a voz das vinhetas ser justamento do radialista dono daquela voz, que até então nunca havia conhecido a não ser pelo rádio. Nabor anunciava algo mais ou menos assim: “Agora na rádio Luar FM o melhor da música e bate-papo, Na cadeira do barbeiro, com Deivison Pereira”. “Fique ligado, já já voltaremos com o programa na cadeira do barbeiro”. “Você está acompanhando o programa na cadeira do barbeiro, com Deivison Pereira”. Você ouviu aqui na Luar o…”. Passados 3 meses da estreia do programa eu o convidei para ser um dos meus entrevistados e contar um pouco da sua história na comunicação. Um competente coordenador, radialista e com uma inconfundível voz.

Os anos continuam passando e sempre que ouço rádio fico pensando naquela antiga pergunta. Será que ela já foi respondida? Afinal de contas o rádio se apropria dos radialistas ou os radialistas se apropriam do rádio. Isso parece mais um casamento. Eles estão em todo o mundo, os rádios, as emissoras e os radialistas e talvez em algum lugar alguém ainda pergunte: “De onde vem essa voz?”.

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