Declaração (ou pelo avesso)

Publicado em: 12/07/2012

Saibam todos: nunca mais vou cair na armadilha do lusco-fusco da tarde, que umedece olhos e amolece corações. Doravante, serei surdo aos ruídos carinhosos que enchem sutilmente de sons os momentos da morte relutante do dia: um cão que ladra; um trem que apita inconcebivelmente; um galo traidor que desloca seu ofício para longe da madrugada; uma freada de carro contrariada num sinal luminoso; a música de um rádio derramando-se através da janela carcomida e mal pintada da casa velha e mal conservada; o som de sinfonia desconcertante das goteiras depois da pancada de chuva. Anotem: jamais ficarei novamente à mercê dessa beleza insinuante contida na tarde suburbana. Dessa usina submersa de poesia, que induz pobres almas sensíveis a mergulhar no sonho, a construir inúteis poemas; que faz com que tímidos apaixonados se transformem em escandalosos menestréis.

Registrem: recuso-me a ver o belo que há na saída barulhenta dos jovens da escola; na caminhada aparentemente tranquila dos operários que deixam a fábrica, felizes na ignorância dos explorados; no passo cadenciado, bamboleante e sedutor das jovenzinhas em flor, expectantes e ansiosas, envolvidas no jogo da sedução.

Declaro-me rompido com essas coisas simples e vitais: com os últimos raios de sol coados através das folhas das mangueiras de quintal; com o arco-íris das roupas rotas penduradas nos varais; com o arrulho de rolinhas nos infindáveis telhados que parecem um mar cor-de-telhas, ondeando por sobre casas simples; com a gota de orvalho que rola, lentamente, na folha de capim, até despencar e explodir contra a terra ensombrada do jardim, num suicídio em líquido e luz.

Renego os belos quadros, que são armadilhas coloridas para os olhos, mentes, corações – janelas traiçoeiras voltadas para a beleza, para o inusitado ou simplesmente para o chocante ou o enigmático; e os livros, essas profundidades abissais habilmente disfarçadas em páginas entre capas – mundos sedutores, irresistíveis, desafiantes, provocadores, intrigantes.

Repudio a poesia, fugindo espavorido dos cânticos de amor, das odes grandiloquentes, dos sonetos redondos e apaixonantes, das rimas e dos versos livres, e até de assustadoras demonstrações de aguda sensibilidade vazadas em versos de pé-quebrado.

Rechaço a música. Nunca mais me deixarei enlevar por sons maviosos ou entusiasmar por estridentes fanfarras. Não me atravessarão os ouvidos nem me falarão ao coração: as imensas sinfônicas ou filarmônicas; as modestas bandinhas com suas retretas em coretos de pracinhas em cidades interioranas; ou solitários solistas nas ruas e praças, armando impunemente suas armadilhas sonoras para transeuntes apressados que carregam ouvidos moucos e almas  impressionáveis.

Declaro tudo isso peremptória e solenemente. A tudo isso que foi declarado rechaço, repudio, renego. Mas, sobretudo, declaro-me inimigo, desafeto, rompido com quem quer que seja capaz de acreditar que há um pingo sequer de verdade nesta declaração.

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