Depois da “Desterceirização”

Publicado em: 02/11/2012

J. Pimentel

No último artigo que escrevi, falei dos prejuízos da “terceirização” para o rádio e radialistas. Hoje quero falar do pós-terceirização, ou seja, o que acontece depois que uma emissora decide retomar para si a programação geral e acabar com a predadora terceirização. Alguns donos de rádio que tomaram essa medida ainda não entenderam a importância do que têm nas mãos. Eles continuam com o mesmo pensamento antigo que os levaram a terceirizar suas emissoras no passado. Isso, possivelmente está ligado ao fato desses radiodifusores não terem origem dentro do rádio. Geralmente são políticos ou laranjas de políticos. Quando não são políticos são religiosos, igualmente predadores.

Quando o radiodifusor acaba com a terceirização ele precisa ter em mente alguns problemas que vai enfrentar e que só serão resolvidos com  investimentos.

1 – O radiodifusor deixa de ter uma receita liquida substancial e assume salários e encargos trabalhistas da nova equipe que contratou. Assume ainda todas as despesas de água, luz, telefone, cafezinho, tudo o que antes não era de sua responsabilidade.

2 – Ele precisa reestruturar física e tecnicamente a nova rádio que pretende implantar, como novos equipamentos, telefones e gravadores para os repórteres, investimento em computadores e infraestrutura para os até então inexistentes departamentos de jornalismo, programação e produção e em pessoal qualificado para pensar as estratégias da nova programação, evolução da audiência e projeção de faturamento.

3 – Será necessária uma nova campanha de fixação de imagem da nova programação porque a programação anterior desgastou a marca da rádio, afugentou os ouvintes e acabou drasticamente com o hábito de audiência, condição principal para o sucesso de uma rádio. Esta campanha é precedida pela programação que precisa ser ousada e de qualidade, sob pena de frustrar a expectativa dos ouvintes.

4 – Este radiodifusor precisa investir no perfil que adotar (jornalismo, variedades, musical, etc) contratando bons comunicadores, operadores, repórteres, setoristas, produtores, motoristas, departamento de publicidade, coordenadores artístico e de jornalismo, departamento de esportes, departamento de promoções, internet, portal exclusivo da rádio, e bons salários para que o funcionário seja o maior divulgador das qualidades da empresa.

5 – O radiodifusor precisa ter em mente que vai colher os frutos dessa ousadia depois de alguns meses, às vezes alguns anos, dependendo da dimensão das transformações e da capacidade comercial da cidade onde está localizada. Isso deve sempre fazer parte do planejamento de investimentos, para que a equipe não seja cobrada antes do tempo ideal de se obter os resultados.

Mas estas coisas geralmente não acontecem.

Quando resolve desterceirizar, no entanto, o radiodifusor acredita que vai conseguir manter aquele faturamento dos terceirizados dentro da rádio, que vai ganhar dinheiro rapidamente e gastar muito pouco. Ou seja: ele não tem a menor noção do que precisa ser feito. Ele pensa em gastar pouco e ganhar muito e, o que é pior, rapidamente. Seria ótimo se fosse assim, mas é impossível.

Se tivéssemos a possibilidade de avaliar os investimentos feitos pela GLOBO com a rádio CBN veríamos que ela investiu durante muito tempo até que pudesse usufruir do projeto que idealizou. Com certeza os eventuais prejuízos iniciais faziam parte de um planejamento estratégico que é necessário em qualquer situação.

O que acaba acontecendo é que o radiodifusor vai perceber na prática que aquela aparentemente inofensiva terceirização acabou com sua emissora, destruiu o mercado publicitário viciando-o em verbas aviltadas, criou péssimos profissionais e nenhuma consciência do rádio moderno. Vai cair no mercado e receber “nãos” até que o próprio mercado perceba que aquela nova programação atraiu quem já não ouvia mais rádio e forma um novo público consumidor que será valioso para seu produto. Só então ele vai voltar ao veículo pagando valores mais justos.

Tudo isso é um processo que exige investimento, algo que não existe no vocabulário de muitos donos de rádio. Ele vai deixar de ganhar muito dinheiro no futuro porque não quer gastar algum dinheiro no presente e depois, do alto da sua incompetência vai criticar o mercado como o responsável pelo baixo faturamento de seu empreendimento, vai demitir funcionários, cortar combustível, papel, tonner da impressora, o cafezinho, o copo de plástico e outras economias de palito, característica clássica do empresário ultrapassado.

Vi novos donos de rádio desterceirizarem, como ocorreu recentemente numa grande cidade do sul da Bahia e depois praticarem as mesmas aberrações dos terceirizados, vendendo até entrevistas, cobrando para divulgar temas de interesse geral, criando dificuldades para venderem facilidades, numa prática abjeta e anti-profissional. Mais do que anti-profissional, completamente fora da ética, o mínimo que se exige para que uma rádio se credencie a ter o respeito do ouvinte.

Acho que me estendi demais. Por enquanto é isso. Vamos refletir para mostrar como se pode fazer o futuro.

Leia também: A terceirização e a decadência do Rádio no Brasil

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