Deus sabe o que faz

Publicado em: 11/11/2007

Num dos natais de minha juventude, lembro bem, sem sentido na vida (como jovens de 15, 16 anos não vêem sentido na vida?), perambulava pelas ruas de Araranguá com a idéia confusa e com uma certa revolta dentro de mim.
Por Aderbal Machado

Via outros jovens indo a boates, saindo com suas namoradas, vivendo uma vida interessante com suas famílias (o que é o conceito de “interessante” para um jovem?) e me achava um pária, um excluído, termo tão em voga hoje em dia e inexistente como jargão naquela época (1958, 59, 60). Dentro de mim reinavam dúvidas perdidas: quem serei? Quando serei? Serei?
Meus espelhos eram os irmãos Attahualpa, Aryovaldo e Agilmar, radialistas de sucesso em Criciúma, Araranguá e Tubarão. Só falava deles. Só não conseguia definir minha imagem nessas esperanças.
A pobreza material não deixava muitas opções: nossa casa nem chuveiro tinha, nem instalação sanitária, não tínhamos carro. Era uma casinha de madeira sem pintura. Fome nunca passamos, por pior que fossem os momentos proporcionados pelos minguados recursos do pai, Telésforo, advogado solicitador de excepcional competência mas já emaranhado num mercado profissional acendrado. Como nós, seus herdeiros éticos e intelectuais, o destino não lhe atribuiu nenhum tirocínio comercial. Nem a sua profissão, nem seus serviços sabia oferecer.
Essa confusão um dia se misturou ao destino do Aimberê, chegado da Marinha após três anos de serviço militar. E aí se sucederam coincidências e acontecimentos que, eu diria, predestinariam a chegada aos tempos atuais.
Como já disse noutra crônica, o Aimberê deveria ter ido trabalhar em Criciúma, na Prefeitura, por indicação do Aryovaldo. Não quis e me empurrou no seu lugar. Relutante, eu fui.
Prefeitura, Jornal de Criciúma (semanário impresso de cunho político-esquerdista, do PTB de então), Rádio Difusora (1962, na sua fundação, propriedade do Doutel de Andrade e do ex-presidente João Goulart), Serviço Militar, Carbonífera Próspera, Rádio Eldorado, TV Eldorado, RCE TV, Jaraguá do Sul, Criciúma e, finalmente, Balneário Camboriú. Uma trajetória aparentemente rápida, mas que durou 46 anos (cheguei em Criciúma em 1961).
Nesse meio, não fossem as coincidências negativas – Jaraguá do Sul para ser assessor de imprensa da Prefeitura, um bom emprego, porém nada produtivo; a volta a Criciúma, em 1996, num momento muito ruim, por baixo, pressionado pela necessidade e com todos os espaços já tomados – não teria havido minha fase atual.
Por exemplo: se, em 1970 eu não tivesse jogado tudo pra cima e saído de um contrato de cinco anos da Carbonífera Próspera para ganhar menos na Rádio Eldorado e fazer o que gostava, não estaria aqui. Seria um aposentado da indústria carbonífera.
Se, em 1982, eu não tivesse ido para Florianópolis trabalhar na cabeça-de-rede da RCE, a TV Cultura, a pedido do Dilor Freitas, então diretor-presidente, poderia ser um acomodado jornalista criciumense ou, quem sabe, como Adelor Lessa e Ayres Medeiros, dono de emissoras de rádio (eles eram meus colegas, pobres como eu, inclusive foram meus subordinados).
Se, em 1992 o Durval Vasel, então deputado estadual do PTB, não tivesse me convidado para a aventura de Jaraguá do Sul, não teria havido a frustração que me levou de volta a Criciúma.
E, se não tivesse retornado a Criciúma e me frustrado igualmente, não estaria em Balneário Camboriú. Vejam com as infelicidades se entrelaçaram para me jogar em Balneário Camboriú, onde estou há mais de 10 anos bem vividos e onde encontrei a mais completa felicidade.
Aqui nasceram meus netos Júlia, Arthur e Matheus, cidadãos natos desta terra que todos adoramos. Deus sabe o que faz.
 


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