Deve o locutor esportivo ser imparcial?

Publicado em: 19/01/2009

É isso que os ouvintes e espectadores querem? É correto se balizar pela audiência? Até que ponto razão e emoção andam de mãos dadas no jornalismo esportivo? (*)

Confesso que não sei as respostas, mas vou tentar esmiuçar a questão e lançar um debate sobre o assunto.

A maneira como se narra futebol varia muito, levando em consideração a região e o tipo de mídia. O rádio é mais visceral, a televisão referencial, o jornal analítico e a internet detalhista.

Me pergunto se o jogo de futebol teria a mesma graça se os locutores brasileiros fossem como os britânicos, em cujas narrações é difícil até mesmo perceber se um gol aconteceu, dada a fleuma referencial.

Acho o rádio esportivo sulamericano passional demais – as elucubrações são tantas que interferem na percepção da realidade, transformam um perna-de-pau num craque e caem muitas vezes no ridículo.O maior exemplo é a rádio Caracol, a Colômbia, que leva o ufanismo ao extremo. Os argentinos e uruguaios também seguem essa linha, mas nos últimos anos vêm modificando o estilo e o jogo já é palatável de se escutar.

Pindorama – E por aqui? No Brasil, observo um viés bem definido: se a cidade tem apenas um clube, as emissoras confundem paixão e emoção. Mas, considere: não há erro neste caso, pois é isso mesmo que os ouvintes esperam.

Já, quando vários clubes – muitas vezes rivais – estão envolvidos, há uma clara divisão: os paulistas, os cariocas e os gaúchos. Os primeiros optaram pela narração referencial, mas veloz e vibrante, exemplos de Oscar Ulisses, Osmar Santos (que falta que ele faz!), José Silvério e o do saudoso Fiori Giglioti.No Rio de Janeiro, os principais locutores narram os gols como se fossem torcedores do time: José Carlos Araújo (Fluminense) e Luís Penido (Botafogo).Já os gaúchos pendem para Inter e Grêmio. Nos grenais, cada gol levado às últimas consequencias (saudade do trema). Os demais estados seguem um desses três estilos.

O Jornalismo Esportivo é uma especialização que lida com alto grau de risco de imparcialidade, pois tanto jornalistas quanto leitores têm preferências por determinados times ou atletas. Por isso, o profissional da área deve tomar cuidado com a paixão ou repúdio que seu texto pode facilmente provocar no público.

O Cronista Esportivo é um jornalista especializado em narrar momentos e lances de um jogo ou competição sob a forma de crônica, um texto mais leve e literário. Os principais cronistas esportivos da história brasileira foram João Saldanha e Nelson Rodrigues. E finalizo: existiu algum jornalista esportivo mais passional que eles?

Lançada a discussão. O debate é livre.

(*) Alexandre Cabreira escfev no site http://www.radiocriciuma.com.br/portal/vernoticia.php?id=9347

3 respostas
  1. Lísias Machado Silva says:

    Não sou um ouvinte esportivo típico, todavia entendo que o locutor pode e talvez até deva demonstrar suas paixões e preferências, o que não pode é deixar de ver a verdade dos fatos. Exemplo: Fórmula 1, Galvão Bueno, Michael Schumacher. O locutor parece ter perdido completamente a objetividade, a ponto de não se poder mais acreditar na verdade de suas narrações, sempre sujeitas a confirmações por outras fontes. E não por desonestidade, apenas por paixão. E quem foge da realidade numa área, provavelmente fugirá também em outras.

  2. J.B.Telles says:

    Bem…
    Acho que posso falar sobre o assunto…A imparcialidade é uma exigência ética. Em tempos passados grandes locutores (não estamos falando de cronistas)foram imparciais: Em São Paulo tivemos os fantásticos Fiori Giglioti,Joseval Peixoto, Pedro Luís, Edson Leite e Haroldo Fernandes; no Rio, não podemos esquecer de Doalcei Bueno de Camargo e de Jorge Cúri; no Rio Grande do Sul, Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antônio Ranzolin; no Paraná, Willy Gonzer (também passou pelo Rio Grande do Sul) e Lombardi Júnior e em Santa Catarina, Pedro Lopes e Ney Boto Guimarães. Todos tinham seus clubes, mas não se identificavam pelas narrações. Hoje temos em Santa Catarina um bom exemplo: Paulo Branchi (Guarujá) cuja narração não fica devemos nada aos melhores locutores do Brasil, mas não se identifica. Diferente do carioca Ary Barroso, por exemplo, cuja paixão pelo Flamengo superava sua responsabilidade profissional. Mas com o advento da televisão e do rádio à pilha, que for parcial tende a ter sua audiência reduzida á torcida do seu próprio clube. Como acontece por aqui com algumas figuras passionais.

  3. PAULO BRANCHI says:

    Caros,

    Um elogio vindo de mestres do assunto sempre tem mais valor, obrigado ao J.B TELLES e ao ANTUNES SEVERO, pela citação.
    IMPARCIAL, talvez não seja o termo adequado para definir um profissional, considerando que ninguém consegue desligar totalmente suas emoções em qualquer atividade e, ao mesmo tempo, sofre a influência de sua experiência de vida e do conhecimento adquirido, na escola ou fora dela, ao falar ou escrever sobre determinado assunto.
    Parece mais adequado considerar a capacidade de distanciamento dos fatos,de racionalização das interpretações e até uma certa sublimação de tudo. É isso que procuro fazer.
    IMPARCIAL, levando ao extremo o que o termo significa, ninguén consegue ser, mas todo esforço é válido.
    Agora, quem escolhe o caminho mais curto e mais fácil da paixão e da identificação clubística,politica, economica, etc..paga o preço de ser respeitado apenas por uma das partes.
    Mas,como uma empresa de comunicação deve formar equipes identificadas com os segmentos sociais onde está inserida,(IDEAL),há espaço para todos e daí pode sair o equilíbrio necessário da atividade jornalística.
    Considero também que locutor esportivo não é diferente de qualquer outro profissional. Ou alguém acha que algum profissional da RBS é IMPARCIAL ao falar do Planeta Atlândida ou alguém da Globo é IMPARCIAL ao fazer matérias sobre a igreja Universal?
    Muitas vezes, a imparcialidade é definida pela paixão de quem ouve, o que é comum no futebol, do que propriamente pelo posiconamento do profisional.
    IMPARCIALIDADE é um conceito que está longe do consenso.

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *