Diário da Manhã: o novo endereço dos radiodramas

Publicado em: 28/09/2005

Se a pioneira Guarujá  passava por momentos melancólicos tanto na ficção como na vida real, a Rádio Diário da Manhã (RDM) vivia tempos de glamour. Naquele prefixo eram transmitidos programas de auditório, esportivo, noticioso e as tradicionais novelas.
Por Ricardo Medeiros

Os dramas seriados eram patrocinados tanto por empresas locais – a exemplo de A Modelar e a Casa Clau-, como por estabelecimentos estaduais – representados pela Drogaria e Farmácia Catarinense e Móveis Cimo-, e nacionais , tendo como apoiadores dos folhetins eletrônicos Samrig, Lojas Columbus e a Metalúrgica Venax, entre outros. Contudo, os parceiros da RDM de porte multinacional , como a Singer, Gessy Lever (do grupo Unilever), a Colgate Palmolive e The Sydney Ross (do grupo Sterling Drugs), iriam se transformar nos maiores anunciantes da estação. Pelas ondas dessa emissora eles ofereciam ao público-ouvinte máquina de costura, talco, sabonete, sabão em pó, creme dental, laxante e analgésico, além de outros produtos de limpeza, toalete, beleza e de medicamentos.

A primeira empresa internacional que se teve registro na Diário da Manhã foi a Singer, que no final da década de 1950 já enviava textos para a emissora de Florianópolis para serem interpretados pelo elenco local de radiatores. Em seguida foi a vez de Gessy Lever, Colgate Palmolive e Sydney Ross apoiarem financeiramente as séries radiofônicas da capital de Santa Catarina, enviando para a RDM não os textos como fazia a Singer, porém as novelas já gravadas em disco de acetato para serem apenas retransmitidas pela estação.

Para convencer as empresas estrangeiras de que o quadro de artistas da RDM era de qualidade e que as novelas que vinham gravadas poderiam ser interpretadas pelo cast local, a emissora traçou um plano que funcionou inicialmente junto à Colgate-Palmolive. A Diário endereçou ao patrocinador um material gravado do capítulo de um certo folhetim. O plano deu certo . A partir daquele momento, o patrocinador passou a enviar para a emissora de Florianópois apenas os textos que seriam encenados pelo elenco da RDM. O mesmo plano fez efeito com as demais empresas estrangeiras que optaram também por mandar para a estação da capital apenas os scripts, reconhecendo o talento do quadro formado na cidade.

Desta maneira, definitivamente, tais empresas, aliadas ao meio de comunicação de massa, representado pela Diário da Manhã, promoveram uma verdadeira enxurrada de produtos no seio da sociedade de Florianópolis. Os produtos invadiam o cotidiano das pessoas « (…) derramando no lar, no trabalho e na família, uma série de mercadorias culturais e, sobretudo, vendendo no varejo – e no atacado – os ectoplasmas da humanidade, os amores e os medos romanceados e os fatos variados do coração e da alma ».  Era hora de anunciar nos três intervalos de novelas que : « (…) Talco Palmolive é feito para toda família. Talco Palmolive dá mais frescor. Mais perfume(…) ».

Com a maioria dos artistas já cohecidos do público, a estação compôs o seu quadro de intérpretes de novelas com Gustavo Neves Filho (ator e autor de folhetins), Cacilda Nocetti, Janine Lúcia, Alda Jacintho, Helena Martins, Maria Tereza Rosa, Osmarina Magalhães, Neide Mariarrosa, Néli Silva, Nívea Nunes, Cora Nunes, Waldir Brazil, José Valério Rosa, Humberto Mendonça, Rozendo Lima, Félix Kleis, Iran Nunes, Edgar Bonassis, Fenelon Damiani, além de Augusto Melo (sonoplasta), Zininho (ator e sonoplasta) e Manoel Bruno (contra-regra). Com essa equipe a RDM passou a veicular novelas de manhã, à tarde e à noite, nos horários das 10h20, 10h45, 15h, 16h30 e 20h05.

O polivalente Gustavo Neves Filho , que dentre outras atividades no rádio era escritor e ator, colocou no ar pelas ondas da Diário O Direito de Amar, uma história seriada que abordava a questão racial. No drama um jovem contabilista, negro, começou a namorar a filha do patrão, que era branca. Um dia, ele tomou coragem e foi falar com o chefe sobre a amada, pois queria pedi-la em casamento. Sobre a possível união entre os dois jovens, o patrão de forma enfática perguntou ao rapaz : « você acha que eu daria a mão da minha filha a um negro ? ». Depois desse impasse, o casal conseguiu se unir, prevalecendo a democracia racial, mesmo numa Florianópolis repleta de preconceitos.

Gustavo Neves Filho admite que decidiu evocar esse tema justamente porque na cidade, na década de 1960, reinava um certo apartheid que começava pelos clubes, onde o Doze de Agosto, por exemplo, não aceitava a presença de negros em seus salões : « Era uma vergonha essa atitude e tinha que ser combatida. A novela foi uma das formas que eu achei para criar uma harmonia entre negros e brancos ».


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