Ditaduras de esquerda ou ditaduras de direita?

Publicado em: 26/03/2014

Estou convencido: a gente apreende pouco na vida porque incorporamos viseiras com estonteante naturalidade. Eu, por exemplo, levei um tempão para compreender que as ditaduras são todas iguais. O viés ideológico, em regra por ignorância, inventa que uma ditadura pode ser diferente da outra: pura e total bobagem. No momento em que marcamos 50 anos do golpe militar de 1964 creio importante refletir sobre isso.

Anote ai, de esquerda, de direita, de centro, nada disso importa, ditadura é fogo. Todas as tiranias tem um procedimento padrão, uma receita universal. Todas prendem, torturam, matam, humilham, fuzilam a liberdade, esmagam vontades. O objetivo de qualquer ditadura é reduzir o ser humano a um zero à esquerda. O sonho de qualquer tirano – de esquerda, de direita, de centro – é fazer com que o medo quebre a espinha dorsal da pessoa para transformá-la num ente dócil à sua vontade. Em outras palavras, as ditaduras fazem de nós um nada. Elas produzem o nada, Sartre à parte!
Precisamos nos convencer, de uma vez por todas, que ditatura é ditadura, ponto final. Não importa se matou 424 pessoas como a brasileira, de direita, ou 30 mil como a argentina, de direita, se fuzilou 17 mil sem julgamento como a cubana, de esquerda, se dizimou 25 milhões de pessoas como a da Rússia, também de esquerda, ou se matou 2 milhões como a do Camboja, de esquerda ou matou 9.800 como a chilena, de direita.

Não creio ser exercício pedagógico ficar computando quais as ditaduras – se de esquerda ou de direita, se as apoiadas pelos Estados Unidos ou pela Rússia – mataram mais, torturaram mais, prenderam mais, humilharam mais. Nós, brasileiros, precisamos deixar de ser tolos (a expressão “babacas” é forte demais?) e não tolerar que nossa vontade tenha que estar subordinada à vontade de qualquer potência ou governo tirano.

Falei isso a propósito dessa maluca tentativa, no final de semana, de mobilizar o povo para pedir a volta da ditadura. É algo totalmente absurdo, mas, se deixarmos de ser hipócritas, veremos que, também, é totalmente compreensível dentro da esdrúxula realidade brasileira. Quando o cidadão ouve uma autoridade brasileira (inclusive ligada aos direitos humanos) defender cinicamente a ditadura cubana, de esquerda, ele, bisonhamente, acredita que a resposta a tal absurdo é reivindicar ditadura de direita.

Mais, quando se vê pessoas, inclusive professores tidos como doutos, justificar os crimes de Lênin/Stálin na Rússia, os crimes de Fidel em Cuba, os crimes de Mao Tse Tung na China, a gente começa ver, também, infelizmente, pessoas querendo justificar os crimes dos generais brasileiros e argentinos, os crimes de Pinochet e, inclusive, os crimes do nazismo. Em nome da liberdade, em nome da democracia, não podemos entrar nessa polêmica esquizofrênica.

Outra coisa, se você ouve um cidadão defender a Comissão da Verdade para apurar o que ocorreu na ditadura brasileira – algo oportuno e necessário – e ao mesmo tempo ouve ele defender a tirania cubana, desconfie de seus propósitos.

Finalizo: o mundo colocará ponto final na sua história de violência quando todos (inclusive intelectuais) tratarem com idêntica veemência e ojeriza os crimes das ditaduras de esquerda e de direita. A final, por que crucificar apenas um lado do terror?

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