Divagando sobre escravos & a Comissão da Verdade

Publicado em: 29/05/2013

Na infância, em Palmeira das Missões, Barra Funda e Sarandi ouvia-se amiúde: a verdade dói. Adulto conclui, com amargura, que dói muito. Alguém com ascendência diz algo, a gente acredita e sai a defender; como fazer, depois, quando outro alguém, com ascendência até maior, contesta a crença?

Ah, como dói mudar, aceitar que aquela verdade que defendíamos com radicalidade não é mais verdade. Como dói quando a verdade não é a moeda com dois lados e, sim, polígono mistilíneo.

Nossa vivência se resume, começo a me convencer, em procurar a verdade que, para perplexidade, muda como cameleão na justa proporção que a vida cresce feito pão no forno. A verdade é processo sem fim, a cada nova informação vai se tornando outra verdade.

E sempre ficará diferente na medida em que a honestidade de propósitos move a pessoa interessada em sabê-la. Então, que não olvidemos do contexto e circunstâncias que produzem certas verdades para poder entendê-la no seu desdobramento seguinte.

“É melhor ser escravo no Brasil e salvar sua alma do que viver livre na África e perdê-la” dizia em sermão do Padre Antônio Vieira aos escravos. Qual a dimensão que assume tal afirmação na mente do cristão (negro ou branco) que tem Padre Vieira em alta conta? É verdade de que contexto? E como definir quem a acatou?

No Mississipi, Estados Unidos, onde a luta contra a segregação racial produziu sofrimento ímpar o cristão devoto (branco ou preto), aquele que mereceria o paraíso no juízo final, citava Gênesis 9:27 para justificar sua postura segregacionista: Que Deus faça Jafé prosperar, que ele more nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo. É verdade de que contexto? E seus seguidores, como defini-los?

Na internet encontrei frase do Senador Charles Davidson, do Alabama, USA, provando que a Bíblia defende a escravidão: “Pessoas que rejeitam a escravidão, disse ele, obviamente rejeitam Deus e sua palavra, porque rejeitam o que Deus diz e preferem escutar o que dizem simples humanos sobre a escravidão. Este pensamento humanístico era típico dos abolicionistas.” Que verdade é esta verdade?

Divagamos por tais citações para chegar à nossa Comissão da Verdade que se debruça sobre duas ditaduras, a de Getúlio Vargas e a dos militares de 1964 (eu estava lá, infelizmente). Afinal, que verdade estamos buscando agora? Quem busca? Quem consegue responder de modo que a resposta possa ter alguma serventia para a Nação?

Veja Getúlio, o ditador virou Pai dos Pobres, homem reverenciado com direito a foto em locais nobres em não poucos lares do Brasil. Insisto nisso para que possamos tirar lição do fato esdrúxulo. Trata-se de verdade criada em que contexto e como definir a multidão que ainda segue o ditador que prendeu, torturou e matou?

A Comissão da Verdade cumpriria papel de relevo se metesse em nossas cabeças que não devemos repetir o erro e cair na tentação de achar que ditadura é solução. Digo isso porque fazemos questão de esconder que o golpe 64 (qual justificativa dele?) teve apoio popular e hoje em fruteiras e salas de aulas de academias há quem defenda a volta do arbítrio – de matiz diferente, óbvio, dependendo de onde é proposto. Sim, a ditadura matou, prendeu e torturou e se pegarmos um torturador isso nos redimirá do quê?

Após 50 anos deveríamos nos despir do preconceito e clarear que verdades os envolvidos na tragédia de 1964 assumiram naquele contexto (que fizemos do distanciamento critico?). Isso é primordial, mas não o faremos, pois permanecemos imaturos e divididos entre anjos e demônios e os fatos andam de tal jeito que corremos o risco de tornar heróis algum torturadores da época. Exagero? Abram os ouvidos!

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