Dividido entre dois mundos

Publicado em: 23/04/2009

O mundo virtual já chegou à aldeia Tenondé Porã (conhecida como Morro da Saudade ou Barragem), que fica em Parelheiros, divisa entre São Bernardo e São Paulo. Por Bruna Gonçalves 

Lá muitos curumins navegam na internet, visitando sites de relacionamento, com a mesma habilidade com que desenvolvem atividades típicas do seu povo, como ouvir as histórias contadas pelo cacique da tribo na Casa de Reza.

Os 12 computadores instalados no Centro de Educação e Cultura Indígena são disputados pelos alunos da EE Guarani Gwyra Pepó, que aprendem o guarani e o português. Douglas Veríssimo, nove anos, curte conversar com os curumins de outras aldeias. “Tenho 90 amigos índios no Orkut, além dos que tenho no MSN. Converso com bastante gente, mas tudo em português.” Outro passatempo do menino é assistir ao desenho Ben 10. “Adoro porque ele se transforma em vários alienígenas. Tenho o relógio dele.”

Na aldeia vivem 1.000 índios, dos quais 200 são crianças, que adoram subir em árvores e aproveitar a tranquilidade do lugar rodeado de vegetação, uma das poucas características que fazem lembrar uma aldeia. Não há ocas, apenas uma grande construção de pau a pique (barro e madeira) coberta por sapé (tipo de palha), onde funciona a Casa de Reza.

Os índios moram em casas de alvenaria espalhadas em um terreno gigante. Em algumas, há televisão, rádio e até celular. Na aldeia também tem orelhão e UBS (Unidade Básica de Saúde).

O vice-cacique Paulo Sérgio da Silva, 23 anos, explica que não é mais possível viver só com a tradição indígena. “Hoje convivemos com a cultura da cidade grande. A tecnologia fala mais alto até para nós.”

As meninas curtem novelas. Surma Benites, 12 anos, não perde um capítulo de Caminho das Índias. “Gosto da personagem Maya. Acho lindas as roupas que ela veste. Como adoro maquiagem, fico vendo o que elas usam”, diz.

O piso de terra batida é ideal para as partidas de futebol. “Gosto de assistir aos jogos na TV, principalmente quando é do meu time, o São Paulo”, conta Maércio Vidal, 10 anos. (Supervisão Teresa Monteiro)
Consultoria das antropólogas Malu Brant, da Funai, e Lucia Helena Ragenal, da PUC

As irmãs Emily Souza,oito anos, e Laíssa, seis, moram em Mauá, mas adoram saber o que se passa na aldeia Pankará, em Floresta, Pernambuco, onde nasceu e viveu até 11 anos atrás a mãe Shirley Santos, 34.

Nas horas de folga, as meninas se dividem entre as brincadeiras nos sites de jogos e a programação da TV com as histórias dos seus antepassados. “É importante saber sobre nossa cultura”, diz Laíssa.

Na escola, elas não escondem a origem de ninguém. “Meus colegas perguntam bastante e gostam de ter uma amiga índia. A professora já deu até um trabalho sobre a minha cultura”, afirma Emily.

As irmãs já visitaram a família que vive na aldeia pernambucana e curtiram muito a natureza. A mãe Shirley admite que as raízes estão se perdendo. “Os índios pegam os costumes dos outros. Em casa, tento manter a tradição na culinária, com cuscus, milho, mandioca e carne de bode.”

Hoje é comum os índios usarem a internet como um meio de divulgar informações e se relacionar com outros grupos. Há várias comunidades no Orkut sobre esse povo.

A Aldeia Tenondé Porã, por exemplo, mantém uma comunidade com mais de 180 integrantes entre índios e não índios. O objetivo é ensinar sobre a cultura indígena, discutir a situação desse povo, explicar o significado de algumas palavras de origem guarani e até agendar visitas na aldeia.

Quer saber mais? Procure no Orkut por Aldeia Tenondé Porã.

Mesmo com a tecnologia, muitas tradições ainda são mantidas na aldeia, como a preservação da língua guarani, usada para se comunicar entre eles, a culinária, com o consumo de batata doce, milho e mandioca, e as festas tradicionais, como a entrada do ano guarani, em agosto.

Todas as noites se reúnem para praticar as danças típicas, como o xondaro e a tangará, para manter o corpo, a mente e o espírito em harmonia. Os curumins também fazem seus brinquedos, como a peteca, produzida com a palha de milho. Aprendem a fazer artesanato, que se transformou na principal fonte de renda dos que vivem próximos aos centros urbanos.

A religião também é mantida. Os guaranis rezam todas as tardes na Casa de Reza para agradecer ao Tupã, o deus da chuva, e aprendem sobre sua cultura. “É legal porque ficamos sabendo de coisas que nem imaginávamos”, diz Carina Gonçalves, 11.

Calcula-se que, quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui, o Brasil tinha entre um milhão e cinco milhões de índios. Hoje, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio), há 730 mil brasileiros que se declararam indígenas no último censo realizado pelo IBGE em 2000 e mais da metade vive em centros urbanos. Eles estão distribuídos em 220 povos, que falam 180 idiomas.

A maioria, 60%, está concentrada na área chamada Amazônia Legal, que reúne Amapá, Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Pará e Tocantins. Os 40% restantes estão distribuídos pelos demais Estados. São Paulo abriga 32 aldeias, com cerca de 60 mil indígenas. No Grande ABC, eles são 3.800, dos quais a maior parte vive em Mauá.

Saiba mais – Dezenove de abril é o Dia do Índio porque foi nessa data, em 1940, que aconteceu o 1º Congresso Indigenista Interamericano, em Patzcuaro, no México. Representantes de vários países da América participaram do evento. O objetivo era estabelecer uma data, entre os países americanos, para debater os assuntos ligados a esse povo. No Brasil a data foi oficializada em 1943.

Há índios espalhados por vários cantos do planeta. Os que vivem no continente americano são chamados de ameríndios. Os que habitam o Canadá e o Ártico são conhecidos como aborígenes. Na Austrália também recebem esse nome. Todos pertencem às populações que ocupavam as áreas nativas antes da colonização iniciada com as navegações européias nos séculos 16 e 17.

Diarinho | Diário do Grande ABC

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