Do cata-vento ao rádio digital – 03

Publicado em: 21/10/2007

Os dias passam, as novidades viram rotina e o tempo vai colocando as coisas nos seus lugares. A ansiedade dos primeiros acontecimentos cede lugar a uma inevitável acomodação.

O cata-vento, os fios e a bateria cedem lugar ao rádio com suas vozes e músicas ainda misteriosas, mas bem menos intrigantes. A insônia, os sonhos e as incertezas vão ficando cada vez mais distantes na memória do menino. Também, dois anos já haviam se passado. A vida dera voltas impensadas e aos quatorze anos o menino precisava cuidar da sua subsistência. Permanece durante dois anos na Capela aonde trabalha como lenhador e ganha seu primeiro dinheiro. Mas, não está satisfeito e muito menos feliz. Em conversa com a mãe descobre que em Rosário, a cidade sede do município reside um seu primo por parte de pai que é médico-chefe do SANDU (hoje SUS) e que, portanto, poderia ajudá-lo.

Sem pensar duas vezes, resolve enfrentar o desafio. É época de colheita da safra de arroz e toda a semana segue uma carreta levando a carga para o engenho de beneficiamento que depois entrega o arroz descascado, limpo e ensacado ao comércio varejista. Com praticamente a roupa do corpo, depois de dois dias e meio de viagem para cobrir os 30 quilômetros que separam a vila da Capela a cidade de Rosário do Sul, o menino conhece sua nova família: o primo, a mulher dele e as duas filhas na faixa dos oito e dez anos.

A família reside num sobrado de dois andares a uma quadra da Praça Borges de Medeiro. Na praça se localizam a igreja Matriz, a Prefeitura, o Teatro, o Café Marchezan, o primeiro e mais antigo hotel da cidade e o serviço de alto falante Som Azul Estúdio. Rosário do Sul, cidade de quatro mil habitantes em 1948, concentra nas ruas em torno da praça o melhor do seu comércio, os clubes, os cafés e o footing no final do dia, principalmente as quartas, sábados e domingos.

Deslocado e xucro, na verdade ignorante, rude e bronco, o menino – naquela fase da adolescência quando tudo parece possível e ao mesmo tempo nada parece acontecer – começa a dar os primeiros passos em busca de algo que nem ele sabe bem o que pode ser. Apenas pressente que o seu futuro está de alguma forma ligado ao som que vem das cornetas penduradas nos postes daquela praça.

 

Nas caminhadas pela praça observa que alguns rapazes de sua idade se encontram e permanecem horas sentados ouvindo as músicas que vem dos alto-falantes enquanto outros jovens – rapazes e garotas – desfilam de um lado para o outro envolvidos em alegres conversas e risadas.

 

Em poucas semanas é parte integrante de uma daquelas turminhas onde desponta um rapaz, mais velho do que todos os outros e que lidera os colegas com naturalidade e agrado de todos. Fala com facilidade e sem afetação citando os títulos das músicas que estão tocando, cita o nome de autores, cantores e acompanhantes – e o que mais impressiona –, fala com a mesma facilidade mesmo quando se trata de músicas cantadas em castelhano (espanhol) ou inglês.

 

Na próxima semana: os mistérios se transformam em ferramenta de trabalho.


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