Do cata-vento ao rádio digital – 04

Publicado em: 29/10/2007

O convívio com a turminha da praça era algo mágico, no mínimo um mundo novo. O menino, agora garoto adolescente, se sentia fascinado e ao mesmo tempo confuso – alegre e ao mesmo tempo inquieto – com os pensamentos que passavam pela sua cabeça. Alguma coisa está para acontecer, imaginava.
Os pensamentos, por mais força que fizesse, não eram muito claros e a realidade parecia brincar de esconde-esconde com a sua vontade de entender o que estava se passando. Tudo ficou ainda mais fantástico quando o rapaz mais velho da turma, que agora sabia se chamar Adão Feldmann, comunicou para o pessoal.

– O filho do meu patrão disse que nós podemos ouvir música clássica no sábado de tarde lá na casa dele. Quem quer ir?

Metade da turma, uns quatro se candidataram. O garoto respondera sem pensar. Depois veio o arrependimento, o medo e a insegurança. Se nem sabia o que era música clássica, o que é que ia fazer lá?

No dia seguinte o tema da conversa na praça era música clássica. E por conta do desconhecimento da maioria, o tema virou verdadeira aula ministrada pelo Adão Feldmann, o líder da rapaziada. Adão começou por mostrar como o som do serviço de alto falantes chegava até eles, ali no banco da praça onde estavam sentados.

Explicou que as músicas eram gravadas em discos, que os discos eram colocados em pratos que os pratos rodavam com uma agulha de metal em cima que captava o som que estava gravado no disco e que desse processo mecânico, uma cápsula que tinha no braço do toca-discos, transformava as vibrações em impulsos elétricos e que blá, blá, blá… Que então vinham por aqueles fios – olha ali, mostrando no poste – e que chegam ao alto falante onde tem uma bobina naquela parte mais fina atrás dele que reconverte aquelas vibrações elétricas em impulsos mecânicos que em contato com o ar, reproduzem a voz e os sons das músicas que chegam aos nossos ouvidos.

A aula do companheiro foi um verdadeiro fiasco, pois os alunos eram broncos demais para captar a riqueza do ensinamento. Todo o mundo saiu boiando, mas coisa curiosa, o interesse pela audição dos clássicos na casa da família Bronfmann ganhou em interesse e curiosidade.

A família Bronfmann, proprietária da Casa Rosário, onde Adão trabalhava como balconista, era bem no centro, a meia quadra da praça onde a turma se reunia. Sábado, duas da tarde estão os quatro alunos, esperando o mestre para a visita. Adão chega e sem nenhuma recomendação prévia se encaminha para a residência do senhor Simão Bronfmann.

Chegam, batem palmas, a porta se abre e os visitantes sobem um lance de escadas de pura madeira de lei. A sala, aos olhos dos rapazes parecia imensa e muito bem mobiliada. Mesa com oito cadeiras, sofás e poltronas, uma cristaleira com peças branquinhas e transparentes que chegavam a brilhar com a claridade que entrava pelas janelas.

Ao meio de uma das paredes, uma espécie de baú quadrado de mais ou menos um metro e meio de frente, por um metro de altura se destacava pela beleza dos contornos e pelos detalhes em pano, couro e metais que formavam desenhos nunca antes imaginados pelos visitantes. Era a vitrola, ou melhor, uma moderna radiola importada que ao ser aberta mostrava umas luzes suaves numa cor verde-azulada que lhe dava um tom de amigável mistério.

O silêncio foi quebrado pelo filho do dono da casa que deu as boas vindas com um rápido alô, mandou o pessoal sentar e foi informando – olha, eu e o Adão escolhemos umas peças mais populares de alguns autores famosos para vocês terem uma idéia do que seja música clássica.

Em seguida pegou um enorme disco preto, com um selo vermelho no meio, colocou no prato para rodar e a sala se encheu de música.

Olhos arregalados, respiração suspensa, quase sem acreditar, os meninos ouviam os primeiros acordes de Capricho Italiano Op. 45 de Tchaikowsky, com execução da Nova Orquestra Sinfônica de Londres, sob a regência de Alexander Gibson.

O menino de Itapevi que um dia se maravilhou com o rádio alimentado pelo cata-vento na casa da Capela, agora tinha certeza que descobrira o caminho para os instrumentos que formariam a sua ferramenta de trabalho.

Na próxima semana: os novos caminhos.
 


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