Do cata-vento ao rádio digital 08

Publicado em: 02/12/2007

O fluxo da vida explode numa escalada que parece vir de uma represa nunca antes imaginada. A saída do analfabetismo total para a posição em que se abrem tantas oportunidades acontece tão rápido como num sonho. Tudo está mudado. O caminho, a carreira, o futuro.

Teria o ingênuo menino de Itapevi percebido? Dificilmente, é a resposta mais provável. Sair da sombra projetada na parede da caverna para um olhar direto da claridade é mais provável que ofusque do que facilite a visão plena. O que teria influído para mudar os passos do infante vencedor? Afinal, seu novo caminho estava traçado e bem demarcado: a carreira militar era o seu rumo agora.

E os sonhos acalentados em tempos tão recentes? O cata-vento? O rádio? O serviço de alto-falantes? A rádio Marajá? Os concertos na casa dos Bronfmann e no Clube Comercial? A poesia de Castro Alves que lhe empolgara tanto? Onde ficara tudo isso?
Carreira militar e carreira de radialista serão possíveis juntas? A pergunta vem e logo some abafada pelo resfolegar da locomotiva que chega naquele instante na estação ferroviária. É o trem que o levará para o desconhecido onde poderá estar o seu futuro, a sua segurança, e felicidade de dona Lahir e dele, por conseqüência.

A distância que separa a pampeana gaúcha Rosário do Sul da suave Três Corações no Sul de Minas Gerais é um desafio difícil de imaginar. A única coisa que o jovem cabo do exército sabe é que serão três dias e três noites de viagem de trem por desconhecidas planícies, rios, montes e canhadas.

O pesado comboio, rangendo as ferragens mal cuidadas e gastas pelo uso deixa a estação de Rosário ainda cedinho, perto das sete horas.

Pouco depois das oito da manhã o trem misto, com vagões de carga e de passageiros, chega à pequenina estação de São Simão, onde faceira e emocionada lhe espera a mãe, dona Lahir abraçada em duas sacolas feitas por ela mesma. Era o “enxoval” que prometera ao filho quando aprovado nos testes para fazer a ESA – Escola de Sargentos das Armas, um privilégio para 500 brasileiros a cada início de ano.

A emoção do presente imprevisto e tão terno apagou de imediato as dúvidas que ainda teimavam em rondar o coração do menino que um dia havia entregado o seu coração ao rádio.

Meio dia. Desta vez o tempo de parada na estação é bem maior, afinal o trem está na gare de Santa Maria da Boca do Monte, o maior entroncamento rodo-ferroviário do sul do país. O serviço de alto-falantes dá avisos de orientação aos passageiros, faz propaganda e toca as músicas mais populares enquanto o menino do Itapevi revive como num sonho as imagens e os sons do rádio alimentado pela energia do cata-vento.
De repente, pára e se vê na casa da Capela ouvindo aquela música:

“Uno, busca lleno de esperanzas
el camino que los sueños
prometieron a sus ansias…
Sabe que la lucha es cruel
y es mucha, pero lucha y se desangra
por la fe que lo empecina…
:: Uno, tango de Mariano Mores e Enrique Santos Discepolo. Canta Edmundo Rivero com a orquestra de Héctor Stamponi.
Na próxima semana: Três Corações é a ESA e a Vitamina do seu Antoninho da Nazaré.
 


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