Do cata-vento ao rádio digital 26

Publicado em: 19/04/2008

A nossa chegada a Florianópolis dá-se num momento de perturbador contraste. De um lado a pequena cidade ainda entregue as tradições mais simples da vida urbana e do outro a pulsação vibrante provocada por duas novas emissoras de rádio.
Tudo girando em torno de uma praça, com três nomes, mas na prática uma só rodeada pelos marcos máximos do poder da civilização: a Catedral, o Palácio do Governo, os Correios, a Prefeitura Municipal, a Câmara de Vereadores, o trapiche Miramar, o hotel, a farmácia, a livraria, o restaurante e a barbearia.

Tudo emoldurando as três praças: Jardim Oliveira Belo, XV e Fernando Machado, que na prática formam a Praça XV de Novembro, com os seus mausoléus em homenagem aos heróis mortos na guerra contra o Paraguai, o coreto com suas arquibancadas encardidas por falta de uso, o busto do poeta Cruz e Sousa, lá escrito com Z, ainda até hoje. Praça XV da Floricultura coberta pelas trepadeiras de uma ramada de fazer inveja aos deuses do Olimpo; as centenárias figueiras, os ciprestes esvoaçantes projetados em direção ao céu como se lá fosse sua morada; as palmeiras imensas parecendo um caminho sem fim, e pinheiros frondosos assemelhados a caramanchões pelo porte e pela sombra que projetam.

E em torno dessa exuberância promovida pela natureza, estão as marcas do tempo: o ponto de automóveis de aluguel, o serviço de alto-falantes da primeira rádio da cidade acionado para retransmitir os noticiários, os programas esportivos e a Hora da Ave Maria; o ponto de ônibus, com saídas de hora em hora da frente do Miramar com destino aos bairros mais distantes e fazendo o primeiro circular da história em circuito completo de “volta ao morro”, então chamado da Cruz e depois da Televisão, empalitado que está pelas torres burras que se repetem uma ao lado da outra, quando todas poderiam estar num só pedestal para bem cumprir o seu papel de espargir os sinais de rádio e televisão da cidade.

E finalmente, o traço marcante da tradição e do apego ao simples que faz desta terra um dos mais doces e harmoniosos locais para se viver. Ah! Passear nos carrinhos de cavalos. Chegar, olhar para aquelas pequenas formas de transporte, dirigir-se ao cocheiro e dizer: quanto custa para me levar até a Avenida Mauro Ramos, um pouquinho antes do Tiro Alemão? E então, sentar-se no banco traseiro, olhar para os lados para certificar-se de que estava sendo visto e então ordenar ao cocheiro: vamos!

Enquanto isso, no outro dia, era dia de batente. Era dia de sacudir o pó da cidade com a força do cata-vento que fazia girar os ponteiros do dial em direção dos números da freqüência de nossa rádio.


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