Do cata-vento ao rádio digital 27

Publicado em: 27/04/2008

A nossa rádio. De fato, a sensação de pertencimento era um dos pontos marcantes do nosso relacionamento com a atividade profissional. Nós nos pertencíamos: a rádio era nossa e nós éramos da rádio.
Em 1956 três emissoras disputavam os ouvintes de Florianópolis e região: Guarujá, instalada em 1943, Diário da Manhã inaugurada em janeiro de 1955 e Anita Garibaldi que desde maio (do mesmo ano) quando foi licenciada beliscava a audiência com sua atitude agressiva e irreverente.

A Guarujá que reinou sozinha durante 12 anos mantinha-se com o básico do rádio de então: seqüências musicais de estúdio, radioteatro, programas de auditório, entrevistas e reportagens esportivas e noticiário a base de rádio-escuta das emissoras do Rio e São Paulo e o tradicional “gilete-press” recortado dos jornais do dia. O noticiário local cuidava dos interesses do PSD, o Partido Social Democrático do Doutor Aderbal e algumas frugalidades do cotidiano da cidade.

A mesma política era observada pela Diário da Manhã, também pertencente a um líder político, Irineu Bornhausen então governador do Estado pela UDN, União Democrática Nacional. As duas emissoras, ao seu modo e estilo, mantinham-se num patamar de conservadorismo característico das lideranças tradicionais, desde os primórdios do Brasil Império.

Por seu turno, a Rádio Anita Garibaldi, a Anitinha como era chamada, deitava e rolava irreverente e desbocada chocando e deliciando o ilhéu não acostumado com esse tipo de ousadia. Do ponto de vista estrutural a emissora do médico JJ Barreto, seguia o padrão, apenas sem apresentar radionovelas, mas fazendo radiofonizações de temas populares como crônicas, letras de música e acontecimentos policiais.

Por seu turno, os jornais também atrelados a partidos políticos refletiam o estado bucólico de uma cidade pequena, pacata e acanhada. Além de marcada por slogans nada lisonjeiros: “terra do já teve”, “terra de funcionário público, onde ninguém trabalha e “terra da ponte que ligada nada à coisa nenhuma”.

O jornalismo da imprensa escrita local bem refletia esse estado de coisas, como registra Moacir Pereira no livro Adolfo Zigelli, Jornalista de Vanguarda: “Está aniversariando hoje, para gáudio de todos nós, o belo menino José Inácio, filho do estimado confrade Epaminondas da Silveira. Para marcar a significativa efeméride, seus pais recebem os amigos, quando oferecerão uma lauta mesa de doces e guaranás”.

Se a produção jornalística era antiquada, morna e insossa, os “jornalistas” não dormiam no ponto. Em 1956 o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina contava com 280 inscritos, tendo entre seus pares prósperos comerciantes, intelectuais da direita conservadora, destacando-se entre estes o arcebispo metropolitano de Florianópolis.

Jovens, descomprometidos, alheios aos valores empedernidos do status quo e animados pela ânsia de fazer algo de novo na rádio que adotáramos como nossa, o que poderia acontecer? Seriamos engolidos pela morna realidade presente em todas as manifestações das diferentes lideranças locais? Seriamos varridos como erva ruim dos campos verdejantes e jogados na vala comum dos derrotados ou sobreviveríamos?

É o que veremos a partir da próxima semana.


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