Do galho ao controle remoto

Publicado em: 14/08/2013

Ocorreu-me, caro leitor, que a trajetória de nosso processo civilizatório pode ser resumida assim: do galho ao controle remoto.

Momento marcante em nossa saga evolutiva, desde os hominídios aos homo sapiens de hoje, foi, sem dúvida, quando o polegar preênsil permitiu pegar um galho caido na savana e fez dele uma extensão do braço: estava criado o primeiro instrumento. Isso e a conquista do fogo significaram um passo gigantesco no processo da evolução da espécie humana.

Conhecemos as fases: desse instrumento rudimentar se originaram os artefatos, as máquinas, as máquinas fabricadoras de máquinas… Hoje, os robôs nos servem, enquanto seus olhos-de-câmera parecem nos lançar um olhar entre maroto e ameaçador, talvez significando: “Chegaremos lá… chegaremos lá…” Pelo menos é isto que temem os que acreditam numa futura supremacia das máquinas.

Deixando divagações, futurologias e paranoias de lado, observo aqui, diante de mim, os vários controles remotos que comandam, cada um, a parafernália eletrônica que a tecnologia põe à nossa disposição para interagir com o mundo: TV, DVD, aparelhagem de som acoplada a um home theater, videogame, computador… São tantos que nem sei se estou esquecendo algum.

Para usar tais controles, há que se ter a agilidade mental especializada, o treino cotidiano, que somente possuem as gerações mais novas. Hoje, aliás, parece que, saídos do útero, junto com o primeiro vagido, os bebês já irão procurar, com aqueles encantadores dedinhos róseos e rechonchudos, o primeiro botão de controle remoto para apertar!

O galho, aquele originário instrumento rudimentar utilíssimo, importantíssimo, deixa saudades em nosso inconsciente coletivo e ancestral. Como era simples apenas segurar o galho para brandi-lo contra as feras ameaçadoras, cavucar no tronco da árvore em busca de mel, derrubar as frutas deliciosas. Provavelmente, a própria bengala, esse arrimo dos mais velhos ou de qualquer um fisicamente enfraquecido, tem sua origem num galho em que esses nossos remotos antepassados se apoiavam.

Aí estão, agora, esses botões portáteis, esses arrimos eletrônicos, para mim tão difíceis de usar. Além de cada um ter sua complexidade específica, os danados ainda interagem entre si, e não apenas com o aparelho ao qual os direcionamos. E aí é um deus nos acuda, pois não conseguimos ligar, desligar, programar, gravar, reproduzir – essas complicadas operações que supostamente deveriam estar apenas a serviço de nosso prazer.

Não pense, prezado ouvinte ou leitor, que sou saudosista, desatualizado ou um implicante com o avanço tecnológico. Ao contrário, esforço-me para vencer esse cipoal de conexões virtuais, esse emaranhado de contatos invisíveis, nessa floresta de ligações eletroeletrônicas, para chegar à terra prometida da boa imagem, do bom som, da utilização dos recursos informáticos.

Mas confesso que, muitas vezes, sinto-me como aquele antepassado remoto, aquele hominídio habitante das florestas primitivas, perplexo, atarantado diante do novo. Vejo-me carente dessa agilidade mental, dessa incrível capacidade de manipular e de extrair desses controles as maravilhas que nos podem oferecer, segundo afirmam seus respectivos manuais.

Ah, os manuais! Estes são um problema à parte. Pelo menos para mim, parece impossível fazer com que as sintéticas e ilustradas explicações contidas em suas páginas se transformem no comando que desejo. Sempre falta uma palavrinha aqui, uma instrução ali.

O que me parece uma falta de clareza, uma coleção de ambiguidades talvez seja apenas resultado de minha falta de inteligência. Não sei. O que sei é que acabo tendo de recorrer aos mais jovens, que resolvem a parada com uma invejável facilidade, apertando este botão, depois aquele, regulando de cá, controlando de lá.

Sobre a mesa, os controles remotos parecem me olhar com um sorriso feito de botões, ao invés de dentes. Esse sorriso, imagino, é composto de deboche e complacência.

Ando com vontade de pegar um galho e colocar, sobre a mesa, ao lado dos controles remotos. Assim, terei diante de mim os milhões de anos da nossa sensacional trajetória evolutiva, desde o primeiro galho que virou instrumento até a mais recente maravilha wi-fi.

Cuidado, amigo leitor ou ouvinte. Não vá se atrapalhar e apertar o botão errado que poderá fazer desaparecer para sempre esta modesta crônica!

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