Do que dispunha o rádio de ontem…

Publicado em: 03/07/2005

Para os mais avançados na idade, uma terna recordação; para os jovens de 40 anos para menos, retalhos da história do deslumbrante mundo do rádio dos anos 40/50.
Por Agilmar Machado

Para todas as faixas etárias, uma epopéia de bravos e dedicados homens e de charmosas mulheres com caprichados buques nos cabelos, lábios carmím e a busca do coroar da fama.

Esse era o “material humano” de que dispunha o rádio de antanho. O resto era conseguido na coragem e na competência. Quando se estava ao microfone (errar não tinha retorno) tinha que ser preciso, firme, infalível. Não tinha como remendar, depois de errar. Não existia o recurso propiciado pelo gravador, era tudo ao vivo: na cara e na coragem, como se dizia. Desaconselhava-se o improviso, por traiçoeiro e, às vezes, leviano. No entanto tínhamos que, numa emergência, improvisar. As circunstâncias exigiam… Em textos, em crônicas, em notícias, em reportagens era imprescindível o improviso. E as reportagens eram o forte da afirmação profissional. Na Eldorado, de Criciúma, a pressa era fazer chegar aos estúdios a notícia, antes que o Nelson Almeida “furasse” a notícia pela Rádio Difusora de Laguna (e como o respeitável e astucioso técnico Carlos Horn* fazia aquela rádio ir longe e com chegada límpa, absolutamente nítida, chegando a atrapalhar… em Criciúma ! )  Coisas de precaução de audiência e – porque não? – da concorrência comercial dura e implacável. Naquele tempo, incrivelmente, se fazia novela, ao vivo.  Lembro da radiofonização do bolero “Pecadora” (de Agustín Lara), uma mini-série produzida pelo César, o mais velho profissional da família. Como todas as músicas de Lara, a novela era bem ao estilo “dor de cornos”. Isso foi por volta dos anos 51/52… Pois muito mais tarde surgiria os primeiro gravador magnético que, ao invés da fita (que se conhece até hoje) era de fio. Parecia um monstro: quase um volume correspondente a uma mala de viagem.

Enquanto novidade, todos os produtores de programas queriam “antecipar” o conteúdo a ser apresentado, deixando-o gravado. Além de ser novidade, aquele trambolho nos concedia um privilégio que somente se conseguia ao microfone, com as mãos na orelha: ouvir a própria voz ! O gravador nos dava a chance de corrigir, mudar alguma coisa gravada, arrumar as coisas, enfim. E o que era muito interessante: um jornal gravado para o meio dia, nos deixava bem a vontade para “enxugar” mais uma cervejinha gelada no bar do Túlio, que ficava no térreo da ràdio ! Com o receptor “coletivo” transmitindo nossa voz, todos elogiando o que dizíamos… E nós, vaidade natural, agradeciamos “modestamente”…

Eu acho que o surgimento do gravador, mesmo aquele lançamento único de carretel de fio, da marca Webster, foi um dos mais importantes marcos da radiofonía interiorana. Para quem vive no rádio de hoje, respaldado pelo computador, pelas facilidades da Internet, pela transmissão à distância por um telefone celular, de qualquer parte do mundo, seria interessante existir uma rádio básica dos anos 40/50 para testes de habilidade. Seria como subsistir na selva com uma esteira de junco e uma panella de barro…

Mas seria uma experiência, no mínimo, curiosa !

(*) Carlos Rodrigues Horn, velho radioamador (que se denominava papa-léguas pelo seu prefixo: PPL), era diligente agente dos Correios e Telégrafos de Laguna. Sabia tudo de transmissão e recepção radiofônicas. Usava de artimanhas e conseguia milagres com a potência da rádio Difusora…

Um gênio e um inolvidável amigazo mais tarde, quando passei também pela ZYH-6, marcada pela fama imposta por Nelson Alves de Paula Almeida, o pioneiro da radiodifusão comercial no sul.


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