Dois rabinhos na conversa

Publicado em: 15/02/2006

Martinelli e eu falávamos de política, da áspera e complicada política, assunto no qual normalmente pouco investimos. Mas que dois brasileiros, encontrando-se hoje em algum lugar, não se põem logo a falar de política?
Por Flávio José Cardozo

Falávamos. E a palavra estava comigo quando, de repente, Martinelli me interrompeu para dizer que ia formular a pergunta máxima da conversa. Fez uma pausa (ele sabe o valor das pausas, pois foi artista de teatro na juventude) e indagou:
 – Concordas com a minha tese de que o rabinho é o sorriso do cachorro?
Por um instante, fiquei meio desnorteado: o papo estava elevado, distinto, nele expúnhamos nossas apreensões diante dos caprichos da roleta eleitoral, e meu amigo aparecia com um rabinho de cachorro?! Não demorei, entretanto, a penetrar na finalidade daquele rabinho: sim, aquele rabinho vinha para abrandar um pouco a excessiva sisudez que o diálogo tomava. O previdente Martina sabia que, continuando no duro terreno da política, íamos acabar amargos e que um buliçoso rabinho de cachorro era um santo remédio para nos desviar dos perigos do exagerado encucamento.
– Concordo – respondi – desde que também concordes que o rabinho é a dúvida do porco.
Martinell é um ser citadino, creio que jamais viu um porco pessoalmente, mas nem por isso ignora como é que o rabinho dele, já o deve ter visto muitas vezes em livros e desenhos animados. Por isso disse logo que concordava, o rabinho é de fato uma interrogação que o porco leva sempre enroscada no ar.
O austero leitor dirá que somos dois moços inconseqüentes. O mundo atochado de horrores, o Brasil com 8,5 milhoes de quilômetros quadrados até a boca com questões aflitivas e nós bobeando com rabinhos de cachorro e porco.
– Não achas que estamos um tanto frívolos? – cheguei a dizer.
– Frívolos? Achei que agora é que íamos ficar profundos.
– Esse negócio de rabinho, na grave hora presente…
– Esse negócio de rabinho é importante, poxa. Infeliz da gente se não conseguir mais ver a graça de um inesperado rabinho de cachorro entrando num lugar sério.
– Ou a graça de um indagador rabinho de porco – falei, defendendo o rabinho que eu tinha introduzido no debate.
– Sim, sim, o teu rabinho de porco… Ele é uma dúvida viva, concordo contigo. Um rabinho bem pensado. Rabinho de porco é alta filosofia.
– Rabinho de cachorro também é – falei, devolvendo a gentileza.
– Está bem, os dois rabinhos são alta filosofia.
– Ótimo – eu disse. – Mas por hoje já pensamos muito, não pensamos?
– É verdade. Por hoje já pensamos muito.
E cada um foi para o seu lado cuidar da vida, que não mole (como certas conversas).
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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