Domingo chuvoso

Publicado em: 16/11/2016

 

Escrevo, e ouço a chuva tamborilando no vidro da janela. Será que o recolhimento induzido pela chuva combina com domingos? Domingos não correspondem mais a dias de sol?

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A parques, a corridas e algazarra de crianças entre árvores frondosas, a passeios? Até nossas almas não parecem querer sair dos corpos e assumir uma vida própria, domingueira e alegre?

Não, ouço responderem os taciturnos, os ensimesmados. Não, ecoam os melancólicos, os que parecem que nasceram para acinzentar o mundo; os que suspiram em meio a suas mágoas.

Talvez não faça sentido atribuir aos domingos uma vocação de dia ensolarado. Mas, prefiro assim.

O domingo foi concebido como o dia do descanso. Pelo menos assim o teria idealizado o Criador, escolhendo-o para repousar da canseira da criação, como dizem as escrituras. Então, se era destinado ao descanso, nada melhor que envolver o domingo na umidade, esfriá-lo com o banho da chuva, e ainda inventar o monótono som das goteiras, que induz ao descanso, à preguiça, ao nada fazer. Eu, no entanto, incorrigível iconoclasta, discordo.

Um domingo de sol  nos envolve com seu encanto. O lazer impregnado na essência desse dia nos contagia. Nos domingos, há sons, luzes, perfumes e uma atmosfera própria do contentamento. Planos de vida são mais bem feitos nos domingos – mesmo que não se realizem, e essa é uma questão com a qual nada têm a ver os domingos. Mais sorrisos afloram nos domingos. Música, teatro, esportes realizam-se melhor nos domingos. Até sofrimentos, físicos e mentais, parecem ficar impregnados de uma esperança nesse dia.

Hoje é domingo. E chove. Para mim, isso não combina com o dia. Duvidam? Pois vejam que a própria chuva parece adequar-se aos domingos, não o contrário. Sua umidade, o cadenciado das gotas que caem, o cheiro de molhado de um dia chuvoso, isso tudo se condiciona a uma certa felicidade entranhada nos domingos. Se não concordam, observem o quanto nos incomoda e desalenta a chuva que cai nos dias de semana. Como dizem os que trabalham – os mais e os menos afeitos à faina diária – não há nada mais catastrófico do que uma segunda-feira chuvosa para se começar uma semana.

Contraditoriamente, escrevo neste domingo chuvoso, atividade que condiz com a chuva. Possivelmente, houvesse um sol radioso, estaria eu andando pelas redondezas a observar o mundo, alimentado pelas visões. Aqui, cercado pela chuva, recorro ao mundo armazenado na memória, talvez com a única vantagem de não ter de molhar os sapatos.

O som presente que ativa a imaginação é o barulho da chuva. Isto também é contraditório, pois se a vocação da chuva for provocar o abrigo, o enclausuramento, esse barulho ritmado é justamente o que provoca minha fuga para a dimensão do imaginário, de onde provavelmente me vêm as palavras, as frases e isso que denominam inspiração.

Continua a chover. Saindo de meu recolhimento, espreito pela janela e olho esse também bonito mundo molhado pela chuva. O brilho das folhas, o horizonte mal vislumbrado por entre a cortina da água que cai, o cão molhado que vagueia pela calçada, a  gente que a duras penas tenta manter-se sob os guarda-chuvas, mesmo com vento apenas moderado, mostram um domingo prisioneiro da chuva, o que, para mim, caro leitor ou ouvinte, realmente não combina!

 

 

 

1 responder
  1. Gercina Alves de Oliveira says:

    O realismo permeado de melancolia desta “pérola” escrita por Carino, mais uma vez confirma sua extrema e aguçada sensibilidade para a beleza do cotidiano que, somente os poetas como ele, são capazes de perceber.
    Leitora: Gercina.

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