Dominus Vobiscum

Publicado em: 08/09/2013

Aquela gostava de igreja desde criancinha. Adorava todo aquele teatro místico, o primoroso bordado dos paramentos, o cheiro de mofo misturado a incenso emanado do turíbulo, o som monótono das ladainhas, as vozes esganiçadas das velhas no burilar do terço, no cantar dos cânticos.

Anjo de procissão, aos sete anos foi escolhida para coroar Nossa Senhora, sua maior emoção. Na mocidade usava o véu branco das virgens, a fita azul da Congregação Mariana, casada, o véu preto como convém. Rezava o terço todos os dias à hora do Ângelus, confessava-se aos sábados, comungava aos domingos. Às terças-feiras fazia novena.

Ia à missa todo santo dia. Não compreendia o significado das palavras, mas gostava daquela narrativa solene feita de palavras longas e sílabas fortes. E, esclareça-se, para ela, não compreender fazia parte do gostar. Daí que, desde que a missa passou a ser rezada em português, nunca mais foi à igreja. Quando lhe perguntavam a razão, ela dizia: _ Foi-se a graça!

Da salvação de sua alma ela mesma se encarregava. Os pecados confessava-os para si mesma; estabelecia, e cumpria, a penitência e também se concedia o perdão se estivesse realmente arrependida. Nesse aspecto era rigorosa. Enquanto desfiava o rosário, encenava uma liturgia própria, inventada, uma espécie de alegoria da missa.

Rezava de costas para a porta imitando o padre de costas para os fiéis; levantava as mãos para o céu, ajoelhava, comungava um pedaço de pão e um gole d’água tentando reproduzir as palavras proferidas pelo padre. Aprendera latim de ouvido. O que não sabia, inventava.

_ Ave Maria! Gratia plena.
Ave, dominus tecum,
Benedicta tu in muleribus et
Benedictus frutus
Ventri tui Jesus.

Sancta Maria, mater Dei
Ora pro nobis peccatoribus
Nunct et in hora mortis nostrae
Amem!
Depois emendava um “Ó Maria totta pulcra, virgo prudentíssima, mater clementíssima, ora pro nobis”. Adorava um superlativo.

Para encerrar a celebração, “Per omini a seculum a seculorum…” Dizia, empostando a voz, fazendo o papel do padre.
_ “Aamééém!”. Ela respondia fazendo o seu próprio papel.
_ “Dominus vobiscum!”. Cantava pelo padre.
_ “Ericum espiritum tuo!”. Ela respondia fazendo o sinal da cruz.

Nos intervalos de um rezo a outro, ingruvinhava umas palavras soltas: _ “Sanctum!”. “Pater Nostrum!”. “Genuflecxórum!”. “Magnificat!”, pelo simples prazer da pronúncia. A bem da verdade, era em seu corpo – orifício auricular e palato – que as palavras reverberavam e produziam seus efeitos.

Assim viveu, resistindo às modernidades, sua vida longa. Mas, agora, na hora de sua morte, amém!, a dúvida a atormentava. Sobressaltada, mandou que chamassem sua neta mais velha.

_ Judite, minha filha! Diz pra vó que o homem não foi à Lua coisa nenhuma! Diz que é tudo mentira. Fala? Diz, que é pra tua vó poder morrer sossegada. Diz, filha! Diz que existe o Céu, onde está sentado o Deus Pai-Todo-Poderoso que haverá de julgar os vivos e os mortos. Eu tô contando com isso! Diz, filha! Tu és uma moça estudada. Em ti a vó acredita!

_ Pode morrer sossegada, vó! É tudo é mentira. Aquilo é coisa de americano! Respondeu a neta emocionada. Aliviada, ela fechou os olhos e deu um longo suspiro. A vizinha acorreu dizendo que achava melhor chamar o padre para ministrar a extrema unção. _ E eu lá careço de padre? Foram suas últimas palavras.

Ia para o Céu. Deus-Pai em primeiríssima pessoa a acolheria em seus braços perdoando-a dos seus pequenos e eventuais pecados. Finalmente conheceria a verdadeira face do Senhor. Finalmente teria as respostas para as suas muitas indagações. Sentariam à sombra da árvore mais frondosa do Paraíso e, já não era sem tempo!, Deus lhe revelaria o Mistério do Mundo. E o melhor, conversariam em latim.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *