Dormindo aqui em casa

Publicado em: 22/05/2013

Vivemos agora os tempos do “ficar”, essa expressão tão elástica adotada pelos jovens, significando algo entre o contato fugaz traduzido em beijos e carícias até um relacionamento um pouco mais sério e duradouro.

Não obstante os novos rótulos, nós, os mais velhos, já vivemos tais experiências, só que com menos desenvoltura, pelo menos até os anos sessenta do século passado, em que o chamado “amor livre” fincou suas raízes e mudou bastante os relacionamentos, sobretudo os sexuais.

Do banco de trás dos automóveis até aos motéis, a revolução sexual seguiu sua marcha, marcando, sobretudo, a libertação da mulher dos jugos preconceituosos e machistas. Da pílula à queda vertiginosa do anacrônico tabu da virgindade, tudo mudou, senão completamente, pelo menos substancialmente.

Quando digo que nem tudo mudou completamente, chego ao ponto que suscitou o tema desta crônica, partindo de uma conversa com um amigo que tem duas filhas.

Aos que me lêem peço um olhar especial sobre o que digo. Não o olhar distanciado, sociológico, psicológico ou filosófico, mas um olhar atento e carinhoso, que se detém na voz e na expressão de meu amigo, ao dizer: “Pois é, o namorado de uma das minhas meninas dormiu lá em casa ontem”.

Estamos, não é, caro ouvinte ou leitor, cansados de saber que, embora igualmente preocupada e zelosa, fossem essas filhas filhos homens, a expressão de meu amigo talvez fosse menos ansiosa e compungida. Sei também que, em tempos de tanta insegurança e violência, praticamente todos os pais preferem ter os filhos no abrigo seguro do lar que nas ruas ameaçadoras, ou mesmo na frágil segurança do interior dos motéis.

Estas reflexões não dizem respeitos a pais e mães retrógrados, ou mesmo aos que, embora posando de “avançados”, acabam por revelar-se bem tradicionalistas quando se trata dessa questão. Não. Penso mesmo nos pais e mães esclarecidos, como esse meu amigo e sua esposa.

Imagino a cena, interpretando pedaços de frases na descriçao feita por meu amigo. Uma filha viajando, em férias na casa de uma tia em outro estado. O quarto das meninas liberado… e para a mais nova.

A noite calorenta avança, depois do lanche, durante o qual o pai viu sua loirinha de olhos azuis inteiramente voltada para o atual namorado, que ele conhece pouco mas lhe parece um excelente rapaz.

Um parêntesis, prezado leitor ou ouvinte, para que nos entendamos: meu amigo sabe, tão bem quanto nós, que não lhe cabe, fundamentalmente, julgar o moço, ainda que sob os critérios frouxos e imprecisos de “excelente” ou “péssimo” rapaz. Sabe que a escolha é de sua filha, e que deve respeitá-la, etcétera e tal.

Mas, apesar de sua visão liberada e liberal do mundo, meu amigo vê, apreensivamente, que o programa de TV a que todos assistem agora na sala já chegou ao final; ouve a filha perguntar à mãe onde está aquele travesseiro mais alto, pois o rapaz só dorme com travesseiros assim; observa a filha toda sorrisos em meio à espuma da pasta de dentes… E finalmente finge que não vê a porta do quarto sendo fechada.

Em suas próprias palavras, meu amigo permaneceu na sala como “entre dois mundos”, num limbo entre seu próprio tempo, de construção dessa liberdade sexual, e o momento de hoje, que não somente bate à sua porta mas entra no quarto de sua filha.

A mãe? Ah, as mulheres, caro ouvinte ou leitor, sempre estiveram anos-luz à frente dos homens, mesmo num mundo patriarcal e machista. Sua sintonia com filhos e filhas sempre foi de uma natureza profunda, humaníssima, capaz de uma compreensão intensa e completa, coberta de generosidade. A mulher de meu amigo simplesmente foi se recolher, provavelmente refletindo sobre a situação, mas revestindo-a com esse manto de sentimento e entendimento de que, talvez, somente as mulheres são capazes.

Pode ser que a maneira de meu amigo encarar a situação seja anacrônica. Talvez esta crônica seja anacroníssima. De qualquer modo, ofereço estas reflexões, sobretudo aos meus amigos pais de adolescentes que vivem os tempos de “ficar”, de amar, de buscar a liberdade genuína, em todos os momentos, sob todos os aspectos, com todos os sentidos.

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