É fim do ranço contra os americanos?

Publicado em: 18/04/2012

UM – Vem de longe o ranço contra americanos. Estive entre os piás e suas teses “lúcidas, válidas e inseridas no contexto” queimando a bandeira vermelha, branca e azul, cheia de listras e estrelas; era lindo de ver, ali, na rua, o fogo, semelhante – a gente achava – ao fogo do inferno queimando o pano símbolo do imperialismo. O fogo inflava nosso ódio juvenil contra o Tio Sam, fazia a farra do fabricante de bandeira que sempre tinha mercado e nos tornava inocentes úteis da parte cínica da intelectualidade europeia. Creio que a preguiça e a inveja foram dois fatores fortes para que a gente criasse e mantivesse o ranço aceso.

A lista de fatores é longa, dentre estes citamos o esquisito desejo da esquerda europeia de globalizar o mundo sem o mercado, no dizer do francês Jean-François Revel. A Europa, recordo para não passar por imbecil, que fez os crimes do franquismo, do fascismo, do nazismo, do salazarismo, do comunismo; Europa que fez o bem-estar que desfruta hoje em cima de rapinagem na Ásia, África e Américas. Mais, e Revel refresca a memória: “Coisa estranha, é sempre na Europa que surgem as ditaduras e os regimes totalitários, mas é sempre a América que é fascista”.

A inveja é fácil de entender, é componente da natureza humana. Ah, meu Deus, como é difícil aceitar que o vizinho tenha mais grana por ser mais eficiente, esforçado e não por que sacaneou. Em 1700 a economia da América do Norte – da gente que saiu expelida da Inglaterra no My Flower – equivalia à economia da América Latina. Em 1900, a Europa detinha 70% da produção industrial do mundo e a economia americana só engatinhava. Sim, depois os EE.UU viram um império, mas foi às custas do Brasil?

Entre dezenas de exemplos pego a Argentina que, exportando carne, lã, trigo e outras coisas chega ao final da Segunda Guerra como quinto PIB mundial. Hoje, quebrada, busca culpados por suas mazelas e cada vez que se enterra na incompetência brinca de guerra nas Malvinas. Um general megalomaníaco, Peron e uma ex-prostituta, Evita, cavam o buraco expulsando os capitais ingleses que auxiliaram o país a chegar ao topo do mundo enquanto o Brasil remava. A inveja e a ignorância de Peron e Evita fazem escola, os Castro, Allende e Hugo Chávez estão entre os alunos mais emblemáticos.

E a preguiça? Eis o ponto complexo. É mais fácil fazer um inimigo, enche-lo de defeitos e responsabilizá-lo pelo nosso infortúnio. Como não conseguiremos produzir nada, afinal de conta nosso inimigo é implacável, torcemos para que ele se estrepe. E ai, com preguiça, a gente deixa de se informar, de conferir a veracidade do que nos colocam goela abaixo. Foi assim com parte da minha geração…

O diplomata José Osvaldo de Meira Penna é enfático: “É sabido que um dos métodos mais universalmente praticados por governantes ameaçados, para amainar conflitos internos, consiste em projetar os ressentimentos populares sobre bodes expiatórios estrangeiros. O recurso favorito à xenofobia como instrumento de mais imediata disponibilidade, em amplo espectro que vai da esquerda à extrema-direita, é a frase: a culpa é dos americanos”.

DOIS – Nada mais dramaticamente emblemático sobre a possibilidade de novo tempo do que a presidente Dilma Rousseff visitar Harvard, talvez a melhor universidade do mundo e, ao lado MIT, símbolos da inteligência estadunidense, para solicitar espaço para jovens brasileiros ali se aperfeiçoarem. Para quem como nós (a turma dela e a minha turma) berrávamos contra o acordo MEC-USAID, a atitude da presidente não tem nada menos do que espetacular, pois no dia em que perderemos o complexo de inferioridade (algo também embutido no ranço histórico) deixaremos de lado essa mania de procurar culpados pelas nossas fraquezas.

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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