E tinha gente que chamava de “Bosta Nova”! 01

Publicado em: 23/03/2008

A Bossa Nova não é mais tão nova assim! E não adianta dizer “aquilo que era tempo bom.” Afinal fazem apenas cinqüenta anos que ela, a bossa na música, foi inventada na zona sul do Rio de Janeiro, de mansinho, até irromper de forma espetacular como um novo gênero musical brasileiro!

Por isso, senhores saudosistas : “Chega de Saudade”, e vamos comemorar as bodas de ouro da bossa nova !

Interessante como você vivencia momentos históricos e só depois, muito depois, como agora, descobre que fez parte desse momento histórico da música brasileira.

1958. As emissoras de rádio ainda dominavam o panorama da comunicação no Brasil. A televisão começava a incomodar, mas só nos grandes centros, mordendo nos calcanhares dos tarimbados radialistas, roubando astros e estrelas da radiofonia para colocá-los na telinha preto e branco da TV.

E eu, que já fazia locução em rádio, anunciava as músicas que iam chegando às lojas de discos, em programas que priorizavam sambas, boleros, tangos, valsas vienenses, música caipira e até jazz. Mas se alguém perguntasse naquele longínquo 1958: e a Bossa Nova, onde é que está?, não saberíamos responder. Simplesmente porque a Bossa Nova estava nascendo naquele ano.

E acompanhando tudo, testemunha ocular da história como dizia o famoso “Repórter Esso”, anunciávamos ao microfone: “E agora ouvintes, ouçam com João Gilberto, Samba de Uma Nota Só”!

Articulação para atualizar o samba

Nos anos 1930 e 1940 música popular brasileira tinha que ser composta na mesa de um bar, depois de muita cerveja, caninha e acordes de violão. Era a época da boemia, imortalizada por Noel Rosa, continuada por Silvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e tantos outros em miríades de sambas, samba-canções, boleros e valsas.

Quando os anos cinqüenta chegaram, o samba – monumento nacional – estava desprezando o acompanhamento dos regionais para ser executado por grandes orquestras. A postura dos intérpretes não avançava. A Rádio Nacional notabilizou-se em apresentar as cantoras e cantores–padrão, imobilizados em um palco, gesticulando de forma operística.

Tudo isto incomodava uma parcela da juventude carioca, que via na música não só a mesa do bar, mas uma profissão rentável pela frente. E resolveram atualizar o samba, sabe Deus como…

Esses jovens pertenciam à classe média, viviam na zona sul do Rio e a maioria conhecia as notas musicais, ou seja a pauta musical.

Nos Estados Unidos existia também um movimento dos músicos que faziam o “cool jazz”, insurgindo-se contra a sinfonia das “big bands” da época, que consideravam ultrapassada.

Os “meninos do Rio” foram buscar inspiração no samba canção brasileiro, adicionando-lhe pitadas do “cool jazz” americano, um pouco da dolência do bolero mexicano, para criar algo novo. Priorizaram o violão, o piano, o baixo e a percussão. No meio do palco colocavam uma banqueta para o cantor que, empunhando o violão, cantava baixinho, deixando exasperados os controladores de som, que tinham que se virar para evitar as constantes microfonias… e a audiência entendia tudo o que o cantor cantava.

E o que significava esta postura? Os jornais batizaram o movimento de Bossa Nova. Pegou. É possível que a configuração de coisa nova tenha surgido da inspiração “cinema novo”, que naqueles tempos estava em evidência no país. Nos primeiros tempos, alguns “maldosos” apelidaram o novo ritmo de “bosta nova”. Coisa de puristas do samba!

Na próxima semana: a Bossa Nova repercute no exterior


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