Eleição não dá ressaca!

Publicado em: 30/10/2014

O tempo tem extraordinária capacidade de nos ensinar. É professor supimpa. Erra muito pouco e, quando tal ocorre, logo adiante oferece a chance de corrigir. Entretanto, sei lá porque cargas d’água tem o defeito de, às vezes, cobrar preço alto por determinadas lições. Entre seus incontáveis ensinamentos está aquele informando que eleição não dá ressaca.

Ensina também que eleição é um poderoso instrumento que dá a cada cidadão a possibilidade de escolher o melhor para seu município, para seu Estado e para seu país. E, para quem eventualmente é contemplado com a menor parte dos votos e nele fica a impressão de algum efeito colateral, a democracia – regime que sustenta o ato de votar – garante, logo adiante, a oportunidade de refazer tudo.

Sou da geração que ia às ruas, correndo o risco de levar cacetada ou de ir para a prisão, exigindo o direito de votar. Pode uma coisa dessas? É a pura verdade, o sonho que nos embalava era poder, um dia, ter o direito de escolher o presidente da República de forma direta, na base do voto e não da baioneta. E muitas pessoas, hoje em dia, nem acredita que tal aberração fazia parte de nossas vidas.

Entre 1964 e 2014 se passam 50 anos – um nada para história do Brasil –, as mudanças, entretanto, foram profundas na vida do país e dos brasileiros. Da escuridão que parecia não ter fim emergiu essa possibilidade de termos 11 candidatos disputando a presidência na década de 14. Foram onze candidatos apresentando propostas e foram 32 partidos políticos – sim, sim, alguns de aluguel, mas o que fazer? – percorrendo os campos e as cidades em busca daquilo que o tempo ensinou ser mais precioso do que o diamante: o voto.

Nem todos que lutaram pelo direito de votar estão vivos para comemorar este momento de glória, pois a vida de alguns ficou no caminho. Foi uma cobrança do tempo? Pode ser! A verdade, curta e grossa, é que sem resistência a eleição não seria parte da democracia que a cada passo mais amadurece. O que importa é que a eleição, atualmente, é algo corriqueiro, a gente escolhe o prefeito que deseja, o vereador que lhe agrada, o governador que mais confia, do deputado estadual da sua preferência, o presidente que acredita ser o mais preparado e o deputado federal e o senador que tem sua simpatia.

Cobranças do tempo à parte, alguns tem dificuldade de entender – é o meu caso – por que tanta gente deixa de escolher um candidato no dia da eleição. Dos 140 milhões de brasileiros aptos a votar mais de 30 milhões se abstiveram de se dirigir a uma urna. Nada contra esses mais de 30 milhões de cidadãos, cada um faz o que a cabeça manda, isso também é da democracia. Apenas desejo expressar minha ignorância com tal atitude, não entendo o que o move cada um. Sim, alguns, por um motivo ou outro, ficam impossibilitado de se deslocar para as urnas; mas trinta milhões?

Às vezes fico matutando: que juízo essa massa que foge das urnas como o diabo da cruz faz daqueles que arriscaram a pele pedindo eleição direta? Como dificilmente saberei digo apenas algo singelo: eleição não dá ressaca!

* Membro da Academia Passo-fundense de Letras.

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