Encontro canino

Publicado em: 12/12/2012

Para a amiga Hélida. Tarde calma. Rua tranquila. Da minha esquerda, veio vindo o cão. Andava como todo vira-latas: rápido, a passo firme, como se soubesse inequivocamente para onde ia. Olhos vivos, cabeça movendo-se em todas as direções, focinho empinado, perscrutando tudo, para detectar perigos e buscar aventuras.

Magro, da magreza oriunda da escassez permanente de comida, mas forte o suficiente para os confrontos frequentes e inevitáveis com outros cães na luta pela sobrevivência. De um branco sujo e com grandes manchas negras; rabo e orelhas curtas; mediano em tamanho – o paradigma de um vira-latas.

Da minha direita, elas vieram vindo, a cadela e sua dona, a mulher. Esta conversava com aquela, num desses monólogos absurdos, que se pretendem diálogos, praticados aí nas ruas por muita gente que passeia com seus cães pelas ruas da cidade.

A mulher, uma perua: com não menos que cinqüenta anos; cabelo de quem parece, a toda hora, ter saído do cabeleireiro; saia elegante e consideravelmente curta para sua idade, combinando com a blusa da moda, de mangas “morcego” e um ombro de fora; unhas longas e bem pintadas num vermelho vivo.

A cadela, de raça, não sei qual. Relativamente pequena, com o corpo perdido em meio à profusão de pelos; patas curtas e andar elegante, faceiro, se é possível atribuir faceirice aos animais.

Cadela branca, imaculadamente branca, dessas que parecem estar sempre saindo naquele momento da pet shop. E vestida. Isso. Sobre seu dorso, uma daquelas roupinhas para cães, com um corpete e um babado ridículo. Entre as orelhas, o indefectível lacinho cor-de-rosa.

Ao ver o cão, foi visível o sobressalto da dona da cadela, que puxou instintivamente a bichinha pela coleira, como para livrá-la de um perigo terrível, maior, muito maior que um buraco na calçada ou a possibilidade de um atropelamento.
A cadelinha, porém, pareceu encantada. Sabe-se lá o que terá fantasiado em sua imaginação canina, sobre aquele cão que lhe pareceu tão belo e macho. Que promessas de amor e viralatices mil ele significaria, longe de sua vida asséptica e contida de apartamento. Quantas latas a virar, quantos cachorrinhos a gerar…

O vira-latas tudo indica também que encantou-se com aquela cadelinha tão pequena, tão cuidadinha. Seus olhos percorreram o corpinho da cadela, despindo-a dos adereços impostos por sua dona, e o cão a viu a seu lado, sujinha e feliz, a fuçar em latas de lixo, a percorrer ruas movimentadas cheia da adrenalina do perigo do trânsito, a andar e andar, em busca de comida e emoções.

E foram inevitáveis e fortes os latidos; e perigosa, porém compensadora a tentativa de aproximação, que permitiu aos dois animais o erotismo canino dos toques de focinho e das lambidas nos lugares certos.

Durou pouquíssimo esse encontro de paixão à primeira vista. Foi logo interrompido pelo olhar de pavor da dona da cadela, acompanhado de gritos estridentes que tentaram afugentar o fogoso amante em potencial, para ela uma ameaça à sua filhinha de quatro patas, tão frágil, tão arrumadinha e tão superior a esses cachorros vagabundos.

O cão parou. Pareceu-me, no meu devaneio, que ele compreendeu a situação muito mais do que aquela perua horrorosa. Seu olhar percorreu mais uma vez o corpo da cadelinha, enquanto esta fazia o mesmo com aquele cão tão tentador.
E, por um instante, aqueles olhares caninos se fixaram um no outro. Um momento só, mas capaz de resumir todos os desencontros amorosos, todos os amores frustrados, todas as paixões – humanas ou não humanas – exterminadas pela incompreensão, ao longo de todos os séculos.

Lentamente, o vira-latas deu meia volta e se foi, rumo a seu destino de liberdade e de emoções intensas. A cadelinha ficou cabisbaixa, com os olhinhos semicerrados, como se pretendesse fixar, para sempre, nas suas retinas caninas aquele encontro com a paixão conduzida maravilhosamente pelo instinto, antes de voltar ao seu cativeiro de luxo, à sua sina de bibelô de humanos.

A tarde continuou calma, a rua tranqüila. Mas eu consegui ouvir um latido vindo de alguma distância, que a bela cachorrinha só pode responder com um olhar para o final da rua e com o focinho ao ar, como se ainda pudesse sentir o cheiro da verdadeira vida.

J. Carino

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