Entrevista: Rincon Sapiência

Publicado em: 29/09/2014

riconSapiencia

‘O céu é o limite!’, soltava em brado tom Notorious B.I.G. em uma das clássicas faixas da história do Hip-Hop. A frase não poderia ser mais perfeita para definir o cenário do Rap atualmente. O gênero vem crescendo e fazendo cada vez mais barulho no universo musical.  O site Caros Ouvintes tem o prazer e a honra de conversar com um dos melhores MC’s do cenário atual: Rincon Sapiência, que destaca-se por composições inteligentes, inventividade, versatilidade nos temas trabalhados e também no flow. Nascido e criado na COHAB 1, no bairro de Itaquera, o paulistano tem mais de 15 anos de caminhada no rap, isso mesmo, muitos o destacam como um dos grandes da nova safra, mas seu corre já é de longa data, tendo rimado com nomes como Munições da 38, Ébanos, 2º Assalto, Plano B, Equilíbrio Insano e Porte Verbal. O mc paulistano é bastante politizado, uma característica evidente em muitas de suas faixas e também em seu envolvimento em atividades sociais e oficinas de poesias, contribuindo para que os ouvintes de rap mantenham seu lado crítico e social em constante desenvolvimento. No ano de 2005 chegou inclusive a participar do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, onde participou de um campeonato de Freestyle local e saiu como vencedor. Em 2009 lançou a música Elegância, que inclusive ganhou um clipe e lhe rendeu uma expansão maior de seu nome, mas foi no ano de 2014 que Rincon marcou seu nome de vez no cenário, conquistando a todos os amantes de rap, graças ao seu projeto SP Gueto BR, que inclusive ele mesmo produziu a maioria das faixas. Enfim, fiquem abaixo com a troca de ideias que tivemos com Rincon:

 

Quem são suas influências no universo musical?
Rincon: A música no geral é minha influência, consciente ou inconsciente as coisas que ouvia antes de pensar em fazer música estão presentes no meu trabalho, o samba de raiz, o samba-rock, também o pagode dos anos 90 que ouvia na Transcontinental, as músicas que minha mãe ouvia na Alpha e na Antena 01, o Rock, as bandas de garagem na Cohab, o Reggae, a música eletrônica que ouvia na Brodway na fase “pop” do Drumm and Bass onde se destacavam os Dj´s Mark e Patife, Michael Jackson(quem nunca o imitou dançando) e por aí vai. Hoje percebo que tudo isso faz presença de alguma forma na minha música.

Como foi seu primeiro contato com o Rap?
Rincon: Meu primeiro contato foi cedo, por influência do meu irmão mais velho, adolescente apaixonado por Rap, seus amigos iam em casa fazer trabalho de escola e levavam fitas, vinis, assistiam os clipes que meu tio gravava pra gente nos VHS, davam muita risada. Sempre queria ficar na sala com eles, mas meu irmão me barrava. O estilo de vida, a música, tudo me agradava, aquela parada de irmão mais novo onde o irmão mais velho é o espelho, queria não ser criança, pra ser que nem eles, pra ir aos bailes, pra saber quem eram os “lagartixa”, o bate-cabeça, pra entender tudo aquilo que eles conversavam, até que chegou um momento que meu irmão sacou que eu gostava memo e passou a me “educar” no Rap, me levar pros rolês, tinha 11 ou 12 anos quando fui ao Radial pela primeira vez, era um domingo, isso em 98, show do RZO, o Sabotage já cantava “Rap é Compromisso”, depois em 99 escutei o álbum “Seja como For” do Xis, daí já era, já não queria só ouvir Rap como também fazer.

Quais MC’s você destacaria da nova safra do rap nacional?
Rincon: Gosto de Tribo da Periferia, Gasper, Napalm, Nego Galo, Don L, Raphão Alafin, Rocha, RGdoQI, Dikampana, Q.I Alforria, Tati Botelho, Amiri, Flow, Bitrinho, Beladona, enfim, sempre esqueço alguns.

Vamos falar um pouco sobre seu projeto, ‘SP GUETO BR’. Conte-nos sobre o pessoal que esteve envolvido no trabalho, produtores, artistas convidados, os responsáveis pela mixagem…
Rincon: É um trabalho em que a única coisa que tinha foi o título do EP, de resto nada estava tão arquitetado, mas o Wzy que produziu a faixa “Profissão Perigo” mixou e masterizou o trampo, é um figura bastante importante nesse processo, pela amizade, disposição, paciência e tudo mais. Passei a frequentar o estúdio dele toda semana, tenho várias músicas que eu mesmo gravo em casa e depois comecei a ficar com medo de virar uma bola de neve e perder o controle, então passei a finalizar no estúdio dele, daí chegou um momento em que notei que várias músicas que estavam prontas tinha a ver com esse título que já havia bolado, então juntei as peças e lancei. Até as pessoas mais próximas de mim se assustaram, pois sabem que sou um cara muito detalhista pra lançar as coisas, algumas músicas não entraram no trampo, mas estão prontas ou semi-prontas, sem contar que continuo gravando em casa, com uma frequência menor, mas continuo. Quanto aos envolvidos temos o produtor Tico Pró, Wzy, Ledread, Guimas Bass, Caio Trova, Carlinhos Alves, DJ A.s.m.a, Denna Hill, tudo família.

Como surgiu a ideia para que o nome do projeto fosse ‘SP GUETO BR’?
Rincon: Notei que o Rap tem “invadido” outras áreas do entretenimento e isso não é demérito, mas passei a notar que existe agora uma peneira pra avaliar um bom Rap e os valores dessa peneira não são nossos, percebo que se a musicalidade se parecer com outras coisas que não seja o Rap é ponto ganho, se a poesia tiver aqueles signos eruditos fugindo um pouco da poesia marginal é ponto ganho, se os temas forem amistosos e não entrar em conflito com os valores dos críticos da “grande mídia” é ponto ganho também, então resolvi fazer o contrário, ao invés de fazer um trabalho pra invadir o universo “deles” optei em fazer um trabalho voltado pra cultura do gueto, das ruas e convidar os ouvintes a visitar nosso universo, com nossos valores, nossa poética, nossas histórias, procurei temperar a estética das músicas sim, com samba, rock, guitarras distorcidas, vocoder, ska, percussão, mas mantendo os signos do Rap, os scratches do DJ e noto que os resultados são bacanas, a música e clipe de “Coisas de Brasil” passa muito essa atmosfera, é um Rap de crítica social como de antigamente, mas tem beleza, poesia, belas imagens, musicalidade, mas não deixa de ser gueto.

Você pode falar um pouco sobre o seu processo de composição das músicas e quais são suas inspirações?
Rincon: Meu processo de composição tem basicamente dois tipos, às vezes três, um deles é quando componho sem a base, no vazio, geralmente a letra sai com uma profundidade legal, a outra é quando componho com a batida, a tendência é a letra sair menos sentimental e profunda, mas a conversa da levada e batida fica bem legal compensando a falta de profundidade no que tá sendo dito, a terceira é quando componho sem ao menos escrever que nem é o caso da “Batidão” primeira faixa do EP, essa música nunca sequer escrevi uma linha, fiz tudo na mente, o jogo dela é dizer que a batidinha é ruim e o batidão é o fera, daí criei uma série de frases na mente, fui juntando uma na outra até que se tornou uma música. Quando escrevo no papel nem sempre tenho o tema, então vou rabiscando e tentando pegar uma deixa pra criar um tema, agora quando já tenho o tema e a fórmula que vou aplicar o desenrolar da rima, posso criar sem ao menos escrever, já criei algumas músicas assim.

Em ‘SP GUETO BR’ há uma versatilidade de flows bem marcante, gostaria de saber como ocorre a escolha pela levada perfeita, é algo mais sensitivo ou estudado?
Rincon: É sensitivo, tenho muito respeito pela música então me vejo na obrigação de dançar com ela, posso fazer uma participação com uma banda de valsa, por exemplo, às vezes o cara fala “…na sua parte entra a batida de rap…” e eu digo que não precisa, existe o bom flow de rap pra qualquer música, em qualquer bpm, em qualquer compassada, basta a gente sentir e ver o que se encaixa. Recentemente gravei um programa pro canal Bis onde cantei com os Demônios da Garoa a marcha “A taça do mundo é nossa” botei meu flow na cadência da marcha e se encaixou legal, gosto muito disso, de sempre ter um entrosamento legal com os instrumentais.

Preciso confessar que ‘Transporte Público’ é minha faixa predileta do projeto, a levada utilizada se encaixa perfeitamente com a batida e o tema foi abordado de forma bem crítica e meticulosa, é impressionante o modo como o ouvinte vai montando na cabeça as cenas através das rimas. Como foi o processo de escrita da canção?
Rincon: Acredito que criei essa característica na escrita, essa música tenho fazem uns 8 anos ou mais talvez, é um divisor de águas, antes dela já cantei de forma descompassada, passei por alguns experimentos e depois saquei que precisava fazer um rap que converse com as pessoas, até que escrevi essa letra, vejo essas mesmas características de narrativa até mesmo na “Elegância” ela começa tipo “…saio de casa vou eu e fone de ouvido…” a partir daí o filme é montado. Quanto ao processo de escrita acredito que mais da metade das minhas letras criei no transporte púbico, pelo menos algum trecho, até porque em casa a internet, os deveres me consomem e nem sempre consigo escrever, então no transporte além de matar o tédio de esperar várias estações é algo gostoso, adoro escrever, como disse anteriormente mesmo sem tema eu abro o caderno e risco, daí escrevendo no transporte não há nada mais sugestivo que falar sobre o transporte, assim surgiu a música.

Poderia dizer quais são os seus álbuns de rap prediletos?
Rincon: “Seja como for” do Xis, pra mim é um divisor de águas do Rap brasileiro, no meu ponto de vista o rap era um pouco engessado até sair esse trampo, variedade de bpm´s, de flows, de tema, falar da quebrada, mas sair da mesma abordagem, se mostrar como uma pessoa normal de quebrada, que torce pro seu time, tá ligado no que pega na rua, tá de olho na pretinha, toma uma breja, transa, nada disso era exposto até sair esse trampo. “Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais era tipo Thriller do Michael, toda casa tinha um, “Entre adolescência e o crime” do Consciência Humana, “A jogada final” do Sistema Negro, “Declaração de Guerra” do MV Bill também foi um trampo que elevou o nível do rap brasileiro, as produção do DJ Luciano são foda, as levada monstra do Bill, as letra boa, trampão. A mixtape “Sexo, drogas e violência” do Costa a Costa é bem foda também, “2º Vinda, A cura” do Apocalipse 16 foi um trampo que roubou a brisa na época, enfim, esses são alguns dos trampos que mexeram comigo de alguma forma, tipo me fez querer rimar melhor, querer melhorar minhas bases, coisas do tipo.

Com quais artistas você deseja realizar parcerias?
Rincon: Gostaria de gravar algo com a rapa do Medulla, tocamos junto recentemente e percebi alguns pontos onde nos entrosaríamos bem, falei muito do Xis, hoje em dia ele é um parceiro mas ainda não gravamos nada, seria algo loco! Pela africanidade, trabalhar com o Nana Vasconcelos seria massa, o Moraes Moreira tenho um carinho por ele muito por conta dos novos Baianos, tem uma fase dele em que já sampleei algumas coisas, acho que combinaria bem, o MC Bin Laden, Margareth Menezes, Eumir Deodato, João Donato, enfim, pra falar a verdade é sempre uma honra gravar com pessoas que a gente admira, então diria que sou capaz de fazer parcerias que vão do Funk as Orchestras.

Como aqui no Caros Ouvintes também comentamos sobre literatura e cinema, gostaria de saber se você nos revelaria alguns de seus livros e filmes favoritos?
Rincon: Filmes os últimos que foram marcantes que me lembro é “No” um filme chileno muito bom, “Cachê” filme francês que aborda o conflito racial de uma forma bem interessante, no caso o conflito gira ao redor de um árabe, “Fale comigo” que não é um filme cabeçudo como os outros citados, mas a história é linda, a personalidade do protagonista tem muito a ver com a minha na relação dele com a “possível fama”. Quanto à literatura, faz tempo que não leio nada, o último livro que li se chama “Os mistérios do Egito”, livro muito agregador no que diz respeito à contribuição dos pretos com o mundo através de seu vasto conhecimento, muitas das ciências hoje reverenciadas como medicina, astrologia, matemática, já se praticavam na África. Quando fui pra Dakar esse livro fez mais sentido ainda, já que me deparei com etnias nômades de pessoas bem pretas naturais do Egito que se espalharam por vários lugares da África, estudar o Egito e seus mistérios é estudar a história do povo preto também. Por gostar desse tipo de informação envolvendo misticismos, magia, voodoo, Maias, Incas, Budismo, Hare Krishna, Samurais, meditação, ovnis, macumba, adotei o nome Sapiência que significa conhecimento das coisas divinas e humanas.

Quais os seus projetos para o futuro?
Rincon: Tenho materiais já gravados pra lançar outro EP, a princípio queria lançá-lo esse ano ainda, mas o ‘SP Gueto BR’ está rolando muito bem, então vamos gravar mais vídeos e fazer mais ações envolvendo esse trabalho, então possivelmente só no ano que vem, tenho planos também de produzir e fazer parcerias com artistas de fora do Brasil, quero lançar também uma companhia onde pretendo “lançar” alguns artistas, muita coisa já esta rolando, projetos pra 2015.

Rincon, agradeço pela entrevista concedida ao site Caros Ouvintes. Você gostaria de deixar um recado final aos fãs do rap nacional?
Rincon: Agradeço pelo convite e seguimos assim torcendo pelo progresso da nossa cultura, deixo meus votos por mais mídias nossas de Rap, mais produtores de festa, mais dj´s, é necessária uma safra nova de dj´s que são figuras importantíssimas pro movimento. Contribuir com a cultura não é só cantar, pra quem é amante da cena e tá a fim de ajudar, coloque sua aptidão em prática e vem com nóis, ainda falta bastante coisa pra gente ganhar solidez como movimento. Abraço pros mano, beijo pras damas.

Confira abaixo Rincon Sapiência nos clipes ‘Transporte Público’ , ‘Coisas do Brasil’ e ‘Linhas de Soco’:

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