Éramos artistas

Publicado em: 24/01/2006

Tínhamos nesta cidade, ali pelo fim dos anos 50, dois importantes eventos na semana. Um era aos domingos, a bem trajada e perfumada sessão das oito no Cine São José. O outro, mais singelo, era nas terças-feiras: a imortal Sessão das Moças do Cine Ritz.
Por Flávio José Cardozo

Curioso, fui outro dia até a Biblioteca Pública folhear uns jornais de 58, 59. Queria saber que filmes estavam na praça naqueles dias. Pois num Domingo passava Juventude transviada, com James Dean, Natalie Wood e Sal Mineo. Um anúncio, superpovoado de adjetivos, advérbios e pontinhos de exclamação, bradava: “Chocante! Real! Expressivamente humano! Verdadeiramente dramático! Impressionantemente violento!”. Noutro Domingo, era Se voltasses para mim, com Libertad Lamarque, Silvia Pinal e Miguel Torruco (“A história de todas as mulheres que lutam para conservar o seu lar”); noutro, No despertar da tormenta (Ä chama de um fósforo inflama a tela com calcinantes cenas de inesquecível força dramática”), com Bette Davis.
 
Mas não era bem para ver filmes que íamos aos domingos no São José. Se o filme fosse bom, melhor; se não fosse, isso não tinha importância, todos desculpavam. Interessava mesmo era viver a magia daquele fecho de ouro da semana. Hoje o Domingo morre melancólico ali pelo cair da tarde, cedo sobrevém uma sensação de cansaço interior, uma vaga mistura de preguiça e receio diante das enescrutáveis invenções da semana nova. A sessão das oito do São José prolongava as doçuras do domingo até mais tarde.  Só depois dela, e de mais uma meia hora de footing na Praça Quinze, é que as beldades e os galãs enfim se recolhiam. Beldades e galãs… Era isso mesmo. A rapaziava punha-se no maior capricho para ir ao São José – na condição de melhor cinema do Estado, ele exigia sempre o uso do paletó, por mais calor que fizesse – e as mulheres transformavam a sessão na sua melhor passarela. Ditosos olhos meus de então que vistes nas filas e na platéia do São José, com alguma timidez, as mulheres certamente mais elegantes, misteriosas e lindas do planeta Terra!
 
Bem mais simples e sem luxo era a Sessão das Moças no Ritz. As garotas vinham de todas as bandas da cidade e pagavam só meia entrada. Por muitas razões um estudante matava as aulas do Colégio Dias Velho, mas nenhum era tão sincera, determinante e digna de perdão como a Sessão das Moças. Os filmes? Ah, sim, havia filmes. Verifiquei nos jornais que passavam coisas como Eu e meu anjo, com James Mason e Lucille Ball; Império da espada, com Cornel Wilde e Jean Wallace; Serenata em Acapulco, com uns tais de Roberto Romana e Martha Roth;  A maldição do faraó, com um certo Mark Dana e uma certa Ziva Shapir.
 
Os filmes… que importavam os filmes se éramos nós os artistas?
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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