Espelho, espelho meu

Publicado em: 19/12/2012

Dos espelhos, a vaidade nos espreita. Basta um olhar e caímos no laço da autoapreciação. É rápido e fácil virarmos Dorian Gray. Depressa, já estamos fazendo a nós mesmos a pergunta da invejosa que odiava Branca de Neve: “Espelho, espelho meu, haverá alguém mais linda do que eu?”.

Estas reflexões me ocorrem a propósito das academias de ginástica, esses lugares onde se vai para modelar o corpo e atiçar o Narciso que cada um tem dentro de si.

Academias de ginástica são sempre as mesmas; só mudam de endereço e diferem na sofisticação dos ambientes e dos aparelhos. Os tipos que as frequentam também pouco variam, mas formam uma galeria que é, ela mesma, um reflexo da vida moderna mostrado nos espelhos.

A moça linda tanto deseja esculpir o corpo como exibir-se, na sedução de suas curvas, caras e bocas e olhares constantes para os espelhos que lhes devolvem elogios em forma de imagens. Seu empenho em tornear músculos é menor que o desejo – inconsciente ou não – de mostrar em poses sensuais as partes do seu corpo com as quais encanta: os quadris, as nádegas, as coxas, os seios e tudo o que forma seu conjunto harmonioso de encantos físicos.

A moça feia exibe-se igualmente, sabendo que a feiúra, em suma, não existe; o que existe apenas é a incapacidade de conseguir transformar-se em mulher sedutora, mesmo quando o corpo é parco de recursos. Por isso, aplicada, esforça-se, e termina conseguindo mostrar-se também provocadora. E isto acaba sendo verdade sempre, justificando o ditado de que “há sempre um chinelo velho para um pé cansado e doente”.

O jovem saradão esfalfa-se para transformar-se numa torneada massa de músculos que atraiam e prendam os olhares femininos. Enquanto sofre e bufa esticando tirantes e levantando pesos, também lança aos espelhos olhares narcísicos, enquanto sonha com a conquista de belas gatas.

Mas as academias abrigam ainda outros tipos cuja motivação pode não estar no culto puro e simples ao corpo perfeito. Assim é, por exemplo, a mulher que sonha em recuperar, pelo menos, aquelas formas de antes da gravidez, voltando a exibir as curvas escondidas debaixo de gordurinhas pela ação implacável dos hormônios na sacrossanta tarefa de gerar nova vida.

Há um novo tipo, cada vez mais numeroso, empurrado para as academias por seu médico, um algoz vestido de branco. É o homem estressado, vítima das correrias, da competição e das armadilhas, falsidades e traições imperantes nos ambientes de trabalho. Esses soldados do dia-a-dia da guerra pela sobrevivência, lutando na selva produtiva, quase sempre não conseguem esconder que ali estão a contragosto, confinados, fazendo movimentos repetitivos, quando gostariam de estar curtindo uma happy hour, em torno de uma tulipa de chope, em plena caçada às mulheres ou já gozando o prazer do sexo entre os lençóis de uma suíte de motel.

As academias abrigam também idosos e idosas desejosos de manter alguma coisa da antiga forma, ouvindo a voz do bom senso, que aconselha manter-se o corpo ativo como antídoto contra o tempo, em seu inevitável ataque a músculos, nervos e articulações.

Existem ainda os que podem ser considerados “compulsivos de academia”. São aqueles e aquelas que não passam um dia sequer sem malhar, chegando alguns, muito radicais, a irem mais de uma vez por dia fazer sua malhação. Esses fazem da academia uma segunda casa, talvez um refúgio para sua solidão ou lenitivo para suas frustrações. Bem, melhor isso que uma baita depressão…

As máquinas de malhação das academias de ginástica são compostas por uma parafernália de tubos, correntes, pesos e contrapesos. Em volta da sala, essas máquinas de exercício têm sua imagem multiplicada nos espelhos, que multiplicam também os gestos e movimentos dos que se exercitam, refletindo muitas vezes as caretas de dor provocadas pelo esforço excessivo. Outras vezes, podem-se ver refletidos os sorrisos de satisfação quando a conquista de um corpo bem torneado parece alcançada, num músculo inflado aqui, numa curva mais acentuada ali ou numa flacidez de barriguinha vencida acolá.

Um último e indispensável componente das academias de ginástica é o fundo musical. Os corpos que malham têm seu movimento repetitivo ajustado ao ritmo de músicas que parecem ter sido compostas para isso. Em volume altíssimo, o som envolve a todos, fazendo a marcação das contrações e distensões, representando a trilha sonora desse culto ao corpo, que vem de tempos remotos na cultura ocidental, desde que os gregos conceberam e os romanos disseminaram a idéia de “mente sã em corpo são”.

Malhemos todos, pois, deixando na academia nossa cota de suor. Então talvez o espelho nos dê a resposta tão desejada.

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