Esquerda e direita, dois cadáveres insepultos na sala

Publicado em: 08/05/2013

Há dificuldade, inclusive entre os letrados, em precisar quando houve a morte da direita e da esquerda. Não há dia, hora e local que possam ser postos no atestado de óbito. Há quem não admita essas mortes (sempre tivemos os céticos, nada pode ser feito a respeito), elas sempre dão boas teses de doutorado. E há quem fale em ressureição.

O drama de hoje se relaciona com esses cadáveres famosos que a humanidade produziu e que permanecem insepultos na sala, cheirando mal, sem que – por teimosia – possam ter o merecido descanso eterno que virá pela paz que o sepulcro traz desde os primórdios.

E enquanto esses cadáveres seguirem em velório nos vigiando (ironia, eles nos vigiam, ao contrário do que imaginamos), aprisionando nossa mente, imobilizando nossos músculos, dopando nosso raciocínio, nada de verdadeiramente novo pode surgir para conduzir novos sonhos, novas utopias.

Enquanto esquerda e direita permanecerem insepultos não teremos chances para novas formulações sobre o que somos, o que podemos produzir, para onde podemos ir, não saberemos usar o GPS que define rumos precisos para a humanidade ainda em volta em terríveis contradições. E continuaremos confusos, como o antropólogo de esquerda, por exemplo, estudando a influência do papel higiênico na fabricação do avião a jato e o sociólogo de direita debatendo o arame farpado como causa do aumento dos divórcios.

Assim, estamos condenados ao imobilismo pela dialética que teria movidos os cadáveres que nos velam; quando a dialética decide funcionar exige o fim, o extermínio de um status para então permitir a liberação da energia que vai parir o novo. Este é o ponto de vista mais universal, diríamos, do qual não há escape.

Para ressaltar ainda mais a atual caos analisemos a questão pelo ângulo de Lewis Mumford, para quem a cidade dos mortos antecede a dos vivos. Ou seja, para que – no passado – surgisse algo dialeticamente novo na espiral que caracteriza o movimento da história foi imprescindível que os cadáveres que permaneciam insepultos, à sanha dos vermes e dos abutres famintos, fossem para o cemitério. Insepultos apodreciam, postos em sepulturas fizeram brotar as luzes da cidade que ainda nos hipnotiza.

Insistimos: enquanto esquerda e direita ficarem expostas à perplexidade pública a mente seguirá prisioneira do que ambas representaram, mesmo que o nada esteja em boa parte desse tudo. E, para desespero dos mais teimosos, cada vez mais saberemos menos sobre que realmente foram e o que deixaram de ser para definharem desse modo.

Sim, não é fácil a despedida do ente querido; o que está em nossa mente é, não amiúde, mais poderoso do que o espinho que faz o dedão latejar. O próprio Mumford recorda, que ”o respeito do homem antigo pelos mortos, em si mesmo uma expressão de fascínio pelas suas poderosas imagens em vigília e de sonho noturno, teve papel maior ainda do que as necessidades mais práticas”. Eis o brete: mesmo com tudo o que cremos ter evoluído não cortamos todo o cordão umbilical com nossos ancestrais nômades.

Apesar de estarmos no terceiro milênio, onde o conhecimento se alastra com a velocidade de água morro abaixo e fogo empurrado pelo vento fresco na coxilha mansa, onde ciência e tecnologia não encontram barreiras, permanecemos chorando dois entes que morreram de morte natural (ou seria de inanição?). E, ao contrário de outros mortos importantes sobre os quais sabemos definir o que foram e o que fizeram, sobre esquerda e direita há toda essa dificuldade, inclusive na academia, de uma definição mais clara. Hoje o modo mais rápido de estourar papo de bar, aula na academia, de modo particular se for de história, é indagar quem sabe o que é ser de direita e o que é ser de esquerda?

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