Eu bem frito

Publicado em: 17/01/2006

Estava sentadinho vendo as notícias locais, longe de imaginar que alguém pudesse de alguma forma vir mexer comigo naquela hora de descanso, quando um funcionário da Comcap, em estado de greve fez à repórter esta excelente declaração:
– Olha, com o salário que a gente ganha, mal está dando pra comer pirão d’água com cardoso. Confesso: aquilo me desconcertou um pouco.
Por Flávio José Cardozo

No contexto da reportagem, comer cardoso (com s ou com z, com pirão ou sem pirão) era um indicador de penúria.
Meus pobres brios se arrepiaram. Imagino que um Carneiro, um Leitão, um Coelho não sofrem isso quando alguém comenta que passou nos garfos um pedaço de seus homônimos, de seus universalmente apreciados homônimos. Um leitão no espeto… o nobre petisco que é um leitão no espeto! Já bem diferente, pelo que vi, é o caso do cardoso com pirão d’água. Doeu um pouco a revelação do homem.
Mas a natureza me fez forte. Em menos de três horas me convenci de que estava me debatendo num sentimento pequeno, que aquilo era pura falta de senso de humor e uma estúpida vaidade. Pensei: se (por hipótese) eu fosse um Leão isso me faria diferente em alguma coisa?
Fui amansando, amansando e acabei achando até bonito um cardoso acompanhado de pirão d’água. Compreendi que a afirmação do grevista da Comcap me causou aquele impacto também por uma razão de ordem lexicológica: eu sabia da existência de um peixe chamado cardosa, não de um peixe cardoso. Corri a confirmar isso no meu Dicionário dos animais do Brasil e lá estava:
“Cardosa – Em Santa Catarina, é o nome de um peixe do mar, semelhante à sardinha. Em Portugal, o mesmo nome (talvez apenas corruptela de ‘caboz’), mais usado, designa os gobiídeos”.
Von Ihering não fala em cardoso, nem mestre Aurélio, nem as enciclopédias. Mas apurei que aqui na Ilha o pessoal aplica esse masculino a um peixinho ligeiramente diverso da cardosa – parece que mais fino, um pouco mais comprido, sei lá. Seja como for, dizem que ele dá com muita fartura e que, bem passado na frigideira e com umas espremidelas de limão, é saboroso.
Comê-lo todo dia, como muitos são obrigados a fazer, é que deve ficar um tanto enjoado, mas isso acontece até com lagosta ou com picanha de boi gordo. Coisa pra lá de curiosa a origem dos nossos rótulos familiares. Não sei quem, num determinado dia, cismou de aplicar no outro ou de aplicar-se a sim mesmo um apelido e pronto: lá ficou sendo um Falcão, um Lobo, um Tigre ou então um Bezerra, um Pinto, um Passarinho, um Formiga; lá ficou sendo um Carvalho, um Pinheiro, um Jatobá, ou um Rosa, um Margarida, um Flores; ficou sendo um Montanha, um Rocha, um Lago, ou um Ribeiro, um Arroio, um Rego.
Quero ainda ver de perto, pulsando generosa, uma rede carregada de cardosos. Sabem que já não estou me sentindo tão sem importância?
Pirão com um cardosinho bem frito – ô Dona Isabel, quando é que a gente vai comer disso?
(Do livro Beco da lamparina, Florianópolis, Lundardelli / Diário Catarinense, 1987)


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