Eu quero um copo de leite

Publicado em: 30/11/2011

Randal olhou pra mim e emendou: “Você viu que eu pedi, como não tem vou tomar um uísque dose dupla”.

Histórias do Rádio | Capítulo 1

Randal Juliano

Em 1975 o Brasil foi representado por uma Seleção Mineira comandada por Oswaldo Brandão, com Telê Santana e Hilton Chaves como auxiliares no Campeonato Sul-Americano, hoje Copa América. Perdemos o título no sorteio para o Peru. Jogamos contra a Venezuela em Caracas no Estádio Universitário que tinha péssimo gramado e vencendo por quatro a zero. Cheguei sábado a Caracas, o jogo seria na quarta-feira seguinte. À noite fui ao estádio presenciar jogo do campeonato local e me inteirar do local onde transmitiria a partida. Constatei que em nenhuma cabine de rádio havia telefone ou linha de transmissão.

Na segunda-feira fui a Entel onde seus funcionários ficaram surpresos com a realização do jogo. Mostrei o telex da Embratel com o pedido do circuito de transmissão e eles se assustaram. Descobriram que mais de 10 emissoras brasileiras viriam para transmitir o jogo. Sorte de eu ter ido lá. Eles providenciaram na terça-feira a instalação dos respectivos cabos para a transmissão.

Na Copa do Mundo de 1974 quando João Havelange foi eleito presidente da FIFA, Osmar Santos, Cândido Garcia e eu fizemos um verdadeiro tour por Frankfurt. Eu tinha desembarcado naquele dia e à noite João Havelange promovia uma recepção à imprensa em um Castelo nas proximidades da cidade. Com Cândido Garcia ao volante partimos para o evento. Como já estavam em Frankfurt há mais de uma semana, Cândido e Osmar diziam saber como chegar ao local. Mesmo de posse do mapa da cidade e região não conseguimos chegar ao castelo. Rodamos muitos quilômetros e fomos jantar mesmo no Centro de Frankfurt lá pela meia noite.

Fausto Silva, o Faustão adorava comprar roupas nos tempos da Jovem Pan e com certeza continua. Certa feita convidado o acompanhei até a Só Calças na Alameda dos Maracatins em Moema. Faustão saiu com seis calças tipo “boca de sino” que era moda na época. Em 1977 em Cuenca (Equador) acompanhando o Corinthians na Libertadores, Faustão descobriu uma alfaiataria defronte o hotel onde ficamos hospedados. Duas horas depois a sua coleção de jeans aumentou. E eu também atendendo seus conselhos aumentei a minha.

Willy Fritz Gonser, um dos maiores narradores da história do rádio brasileiro, hoje aposentado e vivendo em Alcobaça no sul da Bahia, havia deixado a Jovem Pan em Setembro de 1973 para seguir carreira na Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Naquele ano em Fevereiro comprou um carro zero km no Jumbo Aeroporto aqui em São Paulo. Passados alguns anos contratado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, veio dirigindo o possante de Porto Alegre ao Rio. No meio do caminho ficou preocupado com a luz que piscava no painel do carro. Parou num posto de combustíveis e ouviu do frentista: “O óleo endureceu virando graxa”. Aí Willy descobriu que desde a compra nunca tinha feito a troca do óleo do carro.

Randal Juliano e eu estávamos a serviço da Jovem Pan em Manaus para acompanhar Corinthians e Palmeiras que jogariam lá na quarta-feira e domingo respectivamente. Fomos jantar no “Bigode do meu tio”, restaurante da época.  Devidamente acomodados veio o garçom saber das nossas preferências. Randal disse: “eu quero um copo de leite”. O garçom imediatamente respondeu: “Senhor nós não servimos leite”. Randal olhou pra mim e emendou: “Você viu que eu pedi como não tem vou tomar um Uísque dose dupla”.

Nos bons tempos do rádio os imprevistos ocorriam com muita frequência. Numa determinada quarta-feira as grandes rádios enviaram seus narradores, comentaristas, repórteres e operados técnicos para a transmissão de Figueirense e Corinthians em Florianópolis. O voo ficou retido em Curitiba pela falta de teto do Aeroporto Hercílio Luz na capital catarinense. Como já passava das 15 horas, fomos colocados num ônibus para nos levar a Florianópolis. Os 300 km que separam a capital do Paraná da capital catarinense foram percorridos em pouco mais de 4 horas. Deu tempo de desembarcar na porta do estádio, subir para a cabine, ajudar o operador a montar rapidamente o equipamento e sem mais delongas iniciar a transmissão. Foi um sufoco, compensando após o jogo pelos generosos camarões da Ilha da Fantasia.

Pra fechar…  A bordo do Boeing 737-100 da VASP a imprensa de São Paulo se deslocou na tarde de determinado sábado para Belo Horizonte para transmitir o jogo Atlético Mineiro e Corinthians. Fechado o tempo sobre o Aeroporto da Pampulha retornamos a Congonhas. Tanto como na volta houve muita turbulência o que motivou a desistência de um operador de externa da então Rádio Nacional. Entregou sua verba para um operador técnico de outra emissora, conseguiu depois de muita confusão sair da aeronave. Foi o dia em que ele abandonou a carreira para segundo consta, tornar-se fotógrafo de um jornal da capital.

1 responder
  1. Adalberto Day says:

    Grande Edemar
    Sempre nos trazendo belas reportagens.
    As lembranças do Oswaldo Brandão sempre são importantes na historiografia de nosso Futebol.
    Esses percalços nas transmissões as vezes sem responsabilidades das duas partes, também o amigo deve ter muita coisa para contar. Principalmente na era daquelas quantidades de fiação….
    Belos nomes citados e junto belas histórias, embora “Sem Leite”…muito boa essa história.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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