‘Faculdade’ de Letras

Publicado em: 29/06/2005

Como vocês devem se lembrar, Montini, nosso companheiro paulista, foi de trem e já havia se instalado num apartamento na Avenida de Roma, em Lisboa.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Lá deixamos as mochilas e fomos nos registrar na Faculdade. A Fundação Gulbenkian, fundada por um arménio magnata que se apaixonara por Lisboa, estava oferecendo ricas bolsas de estudo para estrangeiros interessados em estudar em Portugal – assim como para portugueses que quizessem estudar fora de Portugal. Nós nos qualificávamos como ‘estrangeiros’ e nos matriculamos no curso de filologia da língua portuguesa – nós e muitos ‘clochards’ brasileiros espalhados pela Europa. Nunca vi tantos cidadãos da terceira idade reunidos, a maioria de Paris! As aulas eram ministradas pelo então famoso Professor Cintra, defensor dos (estudantes) pobres e oprimidos, que liderava passeatas e incomodava o governo de Salazar. Eu passava o tempo dividido entre as aulas e Ula, uma antiga paixão dinamarquesa! Os dez mil escudos não chegaram ao fim da estada.

Consegui emprego de tradutor na ANI (Agência Nacional de Informações), o que durou um mês. O editor-chefe reclamava que tinha trabalho duplo comigo. Corrigir a tradução e o ‘brasileiro’! Na Faculdade ouvi o Prof. Cintra dizer que para ele se fala português em Portugal, crioulo nas colônias africanas e ‘brasileiro’ no Brasil! Foi um lindo verão de 1967 subvencionado em Lisboa. Ula voltara para Copenhaguem e eu conhecera uma jovem francesa que vivia em Londres. Depois de uma semana ‘a la francesa’, me despedi do pessoal e embarquei num vôo para Londres, onde iria ‘co-habitar’ com essa última conquista. Negada entrada por falta de recursos, fui devolvido a Lisboa no vôo seguinte.

Me recuperei da frustração e uma semana mais tarde eu e Valdyr estávamos de dedão em riste na estrada. Tinha que entrar na Inglaterra de qualquer maneira! Um caminhão de vinho nos levou até Elvas, a capital do Alentejo, Portugal. Dormimos no topo daquele muro medieval, tomamos café num bar local, onde ouvimos o povo falar com um sotaque parecido com o nosso, e entramos na Espanha a pé! Carona naquela região do mundo era difícil. Caminhamos muito.

Matamos a sede com frutas de cactus cheios de espinhos, do deserto espanhol, e finalmente conseguimos carona até uma cidade servida de trem. “Não gostamos de dar carona porque os ‘hippies’ cheiram mal”, disse o motorista do pequenino Renault quatre que nos levou até  Mérida. Para quem gosta de aventura, a terceira classe dos trens da Espanha era algo imperdível, com porcos vivos em sacos, espanhóis passando a pipa com vinho avinagrado, galinhas em engradados no corredor! Com a aproximação do cobrador, me lembrei de como chegava a Joinville fugindo das garras dos maristas no Colégio São Luis no meio da noite – pendurado na traseira do trem, até ele ir embora. Repeti várias vezes a proeza até Madri. Chegamos a Barcelona depois de um pernoite em Zaragoza.

Seguimos pela costa do Golfe du Lion, passando por Montpelliet até Arles, onde vivia uma jovem que conheceramos na faculdade em Lisboa, hoje um grande centro cultural. Chegamos na hora do grande petit-dejeuner, que mais parecia um banquete. Convidados para comer e já à mesa, não pude deixar de dar o meu tradicional ‘faux pass’: Alors, on vas bouffer”.

Prontamente criticado pelo pai da Françoise: “On ne bouffe pas. Son les animaux qui buffe. On mange!” ou seja, ‘quem buffe são os animais, nós nos alimentamos’. Foi um ‘repass’ delicioso e silencioso!

Mais tarde Françoise nos levou até Avignon, antiga posseção romana e a morada do papa fantoche Clemente V durante o chamado cativeiro Babilônio, de 1309 a 1378, no reino de Phlip IV, o Belo, que exterminara os cavaleiros Templares.

Passei algumas horas admirando aquelas muralhas até que um jovem estudante num Deux-Cheveaux – aquele carro típico francês que o topo abre como lata de sardinha – me deu uma carona direta até Paris, pernoitando em Lyon, numa casa da família.

Me esperavam em Londres a Language Studies Limited, para dar aulas de português a executivos que viriam dirigir suas filiais no Brasil, e a francesinha mas eu ainda pensava na radio de Praga. Falamos semana que vem. Au revoir.


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