Felicidade do nada ter. Saudade, muita saudade…

Publicado em: 07/10/2007

“Saudade, muita saudade; A mim perguntas: de quê? Vou dizer-te uma verdade:
Saudade só de você…” (JG de Araújo Jorge).
Por Aderbal Machado

Sinto saudades da margem do rio Araranguá, tomada pelo mato, grandes árvores, trapiches e pescadores bissextos, abrigos de lanchas, como a do “seu” Tuca Campos, que ficava ao ar livre, sem seguranças, sem travas e ninguém nela tocava;
Sinto saudades do ronco dos caminhões, “chorando” na primeira marcha para subir a “lomba do Paulo Hahn”, de chegada ao centro de Araranguá a partir do bairro Cidade Alta;
Sinto saudades do Nego Bahia, vendedor de loterias que ficava na calçada do antigo Café Ouro Preto, em Criciúma, chamando todo mundo de “Majó” e sobrevivendo sorrindo, sempre com um otimismo contagiante;
Sinto saudades, em Criciúma, da loja “A Brasileira” do Max Finster, com o balconista Mário Belolli, sempre vendendo roupas de primeira linha para homens de bom gosto;
Sinto saudades, em Criciúma, das Lojas Renner, (“a boa roupa ponto-por-ponto”) do Sinval Bohrer, um cavalheiro com ares e polidez de um “gentleman” inglês;
Sinto saudades da primeira vez que fui a Laguna, a convite do Agilmar Machado, meu mano e gerente da Rádio Difusora e lá vivi momentos maravilhosos, cheirando história e tradição;
Sinto saudades das matinês dos domingos à tarde, quando a gurizada assistia aos seriados de Flash Gordon e Capitão América no Cine Roxy, do Araranguá e lotava a sala;
Sinto saudades de quando, sem televisão, computadores, jogos eletrônicos, brinquedos sofisticados, a gente se reunia para apenas conversar e bolar como ludibriar o vizinho dono daquela goiabeira maravilhosa;
Sinto saudades quando a gente, em turma, ia apanhar araçás e outras frutas silvestres nos matagais perto de casa e brincava de “mocinho e bandido” no paiol de farinha de mandioca do Pedro Gomes, na Cidade Alta do Araranguá.
Sinto saudades do tempo em que “droga” era apenas um palavrão quase nunca proferido;
Sinto saudades das crendices como as almas penadas das noites escuras, dos potes de tesouro escondidos nas portas dos cemitérios (que só poderiam ser cavados à meia noite, e sem companhia…), da “tosse comprida” que poderia ser curada com um chá de bosta fresca de vaca, de que a cura da gagueira poderia se dar com uma bela porretada com uma concha de feijão na testa do gago e de que mulher grávida que pulasse vala teria filho com lábios leporinos;
Sinto saudades dos tempos em que, nos bailes-domingueiras, arrasta-pés empoeirados, as mulheres dançavam entre si para esperar dois rapazes virem separá-las com palminhas compassadas;
Sinto saudades dos finais de tarde exalando cheiro de flores silvestres, o cinamomo do quintal baloiçando devagar e as andorinhas no alvoroço do pôr-do-sol com sua cantoria, pousadas nos fios elétricos;
Sinto saudades de quem eu fui, guri sem nada a aspirar, querendo só um dia crescer, namorar, assistir filmes censurados, sair à noite e sonhar com uma roupa nova e um sapato brilhoso que o velho Telésforo, meu pai, não podia comprar;
Sinto saudades de 1961, quando, chegando a Criciúma para iniciar uma trajetória muito doida e surgir para o jornalismo, ganhava um salário-mínimo (Cr$ 7.200,00) e com ele pagava comida e quarto e não sobrava nada para coisa alguma.
Ah, tempo gostoso, não ter nada.
 


{moscomment}

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *