Filas

Publicado em: 02/09/2015

Prezado leitor ou ouvinte, hoje eu estava numa fila refletindo sobre… filas. Provavelmente, você já fez a mesma coisa. Por isso, o convido a pensarmos juntos sobre elas.

selo-narrando-a-vidaNão desejo buscar as raízes históricas dessa prática. Nem mesmo recuar muito, pois poderíamos chegar à fila primordial para cada um de nós: a fila dos espermatozoides no milagre da fecundação. Afinal, isso determina nossa presença hoje aqui. Prefiro me concentrar no fenômeno das nossas filas contemporâneas, como a de hoje, no banco.

Fila é ordem, uma imposição bem humana. Embora outros animais alinhem-se, ordenem-se, enfileirem-se, provavelmente só nós, seres humanos, temos consciência de quão maçantes e cansativas são essas arrumações em que estamos obrigados a ficar uns atrás dos outros, jungidos, seja por educação, normas, ou mesmo pela lei.

Filas são um subproduto inexorável dos aglomerados urbanos. Em cidades apinhadas não há jeito senão organizar filas, nos supermercados, pontos de ônibus, bancos e numa infinidade de outras situações.

Talvez as filas não nos aporrinhem tanto por causa da perda de tempo e pela exigida paciência de esperar. Creio que a subversão das filas é o que mais nos irrita. Explico-me.

É comum estarmos numa fila e alguém ou alguns passarem a nossa frente. Refiro-me não aos que têm esse direito, numa conquista civilizatória, como idosos, doentes ou mulheres grávidas ou com bebês no colo. Falo daqueles espertinhos ou abusados que surrupiam nosso direito, seja com o famoso “jeitinho”, seja dando “carteiradas”, ou simplesmente se enfiando na frente na maior cara de pau. Ah, e existem os que usam o velho e desgastado truque dos que encontram como que por acaso um amigo e, simplesmente, se encostam e vão ficando, até que se incorporam à fila, lá na frente.

Como tudo, a fila também tem seu lado positivo. Salvo nas exceções mencionadas acima, filas são democráticas. Onde mais tantos podem se igualar de forma tão completa? Respeitada em seus princípios, a fila não vê distinções, como condição social, nível educacional, cor da pele, sexo ou quaisquer outras que, tomadas como desigualdades intransponíveis, fazem com que alguns tenham mais direitos do que outros.

Ajustados às condições impostas pelas filas, temos outras vantagens: desenvolver nossa capacidade de esperar, ampliar os limites de nossa paciência, treinar a calma…

Considero a fila um ótimo lugar de observação das pessoas. O sentido ordenatório da fila leva cada um integrante dela a revelar seus demônios interiores, que os aconselham a mandar as regras ou as leis às favas, bem como o direito dos outros. Tendo olhos para ver e ouvidos atentos, podemos aprender nas filas a nos conhecer melhor, observando os destemperados, os impacientes e os espertos, em suma, todos aqueles que nunca parecem preparados para viver em sociedade, tendo não somente direitos, mas também deveres.

Poderíamos ficar aqui refletindo, caro leitor ou ouvinte, horas e horas sobre as filas e as idiossincrasias que elas revelam. Mas prefiro vê-las como são, coitadas, encompridadas pela burocracia, tornadas mais lentas pela incompetência de atendentes ou até pelo azar de esperar, esperar e depois bater no muro intransponível revelado pela expressão “o sistema caiu”.

Tentemos enfrentar, prezado ouvinte ou leitor, nosso calvário cotidiano das filas com um pouco mais de bom humor e resignação, embora sem abdicar de nosso direito de reclamar.

Na pior das hipóteses, depois da enésima fila de nossas vidas, chegaremos lá no final e, depois de apresentar nossa senha, seremos convidados a… entrar no paraíso, onde poderemos gozar para sempre do leite, do mel e da paz. Tomara que sem filas!

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